20.ª Festa do Jazz, 21 de Dezembro de 2022

20.ª Festa do Jazz

Voltamos sempre

texto: António Branco, Nuno Catarino e Sofia Rajado / fotografia: Matilde Fieschi (dias 16 e 18) e André Dias Nobre (dia 17)

No fim de semana de 16 a 18 de dezembro aconteceu em Lisboa a 20.ª edição da Festa do Jazz, momento importante do calendário dos festivais de jazz em Portugal. Muitos concertos, o sempre aguardado concurso de escolas, jam sessions, debates e muita conversa. Tudo celebrando o jazz que se faz em Portugal, mas não só. A jazz.pt conta tudo o que por lá viu e ouviu.

A Festa do Jazz chegou à sua 20.ª edição, organizada pela Associação Sons da Lusofonia (ASL), sob a batuta sempre atenta e empenhada de Carlos Martins. O evento realizou-se no fim de semana de 16, 17 e 18 de dezembro, em três espaços localizados à beira Tejo: o Centro Cultural de Belém (CCB), o Picadeiro do Antigo Museu dos Coches (palco dos debates e do Encontro Nacional de Escolas de Jazz) e a Livraria Ler Devagar (Lx Factory), local para as jam sessions. Com programação de Carlos Martins e Pedro Melo Alves, a Festa do Jazz continua uma história que faz deste evento o maior festival português de jazz feito por portugueses, que se realiza há 20 anos sem interrupções, reunindo diferentes públicos, críticos, promotores, músicos profissionais e estudantes de jazz de todo o país.

A jazz.pt acompanhou o preenchido programa num Pequeno Auditório do CCB geralmente bem composto de público – os concertos foram transmitidos em direto pela RTP Palco, parceira na organização. O diretor artístico da Festa do Jazz, Carlos Martins, tem razão ao referir que «a Festa tem sido ao longo de vinte anos o maior e mais completo observatório do jazz feito em Portugal criando momentos únicos de revelação de novos talentos e de novas propostas de músicos consagrados. É desde sempre o espaço aglutinador ao promover um encontro nacional anual, criando redes, formais e informais, apostando na criação, na improvisação, na pedagogia e na troca de saberes dos envolvidos, incluindo os jovens das escolas de jazz nacionais.»

A 20.ª edição da Festa do Jazz arrancou na sexta-feira (16) à noite, com um espetáculo intitulado “Convite à Cidade: 20 anos de Festa do Jazz”, apresentado por um sexteto liderado pelo mestre percussionista indiano Trilok Gurtu e que contou com a participação de cinco músicos portugueses: o saxofonista Carlos Martins, o pianista João Paulo Esteves da Silva, o guitarrista Mário Delgado, o baixista Yuri Daniel e o acordeonista João Frade. A formação apresentou os arranjos escorreitos que trabalhou nos dias que antecederam o concerto. Gurtu introduziu o primeiro tema e logo se instalou um groove nutrido, terreno fértil para Delgado e Martins se entregarem aos respetivos solos. Ao segundo tema tudo acalmou, com Esteves da Silva e Frade a lançarem as bases para um momento aconchegante. Seguiu-se um tema mais alegre, marcado pela inventividade do percussionista, que recorreu a um arsenal de instrumentos para criar um verdadeiro festim rítmico, para o qual o baixo “cantor” de Daniel também contribuiu – na esteira de um Eberhard Weber, cujo posto passou a ocupar no Jan Garbarek Group. O guitarrista voltou aqui a assinar intervenção de relevo. A formação ficou então reduzida a trio (pianista, acordeonista e baixista) para um tema sereno, com Esteves da Silva soberbo nas deambulações melódicas que tanto marcam a sua abordagem à música e ao instrumento. Ficaram Frade e Daniel, regressou Gurtu para interessante nova interação a três. Em “Sinos de Lisboa” – tema resgatado ao álbum “Carlos Martins”, de 2016, inspirado na audição dos sinos de uma capela do bairro da Graça – brilharam o saxofone ágil e de novo o guitarrista, em excelente forma criativa. Um tema de travo mediterrânico com o saxofonista outra vez no centro do que acontecia – e um belo solo de Esteves da Silva – antecedeu a mensagem universalista de “Folded Hands”, tema de Trilok Gurtu que encontramos em “Arkeology”, disco de 2006 com o Arkè String Quartet. Foi então o momento para o percussionista ficar sozinho em palco, misturando os vários instrumentos (tablas, tambores e outros acessórios, convencionais ou menos habituais) com a sua própria voz. “Balahto”, do mesmo “Arkeology”, foi uma homenagem a África, «sem a qual não haveria jazz», lembrou Gurtu. O público presente gostou e ovacionou ao ponto de o grupo regressar para tocar “Vagar”, tema de Carlos Marins que fechou um concerto que recompensou. (AB)

