Funchal Jazz Festival 2022, 12 de Julho de 2022

Funchal Jazz Festival 2022

Cécile, a grande

texto: António Branco / fotografia: André Ferreira

Aconteceu entre 4 e 10 de julho mais uma edição do Funchal Jazz Festival, com um cartaz diversificado, que incluiu concertos de grandes nomes, apresentações de alunos, jam sessions, workshops e uma exposição. A grande triunfadora foi a cantora (e muito mais do que isso!) Cécile McLorin Salvant, com uma atuação inesquecível. A jazz.pt esteve lá e presta contas do que viu e ouviu.

«Toda ela é um jardim, e tudo o que colhem na dita ilha é ouro.» Quem o disse em meados do século XV, foi o navegador e explorador veneziano Cadamosto, referindo-se às belezas da ilha da Madeira, que bem conhecia. Recebeu este deslumbrante palco mais uma edição do Funchal Jazz, festival que decorreu entre 4 e 10 de julho em diferentes espaços da capital madeirense. Apesar de o evento ter principiado no dia 4, com concertos no Jardim Municipal, os momentos principais aconteceram na sexta, 8, e no sábado, 9, no Parque de Santa Catarina, sempre sob a infatigável batuta do diretor artístico, Paulo Barbosa.

Na sexta, com o astro-rei ainda a iluminar a magnífica baía, a Orquestra de Jazz do Funchal (OJF) interpretou um programa especial constituído por composições e arranjos de Mário Laginha, com o próprio ao piano. O que se escutou foi o resultado de uma semana de produtiva interação entre o pianista e uma formação que aproveita todas as oportunidades para crescer e robustecer o seu som. A função iniciou-se com “Horn Please”, tema inspirado numa viagem à Índia e resgatado ao álbum “Cor”, de 1998. Seguiu-se a melodia lindíssima de “Parrots and Lions”, com a cantora Madalena Caldeira a lutar bravamente para dar conta do recado. “Estiramantens” teve um belo solo do saxofonista Francisco Andrade. “Ribeira da Barca”, tema do recente “Jangada”, em trio, conheceu aqui uma adaptação para o contexto orquestral, com a cantora a aceitar o repto de escrever uma letra propositadamente para a ocasião. Do mesmo álbum ouviu-se também “Chorale n.º 2”, que resistiu ao transplante para esta outra dimensão sonora. Laginha levou a OJF ao limite com o arranjo intrincado de “Matosinhos” (do qual se elevou um ótimo solo do trompetista Alexandre Andrade), peça que compôs para a Orquestra Jazz de Matosinhos. A cantora voltou a estar à altura do desafio na melodia de embalar de “A Lua Partida ao Meio”, de “Chorinho Feliz”. A máquina do tempo voltou a funcionar no enérgico “Coisas da Terra”, de “Danças”, álbum de 1994. Fundada em 2019, e dirigida pelos irmãos Francisco e Alexandre Andrade, a big band funchalense desenvolve um projeto de características únicas no panorama do jazz na Madeira, trabalhando clássicos do formato, com músicos de jazz, amadores e músicos clássicos locais. Um trabalho de enaltecer e que se deseja continue a frutificar.

