Outonal, 24 de Novembro de 2021

Outonal

Quando a música é performance

texto Rui Eduardo Paes fotografia José Félix da Costa

A improvisação voltou no final da semana passada à Atouguia da Baleia, com um MIA adaptado à estação do ano. Na ocasião, e muito devido ao “workshop” “The Sound of Stories”, a música aconteceu frequentemente em forma de performance, possibilitando outros tipos de abordagem. Saibam como aqui em baixo...

Foram quatro dias os agendados para o MIA do Outono (daí o nome Outonal) na Atouguia da Baleia, num programa promovido pela Zpoluras, a estrutura portuguesa que integra o colectivo europeu Share. Quatro dias, de 18 a 21 deste mês de Novembro, vividos como os únicos possíveis antes de um anunciado novo confinamento. Ao contrário do que vem sendo de regra com o MIA propriamente dito, com as participações a funcionarem por “open call”, desta vez todos os músicos foram convidados, aos nacionais associando-se os representantes das organizações congéneres que integram a recém-formada rede continental dedicada à música improvisada, vindas de França, Itália e Dinamarca.

Quatro blocos intercalados de programação estavam definidos. Um dedicado a duos, com o programador Paulo Chagas a fazer “matching” com o que conhecia dos percursos e das personalidades musicais dos intervenientes – Luís Guerreiro com Jerôme Fouquet, Maria Radich com Mia Dyberg, Yoram Rosilio com Miguel Mira, João Pedro Viegas com Sean Drewry, Pino Collonna com Carlos Cañao, Maria do Mar com Carla Santana. Outro com formações constituídas ao acaso, em momentos que ficaram designados como “random sets”, nos quais participaram os ditos mais Nuno Rebelo, Manuel Guimarães, Carlo Mascolo, Nuno Torres, Nuno Morão, Paulo Chagas, Felice Furioso, Jorge Nuno, Paulo Duarte, Noel Taylor, Cortez Lamont e Alvaro Rosso. Um terceiro, que acabou por funcionar como o eixo de tudo o mais que se ouviu, foi o “workshop” conduzido por Maria do Mar e Maria Radich, com o nome “The Sound of Stories”. O último foi constituído pelas “jam sessions”, com outras combinações dos presentes que não as predeterminadas, e com surpresas como a de ver e ouvir o violoncelista Miguel Mira a tocar piano ou o contrabaixista Yoram Rosilio a fixar-se no oud. Não me alongarei sobre esta vertente: de registar apenas que, na derradeira “jam” do festival, pegou-se numa composição de Sun Ra e converteu-se esta num samba.

 

The Sound of Stories

 

A oficina orientada por Maria do Mar e Maria Radich foi uma variação do projecto de performance musical que ambas tiveram há uns anos, BookingPoint. A ideia era que os factores espaço e movimento fossem integrados na produção de som, de modo a que aos instrumentos se acrescentasse um outro elemento de relacionação do corpo com o entorno: tal como em BookingPoint, este elemento era constituído pelos livros que tinham sido espalhados no palco do auditório da Sociedade Filarmónica de Atouguia da Baleia. Os livros proporcionavam uma múltipla funcionalidade: definiam trajectos e corporalidades específicas, implicavam um manuseio sonoro e, simplesmente, podiam ser lidos ou cantados («isto ainda não acabou», repetia Paulo Chagas numa ocasião, porque foi essa a muitíssimo oportuna frase que encontrou num romance). Vários exercícios estiveram em sucessão, tendo sido de um modo muito natural que os músicos se descentraram das suas habituais ferramentas de trabalho – começando por aqueles instrumentos musicais que obrigam a uma fixação num só lugar – para inter-relacionarem os seus corpos feitos instrumentos ou munidos de instrumentos ou partes de instrumentos como mediadores com as paredes, o chão, os livros-objectos e os demais corpos.

Destas fórmulas derivaram outras, como entradas e saídas de performers-músicos das situações criadas, ou intervenções que não tinham o factor música como intenção, mas que eram acto musical por si só (víamos Nuno Torres a tocar o seu saxofone, mas não o ouvíamos), ou ainda a criação de “loops” de notas únicas partilhadas entre os intervenientes, levando a que outras formas de organização (por exemplo, utilizar poucos elementos ao nível individual) fossem surgindo que não as habituais numa situação concertante. A apresentação final dos resultados deste intenso dia de trabalho reuniu aspectos dos quadros que foram experimentados, mas estes fizeram-se sentir também em outras ocasiões no Outonal. Outras histórias se contaram, pois, que não as expectáveis, e foi essa influência libertadora, esse rasto, que a violinista Maria do Mar e a cantora e bailarina Maria Radich provocaram no festival.