Trilok Gurtu 

A iniciar as tardes de sábado e domingo (15h) tiveram lugar no Picadeiro do antigo Museu dos Coches dois debates sobre temáticas importantes: no sábado falou-se sobre “Cultura e Cidadania: Improvisação é Inclusão”, com intervenções de Andreia Monteiro, Dougie Knight e Joana Machado; no domingo o tema foi “O Som de Lisboa: territórios acústicos e cidade”, sessão que contou com a presença de Pedro Campos Costa, Carlos Santos e Carlos Martins. Iniciativas a que a jazz.pt, infelizmente, não assistiu. 

O Encontro Nacional de Escolas de Jazz, componente essencial da Festa do Jazz e um dos seus momentos que motiva maior expectativa. Agendadas para sábado estavam as apresentações dos vários combos oriundos de escolas não-superior: Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira – Eng. Luiz Peter Clode, Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal, JAM – Jazz Academy of Music e ART'J – Escola Profissional de Artes Performativas da Jobra. Quanto a Escolas Superiores, apresentou-se um combo formado por alunos da Universidade Lusíada de Lisboa, sob a direção de Nuno Costa. Para domingo caberia a vez aos alunos da Escola de Jazz do Barreiro, da Escola Básica e Secundária da Bemposta e da Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra. Das escolas superiores, apresentaram-se os alunos Escola Superior de Música de Lisboa, dirigidos por Nelson Cascais, e da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo – ESMAE). A simultaneidade destas apresentações com os concertos no CCB não permitiu à jazz.pt assistir às mesmas. 

No sábado, 17 de dezembro, no CCB, o primeiro concerto da tarde (16h30) ficou a cargo do quinteto da cantora Nazaré da Silva, com a própria (voz), João Almeida (trompete), Bernardo Tinoco (saxofone), Zé Almeida (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Em julho do ano passado a jovem cantora e compositora apresentou-se ao mundo com “Gingko”, o seu disco de estreia, que surpreendeu – e até conquistou o prémio de “artista revelação” dos Prémios RTP/Festa do Jazz 2021. No Pequeno Auditório do CCB, Nazaré apresentou um espetáculo assente nos temas do disco, juntando-se ainda um tema inédito. A sua voz estava acompanhada por dois sopros, saxofone e trompete, além de contrabaixo e bateria. Os sopros (Tinoco e Almeida, que se têm destacado em múltiplos projetos) entrelaçavam-se com a voz, entravam nas melodias mas exploravam também outros diálogos, com a voz ou entre eles mesmos; a secção rítmica fornecia a base estável, sobre a qual a voz fermentava as composições. Sentia-se por vezes a ausência de um instrumento harmónico, para fazer encher mais cada tema, mas tendo sido assumida esta escolha, a cantora aguentou-se bem, muito bem apoiada pelo grupo (todos músicos jovens e de notório talento individual). (NC)