A noite prosseguiu com o concerto da norte-americana Cécile McLorin Salvant, cantora, compositora e artista visual, senhora de vincada personalidade artística, cuja abordagem pluridimensional felizmente não se deixa policiar. Escutei-a pela primeira vez ao vivo vai quase para uma década, quando foi a grande surpresa, para estes ouvidos, da edição de 2013 do Angrajazz (nessa altura, escrevi isto). Salvant olha para trás e para a frente, para o erudito e o popular, o reverenciado e o esquecido, fazendo convergir elementos do jazz mais avançado, blues, teatro musical, cancioneiros tradicionais, para construir, com inteligência e sensibilidade, uma “visão” artística pessoal e de inatacável coerência. Os músicos superlativos que a acompanharam são também decisivos para tudo o que acontece: o grande Sullivan Fortner (piano), Marvin Sewell (guitarra), Paul Sikivie (contrabaixo) e Keita Ogawa (percussão) – com este último a aportar o contributo que acabou por se revelar o menos interessante. O repertório que Salvant trouxe ao Funchal espelha essa visão ampla e não balizada do jazz e suas ligações a outros universos sonoros. Desde logo na forma como interpelou “Mista”, emblema de Dianne Reeves, com uma voz tão maleável quão potente, ou na leitura emocionante de “Over the Rainbow”, acolitada pelo piano de Fortner (o homem de lata, onde estiver, sorriu, feliz). Ao recente álbum “Ghost Song” – a sua estreia na Nonesuch – foi buscar “Optimistic Voices/No Love Dying”, com intervenções de alto nível de Sewell e Sikivie, “Obligation” e a peça-título (devoto de Kate Bush, confesso que senti a falta de “Wuthering Heights”). Resgatou do olvido uma trovadora do século XIX e recordou “Fog”, do álbum “For One to Love” (2015), que começa impressionista e logo adquire um balanço irresistível. Do assombroso blues sofrido de “Saint Louis Gal” (Sewell de novo brilhante) passou ao registo operático de “Pirate Jenny” e “The World Is Mean”, de “A Ópera dos Três Vinténs”, de Kurt Weill. Releu “Wild is Love”, canção popularizada por Nat King Cole no princípio dos anos sessenta. Numa atuação inesquecível, Salvant, impermeável a facilitismos (embora admita que possa ter amenizado a sua prestação para ir ao encontro do público; em disco assume uma postura mais combativa, ativista, se quiserem), tornou cada interpretação um desafio para si e para quem a escuta. E assim, brilhando a grande altura, ofereceu-nos o momento maior do festival.

O segundo dia de concertos trouxe ao Parque de Santa Catarina dois nomes fundamentais do “novo som” da Blue Note, o quarteto do altista Immanuel Wilkins e o quarteto Good Vibes do vibrafonista e pianista Joel Ross. Ambos os músicos, ainda jovens – Wilkins tem 24 anos de idade e Ross 26 – conhecem-se bastante bem dentro e fora do palco, desenvolvendo colaborações cruzadas, e têm vindo a erigir universos sonoros particulares, solidamente fundados na tradição do género, mas acomodando elementos que adubam criativamente esse substrato. Ambos os projetos apresentados no Funchal podem ser enquadráveis num mesmo movimento que reinventa e introduz novas contribuições, mas que não abdica de dar sequência ao centenário continuum jazzístico, preservando o basilar e propondo novas soluções, operando numa zona onde reverência e transgressão se confundem. Não obstante os vários pontos de contacto estilístico (inclusivamente na forma económica como se dirigiram ao público), há características que claramente os distinguem.

Wilkins, acompanhado pelo superlativo pianista Micah Thomas, o contrabaixista Rick Rosato e o baterista Kweku Sumbry, apresentou “The 7th Hand”, disco de 2022. Uma música eivada de particular espiritualidade (não esqueçamos, a propósito, o que o próprio nos disse em notas de apresentação do disco: «um canal para a música como um poder superior que realmente influencia o que tocamos»), que tanto emerge encharcada em blues, como em sequências de acordes que remetem para alguma música erudita contemporânea, como quando recorre a motivos repetitivos (o sempre interpelador discurso do pianista foi verdadeiramente influente neste plano, como naqueloutro em que evoca as torrentes de serenidade saídas das mãos de um Bill Evans). Rosato e Sumbry formaram uma secção rítmica que se revelou sempre pronta a intervir e a acrescentar graus de liberdade. Ao serviço de uma ideia global cada vez mais sólida na sua cabeça, o saxofonismo de Wilikins, ágil e convicto, é de largo espetro, surpreendendo tanto em linhas de grande riqueza melódica como em ferozes ataques numa veia ayleriana.