 

Duos

Maria do Mar 

João Pedro Viegas

Carlos Cañao

Maria Radich

Carla Santana

O primeiro duo da série proposta de encontros a dois no Conde Távora reflectiu de imediato os efeitos de “The Sound of Stories”: os trompetistas Luís Guerreiro e Jerôme Fouquet sentaram-se diante um do outro com uma mesa de permeio, olhos nos olhos, e transformaram o seu concerto numa performance. Era como se estivessem a desenvolver uma partida de xadrez, pontuando cada jogada com o premir de uma campainha. Na mesa estavam várias surdinas, alguns objectos sonoros e canecas com chá, que ocasionalmente iam bebendo. Estabeleceram uma conversa, ora com texturas abstractas, ora com fraseios mais caracteristicamente tonais, ora com silêncios, e iam fazendo soar os seus instrumentos enquanto os desmontavam e remontavam, ou não os utilizavam de todo no fazer musical, nunca desviando o olhar do parceiro neste ritual. Foi um dos momentos mais bem conseguidos dos quatro dias de colaborações, para entusiasmo de quem assistia – os outros músicos neste “congresso” realizado à porta fechada.

O duo seguinte juntou a glossolália de Maria Radich e as preparações saxofonísticas (por meio da colocação de folhas de alumínio na campânula do alto) de Mia Dyberg – a voz era um instrumento de sopro e o instrumento de sopro era uma voz, numa actuação que tinha a escuta do outro como fundamento. A intensidade da “bricolage” sonora que ia sendo urdida manteve-se até nos instantes mais comedidos, com a inquietude como única regra, ou não fossem as expressões de fervor místico ou de incontinência verbal esquizofrénica aquelas que constituem o material cantante de Radich e o ziguezaguear argumentativo de Dyberg.

As estratégias discursivas de Yoram Basilio no contrabaixo e de Miguel Mira no violoncelo, mais adiante, foram igualmente desconstrutivistas, elaborando um jogo de espelhos cujas imagens eram devolvidas com uma rapidez estonteante, de tal maneira que cada um parecia interferir no que o outro dizia, com o contraditório, o desacordo, a alimentar o diálogo e a dar-lhe um sentido global. A linguagem utilizada pelos dois músicos era discordante, o que constituía já um acordo tácito. Já a dupla de João Pedro Viegas e Sean Drewry funcionou por concórdia, com o clarinete baixo do primeiro a fazer as vezes de um sintetizador acústico, com o electrónico de Drewry a enovelar-se nos seus timbres e a prolongá-los. A conjunção ocorria como se fossem moldadas duas massas diferentes, mas com iguais potencialidades de mesclagem.

Pino Collonna com os seus pequenos instrumentos de madeira, entre palhetas duplas orientais e flautas, e Carlos Cañao com gongo, taças, harmónio e um monocórdio repuseram a dimensão ritualística, no caso mesmo cerimonial, e 10 minutos bastaram-lhes para a sua performance essencialista. Foi como se estivessem a criar um folclore imaginário, pleno de cores e alusões, mas intimista, frágil e efémero. Uma viagem foi o que Maria do Mar e a manipuladora electrónica Carla Santana nos proporcionaram, com um formato muito simples e insistente – de processamento do violino com base no “delay”, no eco e no “loop” – a ter máximas consequências. Camadas iam-se sobrepondo a outras camadas, com multiplicações violinísticas e das vozes das duas intervenientes, com as linhas tocadas por Mar a tornarem-se gradualmente mais longas, desenvolvidas e derivantes. Havia espaço na música e ocupação desse espaço e havia um implacável sentido de linearidade temporal, premiados por uma ovação final que não deixou dúvidas quanto ao agrado geral.

 