Nazaré da Silva 

Logo a seguir (17h30), o contrabaixista e compositor Hugo Carvalhais apresentou esse notabilíssimo álbum que é “Ascetica”, acompanhado por Liudas Mockunas (saxofone tenor, sopranino e clarinete), Fábio Almeida (saxofone tenor e flauta), Fernando Rodrigues (órgão Hammond e sintetizador), Gabriel Pinto (órgão Hammond) e Mário Costa (bateria). Com uma consistente obra discográfica (quatro álbuns editados desde 2010), Carvalhais é um dos mais originais músicos da nossa praça e o contrabaixista portuense levou ao CCB a sua música invulgar: assente em estruturas bem definidas, abre espaço à improvisação; vai evoluindo pelos contributos individuais, que vão enchendo o som coletivo; e a instrumentação, atípica, com acentuados elementos eletrónicos, também convida à viagem. Numa espécie de ficção científica musical, o sexteto de Carvalhais desafiou os ouvintes numa imensa jornada espacial. Destacaram-se sobretudo os momentos em que as duplas instrumentais entravam em encontro e diálogo: Mockunas e Almeida nos saxofones enérgicos, e também os sons eletrónicos de Pinto e Rodrigues, em sobreposição. (NC)

Hugo Carvalhais 

Ao final da tarde de sábado, tocou no Picadeiro do antigo Museu dos Coches o trio DLW, com o baterista Christian Lillinger (que concedeu entrevista à jazz.pt, aqui), o vibrafonista Christopher Dell (ambos alemães) e o contrabaixista dinamarquês Jonas Westergaard. Debaixo de pinturas murais de traços neoclássicos, datados do período monárquico, a pretender demonstrar o poder do reino e ladeado de coches ornamentados, tocou o trio de música contemporânea, experimental e avant garde. Algo inimaginável aquando da construção daquele espaço e não deixa de ter a sua graça. As expectativas eram elevadas para escutar este trio de brilhantes músicos e, mais uma vez, confirmou-se o esperado. Foi mais de uma hora de música intensa, fisicamente muito difícil, muito expressiva, desafiadora e precisa. Se houvesse uma palavra para definir este trio, provavelmente seria “precisão”. Não será possível destacar nenhum dos três instrumentistas, pois para a qualidade técnica e sonora que apresentaram, teriam de estar, e estiveram, os três em perfeita sintonia. Houve momentos de muito detalhe, minuciosos, principalmente na bateria, mas também no vibrafone, com desenhos polirrítmicos quase constantes, que se interligavam com o apoio do contrabaixo certeiro, a jogar em duas frentes - na resposta à bateria e no apoio às harmonias e melodias disruptivas do vibrafone. Foi um concerto de criação revolucionária, de grandeza rítmica e tonal, em que o resultado foi a sensação de vários estímulos por milésimo de segundo, de sentir-se o apelo para seguir uma frase e rapidamente ser-se chamado para outra, apesar de surgirem também sequências sucessivas a contrariar esse caminho. E no meio de todo este experimentalismo, ainda por vezes foi possível escutar elementos de influência punk/rock. DLW é um trio em que os três elementos são compositores, interpretes, criadores e solistas. Há algum tempo que estes músicos realizam um trabalho conjunto e constante de pesquisa de novas sonoridades e arquiteturas na música, tendo já gravado álbuns. É uma atitude criadora nas artes que é livre, mas ao mesmo tempo tem muitas bases na matemática e muita inspiração filosófica. Este trio é também uma referência da denominada Neue Musik, que busca constantemente novas formas tonais, melódicas, rítmicas, novos sons, que pode basear-se ou não em algo já existente. E no último sábado, sob luzes coloridas e debaixo de murais datados, escutou-se música disruptiva. (SR) 

