Marquis Hill, 13 de Abril de 2022

Marquis Hill

Um virtuoso em permanente atualização

texto: João Morado

O trompetista norte-americano Marquis Hill já é um dos grandes. Com um novo álbum e um super-grupo a acompanhá-lo (onde se inclui o prodígio Joel Ross), Marquis Hill esteve em digressão pela Europa. João Morado presenciou o concerto final da tour, no dia 29 de março em Southampton.

Marquis Hill é um dos grandes do jazz contemporâneo: toca trompete como poucos, compõe com uma elegância excedentária, e move-se com os melhores da sua e contíguas gerações. Com uma discografia que fala por si em termos de qualidade e quantidade, impressiona que o chicagoano não seja presença mais assídua no velho continente. Hill fala a língua do presente, e fá-lo com uma classe e articulação incomuns. Jazz, hip-hop, funk, R&B, e (neo-)soul são para ele diferentes faces de um mesmo poliedro, polimórfico e adaptável, que o músico molda com notável mestria para a construção de uma linguagem híbrida e convergente na qual desembocam vários dialetos musicais, uns mais urbanos, outros mais formais, mas que regra geral provêm de um mesmo ancestral comum, de uma mesma origem, aquela que resultou nas várias declinações estilísticas em que se segmentou o espírito musical afro-americano ao longo do século XX.

Detentor de uma musicalidade altamente informada, acreciva, agregadora, mutável e sempre presente, não surpreende que recentemente Hill tenha tido necessidade de revisitar o seu passado musical. O percurso inicial do trompetista foi marcado por uma sonoridade nuclearmente post-bop, que em certas passagens se revestia de leves tons§ hip-hop, soul e R&B. Nesta fase marcadamente post-bopeana, o magnum opus de Hill foi indubitavelmente o disco “The Poet”, lançado em 2013 pela Black Unlimited Music Group, etiqueta gerida pelo próprio e que editou a maioria dos seus trabalhos. Apesar de “The Poet” se caracterizar por uma tendência crescente de aproximação a um jazz fincado em toda a sua extensão pelos ritmos do funk e do hip-hop - tendência enfatizada pela percussão de Makaya McCraven, baterista do disco e que, além disso, voltaria a participar em diversos trabalhos posteriores do trompetista -, a conversão plena a um jazz poroso e dialogante apenas se deu verdadeiramente em “Modern Flows Vol. I”.

Lançado em 2014, ano em que o trompetista foi vencedor da prestigiada competição do então Thelonious Monk Institute of Jazz (actualmente Herbie Hancock Institute of Jazz), “Modern Flows Vol. I” representou um ponto de viragem na carreira do trompetista, que deste então tem vindo a experimentar de tudo um pouco: produziu beat tapes (“Love Tape” uma “versão” eletroacústica do  “Beats Vol 1: Amor”, de Sam The Kid); incorporou as texturas da electrónica e do trap na sua música (“Soul Sign” e “Meditation Tape”); trabalhou constantemente com rappers e artistas de spoken word; lançou discos por majors (“The Way We Play”, 2016, Concord Jazz); elaborou ensaios musicais sobre temas de meditação, espiritualidade e amor-próprio.

Com um novo álbum na bagagem e um super-grupo de Chicago a acompanhá-lo, Hill esteve durante o mês de março em digressão pela Europa, tendo passado pela Holanda, Suíça, Alemanha, Itália, França e Reino Unido. Foi aliás por Albião que a jazz.pt teve oportunidade de presenciar aquele que foi o concerto final desta digressão, que aconteceu no dia 29 de março, na sala Turner Sims, na cidade mais solarenga de Inglaterra, Southampton. Compreende-se com naturalidade a razão da passagem obrigatória de Hill por estes lados. O trompetista lançou, em março, “New Gospel Revisited” pela etiqueta britânica Edition Records, álbum no qual revisitou e aumentou o seu primeiro trabalho discográfico, “New Gospel”, de 2011. O facto de vir acompanhado pelo jovem prodígio Joel Ross, que uniu, pela primeira vez, forças a Hill em “Modern Flows Vol. II”, elevou anda mais as expectativas para este concerto. Além disso, precisamente neste segundo volume da série “Modern Flows”, também tocou Junius Paul, aquele que foi o baixista de serviço na sala Turner Sims. Por fim, em Southampton, a bateria esteve ao comando de Jeremiah Collier, uma das surpresas da noite, pela intensidade, dinâmica e amplitude de recursos demonstrados, quer a solo quer nos acompanhamentos.

