17.º Portalegre JazzFest, 11 de Julho de 2022

17.º Portalegre JazzFest

Um calor fresquinho

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: João António

Regressou, depois da pausa a que todos os festivais foram obrigados, o Portalegre JazzFest que assim assume a sua 17.ª edição. A um ano de completar a maioridade, os concertos que decorreram no excelente Centro das Artes e Espetáculos da capital de distrito, continuam a lutar contra o maior obstáculo do saber: a falta de curiosidade. A desertificação não se dá só na demografia. Pode ser também intelectiva. O CAEP tem sabido manter uma programação interessante e convidativa nas mais diferentes áreas e a parceria com Pedro Costa, uma das principais figuras do jazz europeu, mantem o evento com propostas atraentes, um elevado nível de qualidade e acessíveis a um público menos especializado. Um equilíbrio fino. Estivemos lá para desfrutar dos prazeres da região, incluindo a música.

O festival começou no dia 7, quinta-feira, com um concerto do trio de Luís Vicente “Chanting In The Name Of”. O grupo veio com Hernâni Faustino no contrabaixo (em vez de Gonçalo Almeida com quem gravou o disco) e Pedro Melo Alves na bateria. É muito curiosa a música deste trio que parece funcionar em sentido contrário. É Vicente quem expõe os temas com clareza e serenidade e Pedro Melo Alves flutua por dezenas de pequenos ritmos nunca estabilizando um andamento entendível como regular. Faustino foi quem coordenou as dinâmicas do grupo, com um contrabaixo cheio de groove que nos manteve dentro da música e a perceber o seu sentido. O concerto decorreu no auditório, uma sala com as dimensões perfeitas para aquele evento.

Luis Vicente 

Revisitar Portalegre é sempre um prazer e a cidade e os arredores têm muito para oferecer. Findo o concerto fomos a um desses muitos: a comida.

 

Alimentados, voltámos ao Centro onde tudo acontece para ouvir os Cortex, um quarteto norueguês que conhecemos bem.
"música sul africana meets Albert Ayler & Ornette Coleman", disse Pedro Costa por graça mas é uma imagem ajustada. Os Cortex  são um dos grupos mais interessantes do jazz do norte da europa com uma fórmula secreta extraordinária. Todos tocam excecionalmente bem os seus instrumentos e têm uma característica qualquer particular. Isto faz com que a união resulte numa música que soa familiar e é ao mesmo tempo muito especial. Depois as músicas: ter um grupo norueguês a referenciar-se em material sul-africano é querer juntar dois mundos: um que quase toca no polo norte e o outro no polo sul. E eles fazem-no tão bem, com música direta, simples, coesa que se solta magnificamente nos solos. Não é música sul-africana mas sentimos discretamente a sua presença. Canções cantáveis, solos incríveis, uma ligação trompete-saxofone gémea. Um paraíso.

Foi por isso um concerto-convite: quem quer que fosse que não soubesse o que era jazz mas tivesse curiosidade – a grande destruidora da ignorância – sairia contente. Já eramos fãs dos “Cortex” através dos discos, mas o palco revelou-nos um super-grupo. O novo baterista Dag Anderson, menos swingante e mais matemático, lembra a forma de tocar de Magnus Öström, dos Esbjörn Svensson Trio. Uma bateria muito contemporânea onde os ritmos da eletrónica são evocados na bateria tradicional. Esperamos com curiosidade a saída do próximo disco com o “new drummer”.

 

Grande noite de música que se prolongou em modo alentejano, numa conversa magnificamente esplanadada, numa noite de verão. Falou-se de música, da vida, e celebrou-se o regresso à normalidade da vida.

No segundo dia do “Fest”, sexta-feira, os dois concertos eram noturnos. Ainda bem: as temperaturas subiram e andar na rua às seis da tarde era áspero. Conscientes do problema tomaram-se medidas: de manhã fomos a banhos com os Cortex no Pego do Inferno, uma cascata que ainda não foi descoberta pela turistagem. Almoçamos garbosamente na praia fluvial de Mosteiros onde se pode comer sem música ambiente. Que local civilizado!

Um dia tudo isto será um mar de turistas ingleses, os bares terão uma banda a tocar covers da Bonnie Tylor e dos Men At Work. Televisões passarão jogos de futebol britânicos e a comida será de plástico. Hoje, ainda é possível ser magnificamente cevado pela mãe do Miguel e do Nuno - a fiadora da cozinha - enquanto os filhos simpaticamente nos orientam o alimento.

 

Mas foi a música que nos trouxe e por isso regressamos pontualmente ao auditório principal para ouvir ao vivo o “Ascetica” ao vivo, o novo disco de Hugo Carvalhais. A música do contrabaixista portuense é pensada como um todo e cada disco é uma obra coerente e estruturada e é também assim também que funcionam os concertos. Simplificando, poderíamos dizer que é um prog-jazz, onde os sintetizadores criam a coesão que é explorada pelo dois saxofones e pelo contrabaixo.

Não é fácil encher 500 lugares fora das grandes cidades, mas assim mesmo a plateia esteve muito preenchida, sem esgotar; os portalegrenses aceitaram o convite para ouvir esta música complexa e detalhada, mas que se consegue ouvir fluidamente, como um disco dos Pink Floyd (do início). O grupo de Carvalhais veio com algumas novidades: um segundo sintetizador nos dedos de Fernando Rodrigues e João Martins a substituir Mário Costa na bateria. Recostámo-nos para ouvir o concerto todo quase de seguida, como se fosse uma grande peça (que é). fomos levados por movimentos diferentes dentro de uma grande ideia musical. Que bom concerto! e tão diferente da noite anterior.

