Lua Cheia, 15 de Maio de 2022

Lua Cheia

A hora e a vez de Brian Jackson

texto: Rodrigo Brandão

Oriundo de São Paulo, Rodrigo Brandão é performer de spoken word e está ligado à música desde sempre. Nesta colaboração com a jazz.pt, Brandão faz uma ponte com a música brasileira e outras referências pessoais do jazz. Depois de um primeiro artigo dedicado a Naná Vasconcelos, a segunda crónica da série “Lua Cheia” foca-se em Brian Jackson. 

Senti um sabor estranho quando engoli pela primeira vez a expressão “unsung hero”. Foi eufórico ver enfim rotulada uma condição recorrente nos relatos relativos a grande parte dos inventores mais incríveis que já ouvi. Só que o sol da surpresa foi-se rápido, encoberto pelas nuvens da melancolia que vem de mãos dadas com a percepção de que o mundão costuma moer, sem dó, seus seres mais sensíveis. É melhor nem começar a listar todas as baixas, porque senão nem temos texto tão cedo…

É facto que, no entanto, às vezes a matrix falha. Nessas ocasiões, tão raras quanto fantásticas, a minha malta celebra como se houvesse amanhã! Quando é confirmado um caso de justiça poética, e alguma dessas entidades passa, por ventura, a receber o devido valor, a macumba tem tom de milagre.

Confesso que custei um pouco a perceber que Gil Scott-Heron tinha uma cara metade artística. Porque o primeiro registo que chegou, me chacoalhando, foi a compilação “The Revolution Will Not Be Televised”, com o semblante solitário do poeta pintado por Carmine Coppola, o pai do realizador d’“O Padrinho”. Depois de alguns meses, eu já prestes a furar aquele disco que me encontrou na mesma semana em que soube da sua existência, a segunda vinda se fez: o gorilão da capa de “From South Africa to South Carolina” acenou do fundo da fileira final de ofertas na loja em segunda mão do bairro. E lá estava, estampado em letras tão grandes quanto as que enunciavam o vocalista, o nome Brian Jackson.

Naquele planeta pré-internet, a informação rareava e era ouro, ainda mais acerca de assunto assim específico. Antes mesmo de ouvir, comecei a perguntar-me se seria só aquele encontro, e qual a diferença do som tecido por esse teclista e flautista, e... Mal podia supor tratar-se do diretor musical de tão importante empreitada, compositor das canções; muito menos que os dois se conheceram como colegas de universidade e até moraram juntos. Nem sequer sonhava que geralmente as letras geniais apareciam a partir de imagens moldadas pela melodia, e não o oposto, como seria fácil supor; tampouco que até mesmo por detrás daquela capa da pintura pairava sua presença.

Reza a lenda que o jovem Gil tentou de imediato vender o peixe da dupla quando foi abordado pelo Bob Thiele, figura famosa por produzir Coltrane & companhia, então recém-saído da Impulse, em pleno impulso de voar com seu Flying Dutchman. O produtor, de olho no relativo sucesso comercial da estreia dos Last Poets pelo selo Douglas, trucou que a proposta a princípio era para uma “poetry recording”, mas que se tivesse saída suficiente para semear um sucessor, o segundo seria, aí sim, do cancioneiro deles.

Acordo assinado, num sopro se fez “Small Talk at 125th & Lennox”, o tal trabalho de spoken word, que vendeu várias vezes o número necessário. E entre um trago no tabaco do cachimbo e outro, Thiele trouxe a turma toda (Ron Carter, “Pretty” Purdie e Hubert Laws na linha de frente) para por de pé “Pieces of a Man” e “Free Will”. Ambos os álbuns são assinados como artista solo, mas a proeminência do parceiro é pulsante e, em documentários, artigos e citações mais recentes, ele passou a sempre ser devidamente destacado. Também pudera: aquela era a primeira vez num estúdio profissional, e já chegar com a incumbência de instruir alguns dos seus ídolos foi prova de fogo na qual poucos passariam.

A situação seria outra a partir de “Winter In America”, lançado pela mítica Strata East. Todos os sete álbuns que fizeram daí até o fim do duo e da década constam na capa como Gil Scott-Heron & Brian Jackson.

Depois do divórcio, Jackson tocou com nomes fundamentais como Kool & The Gang, Oneness Of Juju, Roy Ayers, Airto Moreira e muito mais, mas em modo discreto, talvez até demais. Rolou um reencontro com Scott-Heron no fim dos anos 90, mas nada duradouro. Passou por veneno na vida pessoal, mas optou por não processar o seu irmão, já então entregue ao vício, por desviar os direitos autorais. Mas o mais estranho é que, por razões que fogem à razão, ninguém na altura parecia perceber sua importância no processo, apesar da ironia de serem mais de Brian que de Gil, sonicamente falando, os samples usados por hordas de artistas de hip.hop desde a década de 80 até agora!

Porém, após a partida do precussor do rap, a atenção passou gradativamente a gravitar em torno do integrante remanescente. O movimento que já vinha evoluindo aumentou ano passado, quando saiu o oitavo volume da série “Jazz Is Dead”, desenhada por Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad (DJ de A Tribe Called Quest). O lançamento levou de volta aos luminosos o nome do nosso herói. E o elétrico não pára: a editora britânica BBE, de Dilla (“Welcome 2 Detroit”) e de Pete Rock (“Petestrumentals”), acaba de nos dar “This Is Brian Jackson”, álbum solo lançado esse mês.

Para festejar esta fase formosa, ele está em digressão e a boa notícia é que passa por aqui, pela primeira vez em Portugal! No Porto a 27 de maio e Lisboa no dia 4 de junho. Palavra de quem participa nas atuações: vai ser amor supremo.

Agenda

03 Julho

MenatJazz Ensemble

Parque Verde – Centro de Interpretação da Serra da Estrela - Seia

03 Julho

Zé Cruz Quarteto

Parque Urbano de Miraflores - Oeiras

03 Julho

Eduardo Cardinho / Zé Eduardo / Marcelo Araújo

Cantaloupe Café - Olhão

03 Julho

Garfo

Castelo de Leiria - Leiria

03 Julho

Big Band da EPSE com Jacinta e Mónica Ferraz

Parque Verde – Centro de Interpretação da Serra da Estrela - Seia

04 Julho

Funchal Jass Rhythm Kings

Yellow Bus - Funchal

04 Julho

Jorge Borges 5teto + Bruno Santos Almmond 3

Funchal Jazz - Jardim Municipal - Funchal

05 Julho

Décio Abreu 4teto + Vânia Sings Ella

Funchal Jazz - Jardim Municipal - Funchal

05 Julho

Luís Lopes e Hugo Costa

Jazz Messengers - Ler Devagar - Lisboa

05 Julho

Gabriel Bruce com Eduardo Cardinho, João Barradas e Diogo Alexandre

BOTA - Lisboa

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