Random sets

Mia Dyberg, Alvaro Rosso, Jerôme Fouquet e Carlo Mascolo 

Felice Furioso

Carlo Mascolo

Maria Radich, Jorge Nuno, Cortez Lamont, Luís Guerreiro e Felice Furioso

Os grupos formados para a secção de “random sets” seguiram duas premissas. Uma foi de improvisação livre, “impromptu”, com uma dezena de apresentações ao longo dos dias, e a outra de improvisação estruturada, com três concertos cujos ensaios foram reservados previamente para a necessária preparação, e que tiveram lugar simultaneamente em três locais, a Sociedade Filarmónica, a Igreja de S. José e o Conde Távora. Os mais impactantes foram estes últimos. Naquele que juntou Maria do Mar, Noel Taylor, Luís Guerreiro, Carlo Mascolo, Jorge Nuno e Sean Drewry verificaram-se igualmente os efeitos do “workshop”, num registo humorístico e de “non sense”. Os primeiros a sentarem-se no palco foram Mar e Taylor, em postura de desafio e expectativa, com Guerreiro e Mascolo a entregarem-lhes os respectivos instrumentos antes de eles mesmos entrarem em cena. A abordagem melódica, algo pastoral, da violinista e do clarinetista foi desde logo introduzida, com Guerreiro e Mascolo a contradizerem-na com um envolvimento feito de borborigmos. Foram Drewry e Nuno quem entregou os instrumentos a estes, em jeito de “gag”: o trombone de Mascolo foi dado a Luís Guerreiro e o trompete deste a Carlo Mascolo, para riso geral na plateia da Sociedade Filarmónica, com a troca a realizar-se depois com desconcertante formalismo. Quando Drewry e Jorge Nuno pegaram no sintetizador e na guitarra eléctrica, respectivamente, mais se adensou o paradoxo sonoro que estava a ser criado. Depois de uma passagem em que Maria do Mar e Noel Taylor tiveram protagonismo, de uma beleza notável, ambos saíram do palco, deixando no ar a moldura anterior já como único conteúdo, até esta se esvair.

A prestação que se seguiu, entre Paulo Chagas, Carlos Cañao, João Pedro Viegas, Pino Collonna, Maria Radich, Jerôme Fouquet e Carla Santana, foi de múltipla interacção entre os diferentes “voicings”, agindo no conjunto como um amplo fresco de dinâmicas e harmónicos. O menos foi mais, a exemplo do que fez Collonna quando entrechocava minimalisticamente as suas flautas como se fossem instrumentos de percussão, fazendo com que os olhares centrassem os ouvidos, ou Santana com as suas discretas, mas por isso mesmo impositivas, sinusoidais. A vez de Alvaro Rosso, Manuel Guimarães, Paulo Duarte, Yoram Rosilio, Felice Furioso, Mia Dyberg e Miguel Mira começou por indiferenciar os preparativos para a performance e a performance propriamente dita, dinamitando a ideia de início, com Guimarães a desempenhar esse papel de ilusão perceptiva. A prestação soou como a gradual convergência de uma série de derivações, de carácter exploratório, para um tema que apenas foi anunciado no minuto final pela guitarra acústica de Manuel Guimarães, idiomaticamente identificável como jazz.

Entre as improvisações livres três se destacaram, por bons, e um mau, motivos. A que abriu o Outonal no Conde Távora, com Nuno Rebelo, Manuel Guimarães, Carlo Mascolo e Nuno Torres, pelo sentido de contraste que Rebelo colocou na trama do quarteto com a sua guitarra: uma pulsação de baixo, desenhada com as cordas mais graves, que virou do avesso a abstracção dominante e que veio reafirmar a noção de que, em contexto de liberdade, nenhuns recursos são proibitivos. Noutro dia, com a Igreja de S. José como cenário, ficou na memória o grupo em que participaram Paulo Chagas, Pino Collonna, Maria do Mar, Nuno Morão e Carlos Cañao, e não necessariamente porque o último se sobrepôs decibelicamente aos seus pares durante demasiado tempo: o concerto trouxe-nos um dos mais bonitos solos de todo o evento, o de Chagas em flauta. Houve uma situação digna de menção, de improvisação conduzida, sugerida por Yioram Rosilio: as palhetas e os metais concentrados no balcão do coro da igreja foram dirigidos a partir de baixo por quem tocava outros instrumentos. Ou seja, estes músicos indicavam aos seus interlocutores directos, antes escolhidos um a um, os volumes em que deviam soprar uma só nota, curta ou longa, pois apenas de fora podiam ter a noção das formas ganhadas pelo todo.

O lado mau veio com um triste ocorrência: pouco depois de Cortez Lamont, Jorge Nuno, Felice Furioso, Maria Radich e Luís Guerreiro terem começado com a sua contribuição, o primeiro sentiu-se mal, refugiou-se na sacristia e aí desmaiou, tendo sido necessário chamar uma ambulância. A música e a vida são unas, uma constituindo a performance da outra e vice-versa, e o organismo humano é falível. Ninguém estava em condições para continuar a tocar e os músicos retiraram-se em respeito para com o seu companheiro. Este texto é dedicado ao Cortez, desejando-lhe rápidas melhoras.