Jazz em Agosto, 14 de Agosto de 2021

Jazz em Agosto

A angústia do programador no momento do espetáculo

texto Gonçalo Falcão e António Branco fotografia Vera Marmelo / Fundação Calouste Gulbenkian

Foram muitas as atribulações sofridas pelo festival da Gulbenkian até que algo acontecesse no palco. Dois dos grupos escandinavos não puderam vir, ainda devido à pandemia, tendo de ser substituídos à última da hora, e o concerto inaugural acabou cancelado por motivos de saúde de Peter Brötzmann. O sofrimento do programador acabou compensado pela excelente música que se ouviu na Avenida de Berna.

Em 2020 o Jazz em Agosto não se realizou. Deu lugar a um festival maioritariamente nacional que apoiou os músicos e a cultura e deu-nos a todos a possibilidade de sair de casa para ouvir música depois de cinco meses fechados. Este ano tudo parecia indicar que o festival poderia voltar e que – pelo menos os músicos europeus – viriam sem problemas. O festival reapareceu, mas os programadores viram-se confrontados com todas as incertezas e burocracias do tempo em que vivemos. Os noruegueses não puderam vir por causa das restrições impostas pelo país e Brötzmann, doente, inviabilizou a audição do seu histórico trio no concerto inaugural.

A organização resolveu o assunto com a América: quem poderia supor que em Agosto de 2021 os músicos norte-americanos já podem viajar muito mais facilmente para a Europa que os nórdicos! Tim Berne e James Brandon Lewis vieram em substituição e o Jazz em Agosto tocou música fabulosa. Com o CAM em obras, os concertos da noite passaram para o Grande Auditório. É difícil imaginar mais contrariedades juntas, mas no final tudo correu lindamente e, mais do que música, este esforço organizativo enorme deu-nos a esperança de que as coisas possam voltar a ser como eram. Ouvir Tim Berne ou James Brandon Lewis dizer que o concerto no Jazz em Agosto era o seu segundo este ano ou Mats Gustafsson dizer que era o primeiro relembrou-nos o desastre em que os músicos vivem por causa da pandemia. 

30 Julho, tarde | Luís Vicente

Inesperadamente, coube a Luís Vicente inaugurar o festival deste ano. O trompetista sentiu a responsabilidade da abertura e de pisar o palco da Gulbenkian e parecia nervoso no início, tendo apressado a primeira parte do seu solo, aquela em que explorou ideias melódicas. Uma abordagem que Vicente domina extraordinariamente bem: as melodias saem-lhe com naturalidade e sempre interessantes. Depois desse início tonal o trompetista investigou todo o corpo metálico do instrumento, mais focado nos sons do que nas notas. O concerto pareceu demasiado planeado e sempre agarrado a um plano previsto, mas ficámos impressionados com a quantidade de ideias que Vicente apresentou nesta fase. Foi um concerto conciso, tenso, mas que instalou da melhor maneira o espírito do Jazz em Agosto. (G.F.) 

30 Julho, noite | Broken Shadows

Tim Berne, já o escrevemos e a convicção mantém-se, é o músico mais importante da sua geração, a da chamada “downtown” nova-iorquina dos anos 1990, na qual militam Zorn, Sharp, Speed, Ribot, Moss, Byron, Frisell, Baron, Previte, Lurie e tantos outros. Os seus vários projectos têm sempre uma qualidade elevadíssima e ideias novas. Sabe criar bons conceitos musicais e junta os músicos certos para os tocar. É o caso de Broken Shadows, cujo CD recentemente editado pela suíça Intakt nos apanhou de surpresa. A partir do nome do grupo percebemos facilmente que o assunto é Ornette e, ouvido o disco, confirma-se que esta superbanda (Tim Berne + Chris Speed na frente e a secção rítmica dos Bad Plus, Reid Anderson e Dave King) homenageia o legado dos músicos de Fort Worth (Ornette, Dewey Redman e Julius Hemphill [que foi professor de Berne] eram desta cidade texana). Ouvimos o grupo certo para tocar a música de Ornette sem a reverenciar, mantendo o seu sentido de experimentação. Grande “groove” da secção rítmica, com “walking basses” rapidíssimos e intensos. Que bom som de contrabaixo! O “Song For Che” de Charlie Haden foi magicamente introduzido e tocado. A versão de “Lonely Woman” foi surpreendente (sim, ainda é possível); “Uma Muy Bonita” resultou mesmo muy bonita. O concerto foi enérgico e alegre. Por momentos esquecemos as máscaras, o distanciamento entre cadeiras e ouvimos música eterna extremamente bem tocada. Os Broken Shadows homenageiam os pioneiros do free de forma inteligente, não os museografando mas mantendo-os vivos, apesar de já nos terem deixado. Alegria em estado puro. (G.F.) 

