Festival Jazz ao Centro, 4 de Novembro de 2021

Festival Jazz ao Centro

A caminho dos 20

texto Rui Eduardo Paes fotografia João Duarte

Quase a chegar às duas décadas de existência, o festival de Coimbra cumpriu-se em Outubro passado com um programa que teve como características principais a inclusão de agrupamentos de grande número de elementos e uma parceria com músicos do colectivo que organiza o All Ears na Noruega. Com muito pelo meio a referir, tal como se pode ler já de seguida...

Nos primeiros anos da sua maioridade (a 20ª edição assinala-se em 2022), os também chamados Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra apostaram nos dois últimos fins-de-semana de Outubro num programa que teve como alicerces a participação de grandes formações (Omniae Large Ensemble,LUME, Mondego, Luís Figueiredo Trio com Coimbra Vocal e All Ears on Jazz ao Centro Ensemble) e a colaboração entre o Jazz ao Centro Clube (JACC) e uma estrutura europeia, no caso o festival All Ears da Noruega. No seguimento de anteriores parcerias com um colectivo holandês (2019) e um francês (2020), assistimos agora a quatro concertos com igual modelo, um em trio (com Joana Sá, Henriette Eilertsen e Maria do Mar), um em quarteto (com Yaw Tembe, Marcelo dos Reis, Joel Ring e Andreas Wildhagen) e dois em septeto, reunindo todos os nomes assinalados numa residência artística. Pelo meio ouvimos outros projectos, como o Humanization 4tet de Luís Lopes, em final de digressão pela Europa, o SPACE Ensemble a musicar ao vivo o filme “As Aventuras do Príncipe Achmed”, de Lotte Reiniger (a que não pudemos assistir), o duo de João Camões e Jean-Luc Cappozzo (anunciado como um trio com Jean-Marc Foussat, com este a ter de se ausentar) e os Cíntia. Mas comecemos pelo princípio…

 

Pedro Melo Alves Omniae Large Ensemble

 

O arranque fez-se a 21 de Outubro no Teatrão, com o Omniae Large Ensemble de Pedro Melo Alves. Variante do projecto com que o baterista ganhou o Prémio de Composição Bernardo Sassetti, ao seu ADN original, e iminentemente jazzístico, introduzindo elementos provenientes das músicas contemporânea, experimental e improvisada, este que o músico do Porto apresentou no álbum “Lumina” pecou apenas pelo facto de, nas mesmas fórmulas, ter querido ser várias coisas em simultâneo, numa sobreposição de camadas que, por vezes, se tornou confusa, revelando problemas de som conjunto, orquestração e, inclusive, de escrita. Ainda assim, a prestação desta orquestra de 22 elementos (em vez dos 23 anunciados porque João Carlos Pinto faltou à convocatória por motivos de saúde) conduzida por Pedro Carneiro foi uma das mais galvanizantes de todo o festival. A excelência de algumas das peças e as improvisações a solo ou em duo, trio ou quarteto (com destaques para as vozes de Mariana Dionísio, Nazaré da Silva, Diogo Ferreira e João Neves, o contrabaixo de Alvaro Rosso, o trompete de Gileno Santana, as flautas de Clara Saleiro, o piano de José Diogo Martins e as guitarras de Mané Fernandes e Luís José Martins, uma eléctrica, a outra acústica) compensaram, e muito, o que parecia menos claro e menos focado no projecto, entusiasmando a plateia.

 

Luís Lopes Humanization 4tet

 

No dia seguinte, tivemos finalmente a oportunidade de ouvir ao vivo os temas de “Believe, Believe”, o disco lançado o ano passado pelo Humanization 4tet, mas que a pandemia impediu de ser levado para os palcos. Tal como se previa por audições anteriores do grupo que Luís Lopes partilha com Rodrigo Amado e os irmãos texanos Aaron e Stefan González, a actuação foi de catarse, beneficiando ainda do entrosamento que necessariamente resultaria dos muitos concertos que tinham realizado na sua digressão europeia. No ponto em que está, o projecto não se limita apenas a um equacionamento do jazz na sua vertente free com a energia do punk e de outras referências do rock. As composições de Lopes para o quarteto ganharam uma dimensão multicultural que se revelou tanto no plano rítmico como no melódico, incorporando em si aspectos das músicas do mundo (por exemplo, alusões caribenhas ou latinas) como da história das músicas urbanas, não hesitando em recuperar formas do passado. Se todos estiveram bem, é de assinalar em especial a contribuição do baterista Stefan González, que com o seu estilo percussivo de metralha, típico do metal, injectou uma energia invulgar à performance. Os frequentadores habituais do Grémio Operário de Coimbra nunca terão assistido a algo assim, mas a ovação final indicou que gostaram.