O derradeiro concerto desta edição do Funchal ficou a cargo do quarteto Good Vibes, de Joel Ross, inicialmente um protegido de Stefon Harris e um dos mais excitantes vibrafonistas da atualidade. Natural de Chicago mas atualmente residente em Brooklyn, Nova Iorque, Ross surgiu acompanhado pelo saxofonista alto Godwin Louis – a primeira vez que o escutei ao vivo, confirmando a ótima impressão que me deixara em disco (“Global”, o seu registo inaugural em nome próprio, de 2019, é recompensador), revela uma abordagem que radica nos mestres, tanto quanto emana doçura, como quando roda o botão da intensidade –, a competente contrabaixista Kanoa Mendenhall e o irrequieto Jeremy Dutton, dupla que manteve acesa a fogueira rítmica. Por vezes cerebral e densa, mas também sensível e de uma pureza cristalina, a música de Ross também bebe avidamente na fonte do jazz mais espiritual, acrescentando-lhes doses generosas de improvisação e de exploração de motivos melódicos e rítmicos mais complexos. Sublinhe-se que alguns dos momentos mais interessantes aconteceram com Ross ao piano – sobretudo quando não tergiversou em excesso –, nutrindo harmonicamente certas passagens (se o grupo fosse um quinteto, com piano e vibrafone, a experiência teria sido ainda mais impactante). Também interessantes foram algumas passagens em trio (sem Louis), a revelar a empatia alquímica na interpelação das habituais premissas do formato. O melhor ficou guardado para a encantatória peça final, ao mesmo tempo um questionamento e um afago para a alma.

Após os concertos principais, e pela noite dentro, aconteceram as jam sessions no Qasbah (mesmo ao lado do antigo Scat de boa memória), a cargo de uma superformação constituída pelo guitarrista Nuno Ferreira (em ótima forma), o saxofonista João Mortágua (uma espécie de Midas do jazz nacional), o contrabaixista Francisco Brito e o baterista Luís Candeias, com músicos locais a aceitarem o repto e a subirem também ao palco. Na madrugada de domingo, juntaram-se-lhes os músicos dos quartetos de Immanuel Wilkins (que tocou bateria) e de Joel Ross, que cumpriu o seu 26.º aniversário (com direito a “Parabéns a Você” entoado pelos presentes).

Na quinta-feira, dia 7, no palco instalado no belo Jardim Municipal, decorreram as Provas de Aptidão Profissional (PAP) do Curso Profissional de Instrumentista de Jazz do CEPAM. Perante o júri e publicamente, apresentaram-se o saxofonista alto Tomás Noronha, a cantora Matilde Agrela, a guitarrista Juliana Pacheco, o saxofonista tenor Roberto Chulata, a cantora Carolina Ferreira e o baixista Daniel Correia. Ficaram na memória a voz versátil e quente da promissora Carolina Ferreira – que escolheu como tema da sua prova o repertório de Jazzmeia Horn (não teve receio em abordar, por exemplo, “I Thought About You”, “Legs and Arms” ou a soberba “Lift Every Voice and Sing”/“Moanin´”) e o som encorpado do tenorista Roberto Chulata (na foto), que centrou a sua apresentação em torno da música de Dexter Gordon (“Blow Mr. Dexter”, “Chromatic Aberration”, “Fried Bananas” ou “Cheese Cake”).