31 Julho, tarde | Ignaz Schick & Oliver Steidle

A tarde anunciava-se rítmica com o duo Ignaz Schick & Oliver Steidle, nascido na cena “underground” berlinense. Schick retoma a tradição do “turntablism” (uso do gira-discos como instrumento musical) inaugurada por Christian Marclay, com dois pratos e discos marcados, um uso frenético das agulhas, “faders” e processamento do som. É um virtuoso, sempre em actividade, a trocar “battle records”, a criar sons, a fazer “scratch”, a manipular a equalização e outros efeitos. Na bateria, Steidle é um “thesaurus” de “beats” rockeiros. Toca ciclos curtos de ritmos, como se estivéssemos a percorrer as bases de bateria da discografia completa dos Led Zeppelin. A conjugação destes dois universos funciona muito bem e o concerto foi francamente vivo, com energia, intensidade e mudanças constantes. O “ao vivo” é particularmente importante para ouvir esta música diferente, porque a percebemos melhor e valorizamos a magia de a ver surgir. (G.F.)

31 Julho, noite | Ikizukuri & Susana Santos Silva

Este concerto tinha desde logo um elemento raro a seu favor: um grupo português, numa data nobre do festival, no palco principal. O trio nortenho Ikizukuri alinhou com a brilhante trompetista Susana Santos Silva. Uma música áspera, intensa, em que o baixo (Gonçalo Almeida) - quase sempre com um som saturado – marcou o ambiente e a bateria (Gustavo Costa) raramente marcou um ritmo regular. A improvisação aguda dos sopros, trompete e saxofone soprano (Susana Santos Silva e Julius Gabriel), contrastou com a base de baixo e bateria e a sensação de estar a ouvir duas camadas sobrepostas de duos foi muito atraente. Uma fórmula instrumental original que merece mais exploração e desenvolvimentos. (G.F.) 

1 Agosto, tarde | João Pedro Brandão “Trama no Navio”

O primeiro concerto do dia inaugural de agosto, domingo, trouxe ao Auditório 2 o quarteto do saxofonista, flautista e compositor portuense João Pedro Brandão, que apresentou ao vivo o seu “Trama no Navio”, merecidamente reconhecido como um dos melhores discos nacionais do ano passado. As expectativas para ouvir esta música interpretada a poucos metros dos nossos ouvidos eram altas à partida e foram superadas com distinção. Piano encostado totalmente à esquerda (na perspetiva do público), bateria no outro extremo à direita, saxofone/flauta e contrabaixo ao centro – grande ecrã atrás de todos. O desafio a que Brandão se propôs por encomenda da Orquestra Jazz de Matosinhos não é fácil, nem para todos: interpelar criativamente – reduzindo-a ao primordial – a narrativa sonora que o próprio criou para a segunda parte de “O Couraçado Potemkine” (1925) – conhecida como “Drama no Navio” – filme-emblema do realizador soviético Serguei Eisenstein, cujas imagens não se visionaram (mas inevitavelmente motivaram sinapses), antes as propostas pela videasta Alexandra Corte-Real.