 

Mondego

 

Mais tarde, nessa noite de 22 de Outubro, o Salão Brazil recebeu um octeto que reúne professores e alunos do ensino de Coimbra do jazz e que tem como missão interpretar música especificamente escrita para o efeito por parte de compositores ligados à cidade, seja dos seus próprios membros ou encomendada a terceiros. Iniciativa do JACC, o Mondego – Ensemble Jazz ao Centro mostrou que ainda necessita de encontrar uma voz própria. Dois planos estiveram em choque, um de peças que tinham como padrão o bop, com soluções harmónicas convencionais e já estafadas, e o outro de composições mais abertas nas suas características e até mais arriscadas na linguagem e nos processos. A contradição surpreendeu e desequilibrou a actuação do ensemble, pois seguiu por dois rumos dificilmente conciliáveis. Com óptimos solos por parte dos seus mentores, o saxofonista João Mortágua e o trompetista Ricardo Formoso, o Mondego conta também com os bons préstimos de José Soares e Andreia Santos e com os jovens Guilherme Fradinho, Pedro Jerónimo, João Cação e Miguel Fernández. Foi assinada por Andreia Santos a partitura que mais nos ficou na memória e que incluiu em formato “spoken word” um poema de Cesário Verde dito pelo saudoso Mário Viegas. A gravação incluía alguns efeitos electrónicos que, por estarem registados com um volume demasiado elevado, em associação com o que o grupo fazia não deixava ouvir o que o actor e declamador ia dizendo, tendo sido esse, somente, o senão da superlativa contribuição da trombonista.

 

João Camões / Jean-Luc Cappozzo

O primeiro concerto de sábado 23 deveria ter sido de apresentação do álbum “Autres Paysages” do trio de Jean-Marc Foussat, Jean-Luc Cappozzo e João Camões, proporcionado pela estadia do violetista português em França, agora regressado a Coimbra. A impossibilidade de o primeiro estar presente traduziu-se na grande surpresa do Festival Jazz ao Centro nesta sua 19ª edição: um diálogo entre viola e trompete, sem amplificação, contando apenas com a ressonância natural da antiga igreja do Convento de São Francisco. Intimista e com todas as condições criadas para uma plena evidenciação dos seus particularismos, entre nuances e pormenores, a beleza camerística da música totalmente improvisada pela dupla enlevou todos os presentes, que no final não deixaram dúvidas quanto ao seu agrado aplaudindo longamente de pé os dois músicos. Camões e Cappozzo foram pausados na entrega e lentos nos desenvolvimentos, ora escolhendo a elaboração de texturas ora fraseando, numa conversação feita de entendimentos e de discordâncias, tal como as conversas verbais entre dois seres humanos, sempre com suavidade argumentativa e sentido de economia dos materiais. Os sorrisos cúmplices do conimbricense para o seu parceiro de cena e os gestos no ar com que o trompetista francês pontuava as suas linhas trompetísticas muito limpas e delicadas foram expressões do hedonismo situacional em que nos encontrávamos.

 

Cíntia

 

Com CD de estreia a sair daqui a um mês, os Cíntia surgiram incluídos nestes Encontros de Coimbra no contexto da iniciativa Cena Jovem Jazz.pt, que visa promover os valores emergentes da cena nacional. Na faixa etária dos 20 e poucos anos, os três integrantes do grupo de Lisboa confirmaram no Salão Brazil, também a 23 de Outubro, que têm um conceito muito seu e já muito maturado, surpreendentemente até devido à idade dos seus elementos. Com uma estética que vai do jazz criativo ao pós-rock, com incorporações de aspectos de outras músicas, como o hip-hop ou a electrónica com “beat”, o repertório do disco foi sequenciado numa abordagem mais contida, e igualmente mais elaborada, do que em anteriores concertos a que deles assistimos. A hiper-actividade de Simão Bárcia entre a guitarra e o computador, de Tom Maciel com o teclado MIDI e os dois sintetizadores analógicos, um deles a fazer de baixo, e de Ricardo Oliveira com as baquetas e os pedais da bateria contrastou com a contenção, a moldagem cuidada e a filigrana dos temas. Pelo caminho homenagearam Hermeto Pascoal e Frank Zappa, criticaram o extremismo político do evangelismo e refrescaram, com bastante originalidade, os padrões da chamada música de fusão, tornando-a novamente interventiva como nos tempos dos Return to Forever.