Para começar a noite, subiu a palco o projeto “Cosa de Dos”, de Salvador Sobral e do pianista espanhol Marco Mezquida. Todos conhecemos bem o cantor que ganhou a Eurovisão, e também os seus discos, mas desta vez não sabíamos o que poderia acontecer em palco em parceria com o pianista de Menorca. Num duo de voz e piano, Sobral e Mezquida começaram por interpretar um contido “In the wee small hours of the morning”, num registo inicial reverente, pouco expansivo. Mas a dupla rapidamente se foi revelando e conquistando o público. O pianista exibiu os seus predicados, trabalhando cada tema com imaginação, acompanhando a voz nas suas voltas. E a voz de Sobral já não deverá ser surpresa para ninguém, com uma magnífica qualidade técnica, mas é sempre capaz de surpreender. Ao longo da atuação Sobral mostrou a sua “showmanship” habitual e cantou temas em cinco línguas (português, inglês, francês, castelhano e catalão), sempre com personalidade, com uma abordagem original, e a voz sempre apoiada pelo virtuosismo de Mezquida, ágil e versátil. Ouviu-se um inesperado “Bridge over troubled water” (e nesta canção em particular, entre o público, viram-se lágrimas de emoção). E, depois de um medley, a dupla fechou com o regresso ao tema inicial, “In the wee small hours…”, novamente contido, para a despedida. Um espetáculo surpreendente que terá conquistado até quem não era fã. (NC)

 Salvador Sobral e Marco Mezquida


A anteceder o segundo e derradeiro concerto da noite, foram apresentados os Prémios RTP/Festa do Jazz 2022, por Carlos Martins e João Almeida (diretor da Antena 2), atribuídos em cinco diferentes categorias. Os galardoados foram Lantana (grupo do ano), João Lencastre (artista do ano), Tom Maciel (artista revelação) e António José de Barros Veloso (Prémio Mérito).

Para o fecho da programação no Pequeno Auditório do CCB, Lantana, formação constituída por Maria Radich (voz), Anna Piosik (trompete), Helena Espvall (violoncelo), Joana Guerra (violoncelo), Maria do Mar (violino) e Carla Santana (eletrónica), que este ano nos ofereceu o seu registo de estreia, “Elemental”, com selo da Cipsela. Após receber o prémio de grupo do ano, Lantana subiu ao palco do CCB. As emoções estavam ao rubro: se por um lado a euforia de ganhar um prémio e tocar logo em seguida era motivo suficiente para instalar o nervosismo, por outro, a expectativa do público era de curiosidade, o que tornou o concerto ainda mais desafiante para Lantana, que tocou em seguida a Salvador Sobral. Esta informação apenas seria uma mera curiosidade, não fosse o facto de encontrar na mesma sala e com o mesmo público, duas formas tão distintas de encarar a improvisação na música: uma no campo do jazz vocal e da construção de “medleys”, e outra na área da música improvisada e experimental. Constatou-se aí o conservadorismo que ainda reside em alguns ouvidos, ao ver-se que algumas pessoas abandonaram a sala no decorrer do concerto de Lantana. Quem ficou, pôde apreciar e usufruir da experiência sonora a que Lantana, ainda em poucos concertos, já nos habituou – uma viagem pelo mundo do som. Foi a primeira vez que a Festa do Jazz recebe um sexteto composto por seis mulheres, vencedor de um prémio. Com uma sala relativamente composta, Lantana iniciou o seu concerto a assinalar desde logo ao que vinha. É o encontro das linguagens muito próprias de cada uma das improvisadoras, que juntas, fazem todo o sentido, criando um ecossistema com vários ambientes que vivem em equilíbrio e simbiose. Cada uma tem um espaço de afirmação, mas respeitando o espaço da outra. No decorrer do concerto viajámos constantemente do imaginário macro para o micro, sendo que em determinados momentos se criou um ambiente híbrido, em que todo o som se encontrou para se diluir. E à partida poderíamos pensar que determinados instrumentos, dadas as suas características e história, representariam um papel esperado, mas não. A magia e a estética de Lantana também residem aí, na ideia de atravessar vários mundos que nunca se separam e procuram a união. Depois de ganhar o prémio de melhor grupo do ano, Lantana demonstrou aos seus ouvintes no CCB que não há papéis esperados, há caminhos livres. (SR)