Chegada à hora da atuação, a sala de espetáculos encontrava-se lotada a três quartos. Como sempre, ganharam em termos de qualidade de som os espectadores que ficaram com os lugares mais distantes do palco. As extraordinárias condições de conforto da sala não se compadecem com as suas condições acústicas, que não favorecem os lugares da frente, especialmente quando há um baterista de ação profusa no palco (o mesmo problema havia tido o ensemble seed.), como é o caso de Collier. Ainda assim, nada que tenha impedido uma usufruição plena da música de Marquis Hill. Curiosamente, o concerto começou com “Twin Flame”, tema de “Modern Flows Vol. II”, uma excelente oportunidade para prontamente nos deliciarmos com a musicalidade de Ross, sempre de olhos no instrumento, sem nunca enfrentar a plateia, nem mesmo nas entradas e saídas do palco. É impressionante e distinta a presença musical de Ross, a qual contrasta em absoluto com a sua tímida presença física. Dele emana o mesmo brilho natural que referenciámos quando recentemente falámos de Immanuel Wilkins. Ross é genial no vibrafone, ainda que apenas competente no piano, instrumento em que tem um papel fundamental nas formações do trompetista. O concerto seguiu com temas de “New Gospel Revisited”, viz., “Law and Order”, “New Gospel”, “The Thump” e por aí em diante, aqui e ali intercalados por medleys, de entre os quais se destacou uma polirrítmica sessão meditativa em que os quatro músicos tocaram pequenos instrumentos percussivos – pandeiretas, chocalhos, cabaças, etc. -, enquanto palavras de devoção a Deus - pelo que se entendeu, arkhé e telos da música de Hill - eram reproduzidas em segundo plano.

Sempre no centro do palco, Marquis Hill, personagem principal deste quarteto, encantou facilmente a plateia com o seu virtuosismo. É um melodista nato, com um apreço especial por linhas coesas e cativantes, muito influenciadas pelo trompetismo de Lee Morgan e Freddie Hubbard. A sua música exibe, além disso, uma preferência óbvia por temas baseados em composições, pouco improvisados, apesar da improvisação sempre surgir, não sendo esta, contudo, o ponto-chave que explica a música do trompetista. Ainda assim, em Southampton, houve espaço para solos individuais, tocados com acompanhamento mínimo do restante grupo, todos eles agradáveis de se escutar. Os dois vértices rítmicos do quarteto revelaram-se, também eles, homens de amplo fôlego musical. O groovy Junius Paul – de quem é altamente recomendada a audição do trabalho “Ism” (International Anthem, 2019) -, sempre de postura relaxada e confiante, tem dedos, técnica e musicalidade que chegue para extrair qualquer vibração grave, redonda e pungente do seu baixo elétrico, tendo sido totalmente eficaz a criar os sulcos rítmico-melódicos necessários para meter a cabeça dos espectadores a balançar. Já o dinâmico e intenso Jeremiah Collier é um verdadeiro monstro na bateria: swinga com pedal duplo, alterna entre diferentes grooves rítmicos, a priori imiscíveis, num pestanejar, e nem mesmo um bombo furado logo ao segundo tema o impediu de brilhar em pleno fulgor. No final, houve oportunidade para tirar uma fotografia e trocar algumas palavras com Marquis Hill. A imagem não engana: estava envergonhado... sou fã! 

Agenda

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Diogo Alexandre Bock Ensemble

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Antón Quintela 5tet

Teatro Helena Sá e Costa - Porto

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Teatro Narciso Ferreira - Riba de Ave

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El Twanguero

O Cinema - Oliveira de Azeméis

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Júlio Resende & FBP Jazz Sessions

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

27 Maio

Orquestra de Jazz do Algarve com Ana Laíns e Cherry

Cerca do Convento - Loulé

27 Maio

Brian Jackson

Passos Manuel - Porto

27 Maio

João Capinha Quinteto

Sala do Clube - Valado de Frades

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