 

Luís Figueiredo Trio & Coro Coimbra Vocal

 

A actuação, no final da tarde de 24, do trio de Luís Figueiredo com o Coimbra Vocal, marcado para o auditório do Convento de São Francisco, criara muitas expectativas. As que tinham a ver com a realização de sinergias locais para a concretização de um projecto que atravessava fronteiras musicais, no caso as de um grupo de jazz e de um coro com nenhuma familiaridade com o género, foi conseguida. É sempre positivo juntar recursos e vontades diversos num mesmo objectivo, e este teve o aval e o apoio da Câmara Municipal de Coimbra. Já em termos musicais ficou-se aquém do desejado: o pianista e compositor Luís Figueiredo teve de adaptar a sua pena às capacidades do coro, delimitadas ao universo da música popular, e o seu “Memória da Viagem” ressentiu-se disso. Ainda assim, passagens houve em que se perceberam algumas reminiscências do Ligeti coral, na forma como se conjugavam as massas feminina e masculina, em notas longas que procuravam fugir à prisão da palavra. Esta limitação de parâmetros gerou algumas insolúveis contradições de parametrização entre a performance do grupo, complexa e contemporânea (embora pouco saindo da moldura da corrente música para trio de piano jazz, tal como praticada pelo EST ou pelos Bad Plus), e a do coro, que soou mais simplista e algo antiquada. Os lugares-comuns do texto pouco ajudaram. Soberbos foram os solos do próprio Figueiredo e de Bernardo Moreira no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria.

 

Joana Sá / Henriette Eilertsen / Maria do Mar

 

Depois de uns dias de intervalo, o Museu Nacional Machado de Castro recebeu à tarde o primeiro dos quatro concertos que integraram a secção luso-norueguesa All Ears on Jazz ao Centro e o primeiro também de três de enfiada agendados para 29 de Outubro, protagonizado pela pianista Joana Sá, a flautista Henriette Eilertsen e a violinista Maria do Mar, um dos mais conseguidos do programa. O trio funcionou tão bem neste primeiríssimo teste que há a intenção de o continuar. A conjugação de uma flauta e um violino não é a mais fácil, mas Eilertsen e do Mar souberam contornar os problemas que lhe eram intrínsecos, ora opondo os seus respectivos papéis, por exemplo de associações de graves com agudos, ora procurando intencionalmente a coincidência dos timbres e o envolvimento dos harmónicos, de tal modo que era difícil discernir qual era o instrumento que produzia determinados sons. A empatia entre as duas improvisadoras foi total, com aquele tipo de magia que apenas alguns encontros inéditos propiciam logo à partida. Joana Sá deteve-se tanto no teclado como no interior do piano, em intervenções directas com as mãos ou com objectos, como um simples fio que, por fricção com as cordas, criava atmosferas tão exóticas quanto abstractas. Os novelos resultantes tinham um carácter pastoral e sonhador, quase cinematográfico nas atmosferas criadas, tendo deixado o público em suspenso. Lá fora chovia copiosamente, mas no “hall” de entrada do museu parecia estarmos num jardim em plena Primavera, com uma brisa solar a aquecer-nos o rosto.

 

LUME

 

O LUME – Lisbon Underground Music Ensemble ofereceu-nos a abrir a noite, no Teatro Académico Gil Vicente, algo de completamente oposto, uma frenética – e sobretudo composta –, de cortar o fôlego, corrida em termos de situações e de ritmos. Em estreia na cidade estava o novo álbum “Las Californias”, com um Marco Barroso, o seu líder e autor das partituras, a ser especialmente humorístico na sua comunicação com a audiência. O alinhamento aliou temas do disco com outros anteriormente dados a ouvir, sempre em acelerando. Particularmente impactante foi a série de miniaturas em que se mudava subitamente de compasso e métrica, glosando diferentes estilos jazzísticos e outros (a começar pelo rock e pela música erudita), numa articulação mimetizadora do “zapping” musical de que Frank Zappa e John Zorn foram (e são, no último caso) mestres. Vicky Marques, o baterista, foi tão intenso que empurrava toda a “big band” à sua frente, fornecendo-lhes a energia indispensável para levar o pesado barco a bom porto. A improvisação esteve, sobretudo, entregue aos solos, de assinalar os de Rúben da Luz e Eduardo Lála nos trombones, de Gileno Santana e João Silva nos trompetes e de Tomás Marques e Gonçalo Prazeres nos saxofones alto e tenor, respectivamente. Algo que não acontecia amiúde, também o piano de Barroso teve destaque. No domínio da arquitectura e da escultura algo assim poderia estar na categoria do brutalismo, não fora a circunstância de a requintada imponência do LUME integrar em si também uma dimensão lilliputiana, de pequeníssimos apontamentos que se tornam chave para compreender o todo.

