Guimarães Jazz, 29 de Novembro de 2021

Guimarães Jazz

Somethin’ Else

texto Gonçalo Falcão fotografia Paulo Pacheco

Um festival que cria públicos que criam festivais que criam públicos, é isso o Guimarães Jazz. Neste mês de Novembro comemorou 30 anos de vida e que bom que foi voltar à cidade, pelos motivos descritos já aqui em baixo.

Foi em Novembro de 1971, há 50 anos, que se fez o Cascais Jazz, o primeiro festival de jazz em Portugal. No mesmo mês, mas em 1992, começou o Guimarães Jazz: por isso 30 voltas a máquina vimarenense; nasceu com o apoio do Hot Clube para o pontapé de saída (clube que, por sua vez, muito deve ao Cascais Jazz a sua expansão) e logo depois deixou de vir em caixotes pelo Expresso e assumiu-se localmente, com uma equipa da terra a organizar e realizar o evento. Nasceu no Café Milenário,local ainda hoje encantador, com mobiliário moderno informado. Um festival não é só uma série de concertos alinhavados em datas sucessivas e, neste sentido – repetimo-lo –, o Guimarães Jazz é hoje um exemplo do que deve ser um festival de jazz.

Chegámos no primeiro dia sem saber que o cérebro iria ser sovado com música impossível. Nada o fazia prever, dado que Vijay Iyer é nosso conhecido e um trio de piano, contrabaixo e bateria não é notícia no jazz. Erro nosso, há que confessar: o disco “Uneasy”, que apresenta o seu novo grupo, editado este ano pela ECM, não foi ouvido com a profundidade que naturalmente merecia.

O pianista é um garante de qualidade, mas este novo trio é um caso especial. Percebemos ao olhar para a história do jazz que a pauta é importante e que a técnica é importante, mas que é na arte de montar os grupos que as pautas e a técnica se transformam em coisas únicas (ou deslaçam como a maionese). E estes três juntos são uma combinação explosiva de talentos que se reforçam para lapidarem diamantes de olhos fechados. Linda May Han Oh tem um passado relativamente sóbrio na primeira divisão (Pat Metheny, Joe Lovano, Dave Douglas, etc.). Neste trio leva com a bateria mágica de Tyshawn Sorey, que nunca toca como seria expectável. Iyer dá-lhe espaço e música para ela poder viajar e a contrabaixista malaia aproveita-o.

É uma música e um som relativamente diferentes do que estamos habituados, com menos repetições mântricas e muito mais inquietação com as formas e os ritmos. Como se estivesse a pôr em causa tudo, num processo de experimentação constante à volta de uma ideia. Música turbulenta, forte, sábia, que ao vivo ganha uma força máxima (só comparável a um concerto de Wayne Shorter, no mesmo palco, há vários anos atrás). Ficámos colados à cadeira como numa montanha russa, atentos, envolvidos pela música. Acabámos batidos pela enorme intensidade, que exigiu o máximo dos ouvidos e do cérebro. É para isto que estamos vivos. É por isto que gostamos de jazz.

Depois da tareia do primeiro dia regressámos ao treino com o cérebro ainda dorido. Felizmente, o concerto de Miguel Zenón foi balsâmico, massajante, como se antecipava. Um quarteto tranquilo, tocando músicas dançáveis, escritas pelo saxofonista porto-riquenho, acolitado pelo pianista venezuelano Luis Perdomo e com o ritmo chefiado por Henry Cole (também de Porto Rico), que assegura a fluência das pulsações. No contrabaixo está o austríaco Hans Glawischnig, num registo mais seguro.

Zenón trouxe ao palco de Guimarães o mesmo grupo que usou para tocar a música de um dos seus últimos álbuns, “Sonero”, em que reinterpreta as pautas do seu compatriota salsista Ismael Rivera. O saxofonista teve sempre o cuidado de não se fechar no “latin jazz”, conseguindo construir um compromisso viável entre o jazz de tradição americana e a música do seu país. Percebemos a presença das melodias tradicionais no esquema formal do hard bop, num ajuste muito mais equilibrado do que o conseguido na COP26. Boa música.

Sábado e domingo, como é hábito, programam dois concertos: um à tarde e outro à noite. Sábado era um dos dias grandes, com actuações que se antecipavam interessantes. A primeira por parte de um trio com ligações a Portugal, já que tocou no Hot Clube de Lisboa e editou pela Clean Feed. O WHO Trio tem uma ideia curiosa, pois mistura o jazz clássico – em particular o swing de Ellington – com a improvisação livre. Estes músicos tocam em conjunto há muitos anos em diferentes formações e este trio em particular leva 12 de palcos.