Do programa do Funchal Jazz Festival 2022 fizeram ainda parte três concorridos workshops no Salão Nobre do Conservatório - Escola Profissional das Artes da Madeira - Eng. Luiz Peter Clode (CEPAM), sempre ao início da tarde. Na sexta-feira, dia 8, Jorge Borges – figura histórica do jazz na Madeira – membro fundador do Oficina (1979-2003), G-BAP ou Dixie 8 Fun, presente nos primeiros tempos do Madeira Jazz Collective, pianista, promotor e pedagogo, fez uma interessante resenha das duas décadas de atividade do Curso de Jazz do CEPAM, mas recuando aos alvores, desde as primeiras referências ao jazz na Madeira, datadas de 1927. Foi focada a evolução do curso de jazz desde a sua criação, em 1999 – após ideia inicial de Miguel Rodrigues (à data diretor do Conservatório) – nas suas duas grandes fases, a primeira das quais com fortes ligações ao Hot Clube de Portugal; foram mencionados os principais alunos saídos do curso de jazz, alguns com relevância à escala nacional, como é o caso da cantora Vânia Fernandes, e as principais atuações públicas de instrumentistas e formações oriundas do CEPAM, na região e no continente, nomeadamente na Festa de Jazz do São Luiz. Os números falam por si: pelo Curso Profissional de Instrumentistas de Jazz do CEPAM passaram 279 alunos (42 concluíram e 21 prosseguiram estudos superiores) e 48 professores, que se apresentaram em 180 atuações públicas.

No sábado, 9, foi a vez de o saxofonista, compositor e maestro Pedro Moreira dinamizar uma masterclasse de cariz eminentemente técnico dedicada ao tema “O Ritmo na Improvisação”, durante a qual abordou aspetos relacionados com as acentuações rítmicas e métricas, a pulsação, as sobreposições métricas, os jogos que se estabelecem no seio da secção rítmica e sua relação com o papel do solista. Tudo exemplificado em diversos exercícios e apoiado na escuta de exemplos como o concerto brandeburguês de J.S. Bach, passando por R. Strauss (“Till Eulenspiegels lustige Streiche”), até “Oleo”, de Sonny Rollins, na versão eterna incluída no álbum de Miles Davis, “Bags Groove”, de 1957, para a Prestige.

Joel Ross e os músicos que o acompanharam deram um workshop no derradeiro dia do festival (10, domingo). O quarteto elaborou à volta de “Evidence”, de Thelonious Monk, exemplo de peça de que Ross gosta para esquartejar e trabalhar à sua maneira. Para o vibrafonista, tudo passa por «internalizar a música e depois fazer coisas diferentes com ela.» Um excerto de “Tenor Madness”, de Sonny Rollins, foi outro exemplo que um grupo de alunos se voluntariou para trabalhar na ocasião. «Todos os músicos deviam tocar piano e bateria, para compreender melhor a harmonia e o ritmo», acrescentou Ross. Questionado sobre o que para ele são os blues, o músico norte-americano hesitou. «Os blues são uma expressão da experiência negra, mas não se confinam a isso. Os blues são honestidade.» Mais tarde, durante a conversa, entendendo-a incompleta, retomou o fio da resposta. «Os blues são também quando não tens comida para a semana.»

Mas o programa do Funchal Jazz 2022 começara no dia 4 de julho com uma apresentação itinerante pelo centro da cidade num autocarro de turismo e, durante três finais de tarde, um conjunto de concertos duplos, no frondoso Jardim Municipal: o quinteto de Jorge Borges e o projeto Almmond 3, do guitarrista madeirense Bruno Santos (dia 4); o quarteto do guitarrista Décio Abreu e o projeto da cantora madeirense Vânia Fernandes (na foto), “Vânia Sings Ella”, dedicado a revisitar o repertório de Ella Fitzgerald (dia 5); o quarteto da jovem cantora madeirense Sofia Almeida e o quinteto liderado pelo contrabaixista Ricardo Dias (dia 6). Concertos a que a jazz.pt não assistiu.

Mesmo em frente, e durante todo o festival, esteve patente no Teatro Municipal Baltazar Dias a exposição “O Jazz na BD”, com curadoria de Leonel Santos.

Dias de ótima música, num cenário de cortar a respiração. A contagem decrescente para a edição de 2023 já começou.

A jazz.pt viajou a convite do Funchal Jazz Festival.

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

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