Lantana 

Já no domingo, 18 de dezembro, a jornada de concertos arrancou às 16h30 com o projeto JAZZOPA, nascido no regaço da Associação Sons da Lusofonia. Três rappers (CADI, Noiatt e May) e uma poeta (Alice Neto de Sousa) a que se juntam dois sopros (Mateja Dolsak no saxofone tenor e Mariana Trindade no trompete, que assinaram intervenções sucintas mas valorosas), Tom Maciel no piano e teclados e uma secção rítmica com Zé Almeida no baixo elétrico e Miguel Fernández na bateria. Uma proposta eminentemente urbana que alia elementos do jazz de feição mais elétrica ao hip-hop, e letras com consciência social. A certa altura, MC CADI lança versos de forma repetida: «se a música nos une, então eu volto sempre». Confirmamos que sim, a música tem essa capacidade de unir as pessoas, e tal aconteceu na Festa do Jazz. E nós voltamos sempre. (AB)

JAZZOPA 

A seguir, a dupla Joana Raquel e Miguel Meirinhos apresentou “Ninhos”, com selo do Carimbo Porta-Jaz), onde à cantora e ao pianista se juntaram o contrabaixista Demian Cabaud (quando entrou em palco envergando a camisola 10 da seleção argentina de futebol ainda estava a uns minutos de saber que esta se sagraria campeã mundial), e o baterista João Cardita. A música do quarteto é frágil (na aceção positiva do termo) e prenhe de detalhes, explorando aquilo a que a cantora chamou de «universo de desamarrar». Destaque natural para o canto dulcíssimo e para a delicadeza do pianismo de Meirinhos; Cabaud esteve exímio com o seu reconhecido som pleno de musicalidade. A Cardita pedia-se, a espaços, um pouco mais da contenção que esta música reclama. Fixaram memórias peças como “Sintoma”, a primeira peça que compuseram, com a sua atmosfera solene muito ligada à utilização do arco pelo contrabaixista, “Despertar”, íntimo duo de voz e piano, “Crivo”, introduzida por Cabaud, com piano cristalino e a voz especial de Raquel, e “Cardos Amarelos”, peça com que encerraram uma atuação convincente. (AB)

Joana Raquel 

Ao final da tarde, já no Picadeiro do Antigo Museu dos Coches, apresentaram-se as HERSE, trio constituído por Sofia Sá (voz), Clara Lacerda (piano) e Raquel Reis (violoncelo). Criado de propósito para o festival Theia, por proposta da programadora Rita Maria, o grupo teve aqui a sua segunda apresentação pública. Se duas das intervenientes são oriundas do universo do jazz (Lacerda e Sá), a violoncelista vem da música clássica (com ligação à Orquestra Gulbenkian). As três instrumentistas encontram-se a meio caminho, erguendo uma música inclassificável, que acaba por conter algumas das características de música de câmara. O trio interpretou meia dúzia de temas, e as três mostravam-se bem alinhadas, por vezes sobrepondo as suas vozes musicais, em uníssonos, ora estabelecendo diálogos, articulando uma dinâmica particular. A abordagem é original e daí resulta uma música que desfia convenções. Sente-se que há espaço para a música do trio crescer e evoluir, pelo que queremos seguir com atenção os seus próximos passos. (NC) 

A programação da noite iniciou-se às 21h com o trio Perselí, um dos concertos que nesta Festa do Jazz mais expectativa gerou a este escriba. Constituído pela contrabaixista e vocalista Fuensanta Méndez, oriunda do México, o escocês Alistair Payne no trompete e o português José Soares no saxofone alto, o grupo, criado em 2018 na cidade de Amesterdão, esteve pela terceira vez em Portugal e trouxe o seu álbum de estreia homónimo, lançado em agosto de 2022 pela Minaret Records. Uma geometria sonora inusitada, da qual emergiu uma música serena, envolvente e melodicamente rica, onde a voz desempenha amiúde o papel de fiel da balança entre as contribuições dos dois sopros, de maior aproximação ou contraste, entrelaçando-se sem o suporte de uma grelha harmónica e ganhando frescura e liberdade. Os melhores momentos aconteceram em peças como “Chronostasis” e “Yo Te Buscaba Tanto”. No derradeiro tema, Fuentesanta deixou de lado o seu corpulento instrumento e apenas cantou, tendo sobressaído ainda um belo solo do trompetista. Um concerto que elevou o interesse para acompanhar o que o trio fará daqui para a frente. (AB)

