Homenagem a Bernardo Sassetti, 17 de Dezembro de 2021

Homenagem a Bernardo Sassetti

Como se faz um país

texto Gonçalo Falcão fotografia Vera Marmelo

No passado dia 15 de Dezembro a Culturgest homenageou Bernardo Sassetti recordando um concerto ali decorrido em 2007. Ao piano sentou-se João Paulo Esteves de Silva, com Carlos Barretto e Alexandre Frazão a repetirem presença. Assim se mostrou como se cuida de uma cultura.

O grande auditório da Culturgest estava cheio, o que, nos dias que correm, não é fácil. A pandemia deixou sequelas também nos espetáculos e ainda hoje há muita gente com raciocínios e habituações que os fixam em casa. Assim, a primeira nota é para o feito extraordinário de encher uma sala grande para ouvir jazz português.

Sentámo-nos num clima de dupla lembrança. No átrio estava disponível o disco que memoriza a gravação feita por Nelson Carvalho do concerto realizado naquele mesmo lugar, em 2007. No palco tocava o mesmo trio, só que com João Paulo Esteves da Siva no banco anteriormente ocupado por Sassetti. O músico esteve ali presente, vivo através da sua música e dos nossos corações. A apresentação foi feita por Pedro Santos, programador da Culturgest, Pedro Costa, pela Clean Feed, e Inês Laginha, pela Casa Bernardo Sassetti. Explicaram-nos ao que vínhamos e sentaram-nos belissimamente no contexto daquela noite. Foi um privilégio ouvir este trio que resumiu numa hora 40 anos de aperfeiçoamento nos respetivos instrumentos. São “master musicians” na verdadeira acepção da palavra.

O concerto, organizado com muita inteligência, não foi uma réplica da atuação de 2007: teve músicas de Sassetti, de Barretto e de João Paulo Esteves da Silva e um tema de Freddie Hubbard (“Little Sun Flower”), uma das preferências dos dois pianistas. Assim, relembrou-se, homenageou-se, representou-se e evocou-se, sem vénias, mas com a vontade de manter vivo um legado importante da música portuguesa.

Recordámos como é lógica a sua música, que, de tão natural, tantas vezes parece que sempre ali esteve, aguardando só que alguém a encontrasse. João Paulo esteve notável, introduzindo um olhar mais contemplativo sobre as composições, com respirações surpreendentes e uma articulação nova para as melodias. Tocou-as de forma concisa, sem as explicar em demasia. Perfeito. Alexandre Frazão e Carlos Barretto estiveram ao mais alto nível: são “monstros” ou “gigantes”, como foram apelidados. Dois casos excecionais de qualidade. Frazão manteve-se criativo na bateria, sempre à procura de novos recursos para colorir o ritmo com sons interessantes, e Barretto propôs novas ideias para a leitura da estrutura rítmica.

No final, a Culturgest presenteou-nos com a impressão de três fotografias da autoria do pianista que sempre foi um criador irrequieto e multifacetado. Os discos esgotaram. Saímos com a sensação de que é disto que se faz um país, é isto que ficará como património. É com esta música e com estes músicos que nos sentimos orgulhosamente portugueses, europeus e mundiais. E que esta beleza faz mais pela alma do que muito livro sagrado. Ainda bem que tanta gente cuida de a bem guardar, editar e tocar.