Brandão, figura pivotal do movimento Porta-Jazz e nome importante do jazz nacional há vários anos como líder do Coreto e elemento decisivo noutras formações, assume-se aqui como compositor e intérprete central e é notável a forma como balanceia estes dois papéis. Para esse efeito conta neste contexto com os préstimos de outros três músicos notáveis: para além de ótimo contrabaixista, Hugo Carvalhais é um estratego sonoro por direito próprio, Marcos Cavaleiro um dos mais versáteis bateristas nacionais e Ricardo Moreira um excelente, mas infelizmente menos notado, pianista.

Prenhe de contrastes e subtilezas, a música proposta pelo quarteto + 1 (sim, as imagens são essenciais para a experiência sinestésica) é, como a própria vida, uma montanha-russa de estados de espírito. Faz-se da alternância entre passagens que sublinham tensões e outras de pendor mais meditativo, com escaladas dramáticas que se jogam no limbo entre o rigor estrutural do material escrito e a urgência das improvisações. Fazendo jus à matriz ideológica do filme que serviu de inspiração, e não obstante a excelência das intervenções individuais – a intensidade dos solos do líder, o lirismo dos de Carvalhais (Eberhard Weber veio à memória), a expressividade do pianista (que também injetou alguma subtil eletrónica através de um órgão) ou a segurança inatacável de Cavaleiro – avulta claramente uma dimensão coletiva que fez deste um concerto de ótimo nível. (A.B.) 

1 Agosto, noite | Fire!

Os Fire! são um dos grupos mais interessantes do jazz europeu. Criaram uma fórmula musical própria, original, que assenta grandemente em duas personalidades: Johan Berthling no baixo elétrico e Mats Gustafsson no saxofone. Berthling é extraordinário: cria linhas de baixo mínimas, de quatro notas, e repete-as infinitas vezes com perfeição, acreditando naquela proposta sucinta e radical. Admirável. Gustafsson tem um som enorme no barítono, capaz de rivalizar com a buzina de um navio. Contudo, a fórmula dos Fire! tem limites para não soar repetitiva e por isso, ao longo dos últimos 12 anos, o trio vem procurando reinventar a sua própria criação, ampliando (exemplo: Fire! Orchestra) ou adicionando elementos conflituantes (ex: Oren Ambarchi). No Grande Auditório os Fire! vieram em formato de quinteto com a adição de duas cornetas, nas mãos de Goran Kajfeš (trompete) e Mats Äleklint (trombone). A música ficou mais lenta e a dupla funcionou um pouco como a secção de metais da música soul, reforçando as linhas melódicas do baixo, aumentando-as e dando-lhes novas perspetivas. Ficou uma música mais melancólica, com Gustafsson a usar flauta e electrónica, aumentando assim ainda mais a paleta sónica. Foi um concerto memorável, lindíssimo, que confirma o brilhantismo desta fórmula e apresenta uma das suas melhores versões. (G.F.) 

5 Agosto, noite | Pedro Moreira Sax Ensemble “Two Maybe More”

O segundo fim de semana de concertos da edição de 2021 do Jazz em Agosto começou na quinta, dia 5, com outro dos momentos mais aguardados, no que ao amplo contingente nacional diz respeito: a transposição para o palco do Grande Auditório (quase esgotado), pelo decateto liderado pelo compositor, saxofonista, maestro e pedagogo Pedro Moreira, de um disco que já está reservado no cofre das pérolas discográficos do ano, o duplo “Two Maybe More”. A partir de uma encomenda da Fundação Gulbenkian para um espetáculo de dança contemporânea criado pelo realizador e encenador Marco Martins em parceria com os coreógrafos Sofia Dias e Vítor Roriz, interpretada originalmente pelo Coro Gulbenkian e um ensemble de câmara, Moreira compôs música que vive muito das tensões geradas entre a dimensão individual e a interação com os outros, entre a componente escrita e a espontaneidade da criação em tempo real. 