Perselí 

Antes do derradeiro concerto foram entregues os Prémios Lurdes Júdice – antiga vice-presidente da Associação Sons da Lusofonia durante 19 anos e desaparecida em 2018 –, respeitantes ao Encontro Nacional de Escolas. Quanto às escolas não superiores, os vencedores foram a ART'J – Escola Profissional de Artes Performativas da Jobra (Melhor Combo) e o contrabaixista Emanuel Inácio (Melhor Instrumentista), aluno do Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira – Eng. Luiz Peter Clode. As menções honrosas para combos couberam à Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra e à Escola Básica e Secundária da Bemposta. No plano dos instrumentistas, os galardoados foram a baterista Íris Valente, da Escola Artística do Conservatório de Música de Coimbra, e o trompetista Henrique Pinto, da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal. Nas escolas superiores, as menções honrosas prestigiaram a Escola Superior de Música de Lisboa, o saxofonista alto Álvaro Pinto, da mesma Escola, e o vibrafonista Pedro Sequeira, da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto. O júri dos prémios foi este ano constituído pelos músicos Isabel Rato, Bruno Pedroso e Paula Oliveira.

Para o fim da programação da 20.ª Festa do Jazz no CCB, um quarteto de luxo liderado pelo trompetista Gonçalo Marques e pelo contrabaixista Demian Cabaud, com Bram De Looze ao piano e Jeff Williams na bateria, contexto ideal para explanar as virtudes da interação entre os respetivos predicados. Tudo começou com “Antípoda”, bela peça de Marques que encontramos no álbum “Totem” do duo ¡Golpe! (que mantém com o baterista João Lopes Pereira). Trompete luminoso, piano atento e cumpridor, contrabaixo sempre inventivo, bateria discreta mas sempre presente (notável o trabalho com vassouras). Seguiram-se as deambulações livres de “Primeiro Toque” (peça que abre “Linhas”, álbum de 2019 no Carimbo Porta-Jazz), a intensidade swingante de “Redes” (saída da pena do contrabaixista) e, notavelmente, a mais noturna “Vienna Fin de Siècle”, com Marques soberbo no fliscorne e Cabaud mais uma vez a aditar gravitas. Um belo fim de Festa. (AB)

Marques/Cabaud Quarteto 

Pelas noites dentro, tiveram lugar concertos com o pianista Tom Maciel e os seus convidados Thiago Alves (contrabaixo) e João Sousa (bateria), no sábado; e Thiago Alves, com a pianista Júlia Perminova e o baterista André Sousa Machado, no domingo, ambos seguidos de jam sessions (a que a jazz.pt não assistiu).

Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos anos a Festa tem demonstrado particular foco à igualdade de género e tal refletiu-se numa programação atenta, com muitos projetos liderados por mulheres. A programação vem revelando também, e também de forma progressiva, uma cada vez maior abertura e diversidade, acolhendo as diversas formas de jazz e improvisação, muitas vezes cruzando fronteiras de estilo – uma programação que, arriscando desagradar a alguns ouvintes, merece aplauso.

Cumpriu-se assim mais uma edição da Festa do Jazz. Ficam os votos para que a próxima continue a ser insubstituível montra para um panorama jazzístico nacional cada vez mais plural, rico e vibrante.

Agenda

01 Fevereiro

Com Calma Jazz Jam

Com Calma - Espaço Cultural - Lisboa

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Salão Brazil - Coimbra

04 Fevereiro

Coletivo Osso/Porta-Jazz “Interferências” / Umbral

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

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