Vijay Iyer

Vijay Iyer Trio

Miguel Zenón

Miguel Zenón Quartet

WHO Trio

Michel Wintsch

SuperBigMouth

Chris Lightcap (ao centro)

Ryan Cohan

Big Band ESMAE

Inês Malheiro

Guimarãs Jazz/Porta-Jazz

O baterista Gerry Hemingway é nova-iorquino, mas decidiu mudar-se para a Suíça no início deste século. É o piano do suíço Michel Wintsch que fica responsável por nos dar as melodias. Bänz Oester, no contrabaixo, e Gerry Hemingway são mais destrutivos: partem e abrem as músicas, viajando rapidamente para mundos mais indefinidos e abstratos. Usam-se processos extensivos nos instrumentos, traficando o som da bateria e do contrabaixo com rolhas, copos e outros recursos, mas no final o que ouvimos é um Duke Ellington transportado para a improvisação total, respeitando o original, mas dissecando-o até ficarmos apenas com os ossos, nunca se perdendo nem nunca deixando de estar presente e audível).

À noite fomos ouvir o SuperBigmouth: é a versão revista e aumentada do Bigmouth do contrabaixista Chris Lightcap (Chris Cheek, Craig Taborn, Gerald Cleaver, Tony Malaby + Andrew D’Angelo). Na proposta original o grupo subia para oito elementos, mas incompatibilidades com o passaporte de Gerald Cleaver obrigaram-no a ficar em casa e assim o SuperBigmouth ficou septetizado. Na sua versão inicial o “super” tem duas baterias (Gerald Cleaver e Dan Rieser), duas guitarras (Jonathan Goldberger e Curtis Hasselbring), Craig Taborn com os teclados e Tony Malaby e Chris Cheek nos dois sax tenor. Chris Lightcap está encarregado da escrita e organização disto tudo e, claro, do baixo elétrico e do contrabaixo. Na versão do grupo que viajou para Guimarães tivemos Ben Monder a substituir Jonathan Goldberger, Brian Marsella ficou com o banco de Craig Taborn e Josh Dion sentou-se àbateria.

A música de Lightcap está ultra bem definida: as formas são fechadas, com melodias lindíssimas, por isso tudo o que é imprevisto se passa a um nível de microscópio. É entusiasmante ouvir como os músicos inventam ideias no pouco espaço que lhes dão. Grandes “grooves” de baixo, melodias e contramelodias que até doem de bonitas, uma boa dinâmica de conjunto intensa e coesa (com Marsella e Ben Monder audivelmente menos rotinados) e com arranjos muito cuidados e detalhados. Andámos próximo do rock e da pop de alguns grupos como Arcade Fire ou Broken Social Scene. Grande música num contexto acessível e divertido, num concerto a passo estugado.

Domingo à tarde fomos ouvir um grande concerto. Ainda não o sabíamos quando chegámos ao Centro Cultural Vila Flor, tendo em conta que se tratava de uma apresentação dos alunos da ESMAE, do trabalho com Ryan Cohan. O pianista (e o seu quinteto) ensaiaram os alunos em composições suas (e uma de Duke ellington) para um concerto de muito bom nível. Excelentes composições, muito bem arranjadas e distribuídas pela “big band” esmaense. Foi ali, no grande auditório, que percebemos como Portugal evoluiu nos últimos 30 anos. Aqui – muito mais do que noutros locais – vimos o que ainda há pouco tempo seria totalmente impossível: esta quantidade de jovems músicos a tocar ao mais alto nível. Já não estamos limitados a um contrabaixista de jazz, um pianista de jazz, um guitarrista. Agora temos muitos e muito bons e esta formada que subiu ao palco de Guimarães promete. Ouvimos imensa qualidade nos sopros, nos dois bateristas, nos dois pianistas, nos dois contrabaixistas: um prazer. Se não soubéssemos que eram estudantes, aceitávamo-los perfeitamente como profissionais. Que bem tocaram!

Já a noite foi triste e aborrecida. A parceria entre o Guimarães Jazz e a Porta-Jazz é outra das boas ideias em que se disponibiliza uma sala de ensaios para a construção de uma peça que cruzes artes, a sonora e outras (teatro, artes visuais, etc). É uma aposta numa coisa da qual nada se sabe antes de acontecer e isso é de uma coragem louvável. Este ano coube a Inês Malheiro e à artista plástica Carolina Fangueiro. Visualmente o espectáculo foi pobre, com uns plásticos tensos que nos escondiam os músicos. A potencialidade da ideia era entusiasmante e antecipei luzes, sobras difusas, um jogo de revelação e estranheza... mas não. Foi um “spleen” visual em que os músicos permaneceram difusos e quase estáticos e a iluminação quase sempre fixa. A música acompanhou o bocejo da luz, com ritmos e movimentos previsíveis e uma voz que pouco acrescentou ao que já fizeram – melhor – Annette Peacock ou Susan Languille.

Como sempre, o jazz deu motivos para ir e para querer regressar em 2022 a fim de ver e ouvir a 31ª parte de um grande peça. Guimarães continua a ser uma cidade onde se sonha um dia poder viver e onde a oferta cultural (não só do festival, mas de todos os equipamentos da cidade) faz inveja à quase totalidade das capitais de distrito. A equipa de produção continua a impressionar pela forma com que faz tudo parecer fácil e pelos imensos cuidados que dedica a todos os pormenores; ao longo de vários anos já aqui referimos vários, desde a carta que recebe os convidados ao “design” gráfico, que é uma referência constante de qualidade. Guimarães é Somethin’ Else.