 

All Ears on Jazz ao Centro Ensemble

 

O septeto da parceria entre os festivais All Ears e Jazz ao Centro actuou duas vezes no Salão Brazil, fechando a sessão de dia 29 e repetindo a 30 como único concerto da noite. Mas como é bem de ver em se tratando de música improvisada, a segunda prestação nada repetiu, e ainda bem. Na estreia do ensemble dois eixos claramente se formaram, um mais coadunado com o colectivismo da improvisação livre, representado por Joana Sá, Henriette Eilertsen, Joel Ring e Maria do Mar, e o outro mais ligado à matriz do free jazz, com Marcelo dos Reis e Andreas Wildhagen a situarem-se neste pólo. O trompetista Yaw Tembe colocou-se ora num âmbito ora no outro, não lhe tendo sido possível estabelecer a ponte necessária: a guitarra eléctrica e a bateria sobrepunham-se aos demais instrumentos, tanto ao nível dos décibeis quanto da linguagem adoptada. O concerto foi como que um ensaio geral, servindo para perceber o que fazer e, sobretudo, o que não fazer dentro dos parâmetros que se desenhavam. À segunda subida ao palco, no dia seguinte, já as correcções estavam feitas, com a improvisação a assumir o colectivo a sete e com os poucos solos que aconteceram, como os de Tembe e dos Reis, a encaixarem-se muito mais naturalmente no todo. A música fluiu mais solta, desenrolando-se como um rio que procura alargar as margens, com evocações poéticas de uma sensibilidade extrema, reactiva e até compositiva, dadas as contribuições estruturantes de Ring e de Marcelo dos Reis. Flauta, violino e trompete casaram muito eficazmente nos planos tímbrico e mesmo de harmonia, com pontuações sempre oportunas do piano, preparado ou não, e da bateria, desta feita bem mais comedida, a sucederem-se, cada jogo colocado na mesa se distinguindo ao longo da história que nos era contada.

 

Yaw Tembe / Marcelo dos Reis / Joel Ring / Andreas Wildhagen

 

De volta ao dia 29, para reportar o concerto da série All Ears on Jazz ao Centro que teve lugar à tarde no Grémio Operário. Yaw Tembe, Marcelo dos Reis, Joel Ring e Andreas Wildhagen decidiram não tocar no palco, mas diante do público. Boa decisão, pois a proximidade física redundou em proximidade musical, com as energias libertadas a atingirem-nos mais directamente. A opção, como seria de esperar desta combinação de instrumentistas portugueses e noruegueses, inclinou-se para o lado do jazz propriamente dito, em versão free, ainda que um free de concepção actual. Todos os intervenientes tiveram espaço para se expressarem, em articulações várias entre si e através de solos bem enquadrados, com Tembe e dos Reis a brilharem. Para uma descrição de formato minimamente aproximativa do momento, pensem no que resultaria se Don Cherry e Sonny Sharrock integrassem o mesmo grupo e tivessem descido do comboio em Coimbra para praticar um jazz que englobasse no seu âmago aspectos, geralmente dúbios, de outras músicas, segundo os preceitos da presente pós-modernidade. O trompete de Tembe e a guitarra de dos Reis não estiveram muito longe da sombra que poderia deixar essa ilustre parceria que nunca se verificou e que só podemos imaginar como seria, com o violoncelo de Ring a fazer-nos lembrar ainda as funções de Abdul Wadud no grupo de Arthur Blythe e, no filme ficcional que se desenrolava nas nossas mentes, a bateria de Wildhagen a dar-nos vontade de compará-lo com o que fazia Steve McCall com os Air. Com o pano fechado sobre a edição de 2021 do Festival Jazz ao Centro, só nos resta agora esperar, ansiosamente, a comemoração dos seus 20 anos de existência.