Carvalhais é uma voz distinta no jazz português, que não pensa em temas, mas em grandes unidades musicais. Os seus discos e concertos não são uma sequência de músicas, mas uma grande composição com várias canções dentro.

Acabado o concerto (e petiscados – mais uma das ideias típicas do festival de Portalegre, que nos brinda com vinhos, queijos e enchidos da região depois dos concertos) subimos para o bar do primeiro andar para ouvir o Bill Shakespeare's Romeu and Joaoliet. Um trio de saxofone, bateria e contrabaixo liderado por Bill McHenry. O saxofonista americano (mas a residir em Barcelona) colabora regularmente com Orrin Evans, Eric Revis, Andrew Cyrille, Reid Anderson e Ben Monder juntou-se a Romeu Tristão e João Pereira. A ideia de usar um trio com saxofone para tocar com o mindset de um de piano nasceu com a pandemia, que levou os dois portugueses até Barcelona, para confinajazzarem com o americano no seu apartamento. Assim nasceu esta música que toca baixo, espaçada e pensativa; que não precisa de amplificação pois nasceu para ser contida e limpa. Os presentes no bar deram-lhe a atenção que precisava e o concerto em duas partes correu sereno e descontraído. Foi bonito reencontrar Romeu Tristão e João Pereira no palco de Portalegre, onde os ouvi há 7 anos no quarteto com Ricardo Toscano. Hoje, músicos muito mais complexos e capazes de tratar a música com diferentes abordagens. Continuam uma secção rítmica extraordinária.

Bill Shakespeare's Romeu and Joaoliet.

Reconhecemos espetadores de Lisboa e do Porto que provam que este tipo de acontecimentos são um ótimo pretexto para muitos para um fim-de-semana fora de Lisboa. Mais divulgação, pelo menos nas redondezas, teria trazido mais público ao CAE.

 Rio Sever

Também nós fomos à procura do frescor no dia seguinte e rumámos até Portagem onde a comida (Mil-Homens, Hotel Sever) reconcilia qualquer um com a vida. Some-se uma fresca praia fluvial, assistida por uma fila de grandes árvores que fornecem a necessária sombra aos 38 graus que o Sol de julho resolveu debitar. O castelo de Marvão encima o cenário. Nirvana.

Desmoemos a música em água fresca e arroz de lebre para nos prepararmos para a última noite que chegou com Maria João e o seu Ogre Electric.

 Maria João OGRE electric

Já o escrevemos - mas não é exagero voltar a fazê-lo - a admiração que temos pelo trabalho da Maria João. Não podemos avaliar um concerto sem pensar nos inúmeros aspetos positivos da carreira da cantora; desde logo o domínio absoluto da voz e do canto e a criação de uma linguagem que – goste-se ou não – é única. É impossível não dever um enorme respeito a esta originalidade. Outro aspecto é o cuidado que tem com a imagem. Desde as fotos para o seu último disco à roupa de palco, Maria João trabalha muito bem a sua representação, com uma sofisticação rara e bom gosto incomuns no nosso meio musical.

E por fim a ideia de espetáculo, desde a organização das músicas ao diálogo com o público que soa espontâneo e único mesmo quando faz parte de um protocolo estudado.

Os “Ogre Electric” de “Open your mouth” são um quarteto que é liderado pelos teclados de João Farinha que asseguram toda a estrutura musical. Soma-se o computador de André Nacimento, com um papel muito discreto neste concerto, que adicional alguns efeitos sonoros e texturas.

Musicalmente acontece pouca coisa para além da voz da cantora que puxa o barco todo sozinha. Na bateria esteve um convidado Moçambicano que não surpreendeu, com uma marcação rítmica evidente, que só acentuava o que acentuado estava e dois solos com a mesma fórmula. Nos teclados e eletrónica ouvimos as bases melódicas para as canções.

O CAE, que voltou a estar com a plateia quase preenchida, provando que o público português valoriza o jazz português, gostou, aplaudiu e pediu um encore que chegou com uma versão vocal do “Wimoweh”, uma canção escrita pelo sul-africano Solomon Linda (1939, originalmente “Mbube”) que foi popularizada nos anos sessenta por Miriam Makeba e holywoodizada por Yma Sumac .

 

A noite era dupla, como habitualmente e por isso subimos ao primeiro andar para ir ouvir o elogio à guitarra elétrica montado por André B. Silva, com os  “The Guit Kune Do”.

São 5 guitarristas eletrificados, um baixo e uma bateria. Ao vivo ficou ainda mais difícil de perceber as ideias por trás deste projeto que parece cruzar o (mau) hard rock com a música para navios de cruzeiro. Será eventualmente um problema meu, mas não consegui perceber a lógica e intenção daquelas composições e arranjos e identificar outras referências; ou talvez a ambição de revisitar, numa versão amadora, a música rocócó editada pela GRP (Spyro Gyra, Yellowjackets, Crusaders, etc.).

Temas emaranhados a duas e três vozes, frases desinteressantes. Houve um grande investimento e esforço para ensaiar a cinco vozes aquelas canções; mas ouvi-los também pediu alguma bravura.

Fechou a edição deste ano do festival de Portalegre que, felizmente para a cidade e para a região, persiste. Vimos muito público jovem e mais interesse nos concertos. Foi uma festa de 6 concertos em 3 dias que mostra ter muito potencial para atrair ainda mais público – local e visitantes – e para crescer. 

Agenda

29 Novembro

Sélène Saint-Aimé

Teatro da Trindade - Lisboa

29 Novembro

Mariana Dionísio e João Pereira “Tracapangã”

Hot Clube de Portugal - Lisboa

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

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