Volvidos sete anos, o compositor em boa hora regressou a essas partituras, trocou vozes por saxofones, reequacionou e expandiu o material original, juntando para o efeito uma formação de configuração instrumental inusitada, e multigeracional, com oito-8-oito saxofones (o próprio Moreira e Mateja Dolsak nos tenores, Ricardo Toscano e Daniel Sousa nos altos, Tomás Marques e Bernardo Tinoco nos sopranos, Francisco Andrade e João Capinha nos barítonos) e uma secção rítmica em que pontificam os sólidos Mário Franco no contrabaixo e Luís Candeias na bateria.

Neste novo olhar, o compositor prossegue uma abordagem “ellingtoniana”, centrada nas qualidades sonoras distintas e complementares destes músicos, todos eles com identidades próprias, que contribuem para o todo, não se diluindo nele. Moreira faz um uso rigoroso do xadrez tímbrico que tem ao seu dispor, erguendo um edifício sonoro formalmente elegante e ao mesmo tempo desafiante, esbatendo delimitações estéticas (só a espaços foram audíveis ligações diretas ao jazz de matriz norte-americana que norteou parte importante do seu percurso). A música resulta de várias possibilidades e combinações do ponto de vista da forma e da expressividade: seja a densidade crescente de “Stairway to the Stars”, a relojoaria de “Lado”, a sombra que se instala “In Verso” (com Franco a utilizar o arco para aditar negrume) ou a serenidade de “Como a Poesia”. Todos os músicos assinaram apontamentos solísticos, com especial destaque para os de Dolsak, Andrade, Toscano e do líder, altivo em “Giggly Giggling”. Um concerto sóbrio e competente, sem picos ou depressões, que se escutou com agrado. (A.B.) 

6 Agosto, tarde | Gabriel Ferrandini “Hair of the Dog”

«Informamos que este espetáculo inclui momentos de elevada intensidade sonora», alertava zelosamente a organização nas notas de apoio ao concerto do baterista e conceptualizador sonoro Gabriel Ferrandini. À entrada para o Auditório 2 são distribuídos protetores auriculares. A função promete. O palco está mergulhado na mais completa obscuridade. Ou quase: apenas dois ténues estímulos visuais. Uma esfera, parcamente iluminada, aparece, desaparece e reaparece ao sabor da gravidade. Um vulto move-se. Tudo o resto é som. Um som grave, austero e perturbador. Mais do que o volume no vermelho, o que avultou desta apresentação do músico de Cascais foi, ao invés, o tricotar de referências mais ou menos improváveis, o baralhar e voltar a dar de fragmentos aparentemente desconexos, deixando os nossos sentidos em permanente sobressalto.

Ferrandini apresentou na ocasião o seu primeiro álbum a solo, o inclassificável “Hair of the Dog” (expressão anglo-saxónica que significa aquilo que se bebe com álcool em dia de ressaca), registo que se seguiu à aclamada estreia como líder em “Volúpias”, misturando a inflamabilidade consequente da abordagem baterística que encontramos em formações como o RED Trio, o Rodrigo Amado Motion Trio ou o duo PeterGabriel, riquíssima em detalhes, com maquinações orgânicas ou eletrónicas criadoras de um mundo com características distintivas. Ferramenta de autoindagação, esta música vincadamente percussiva convoca para dinâmicas de ação e reação um lado acústico, que contrasta com a tal judiciosa amplificação de alguns elementos. Tudo gerido com microfones e pedais de volume, controlando os “feedbacks” e uma gama de sons ultra graves que interferem com o nosso batimento cardíaco, sim, mas, e sobretudo, com as nossas próprias emoções. Com a colaboração de Miguel Abras (eletrónica), Vasco Futscher (escultura) e Helder Nelson (técnico de som), Ferrandini transporta-nos para um universo sonoro que desconhecíamos. Estamos em mar alto. Sozinhos e entregues a nós mesmos. (A.B.) 

6 Agosto, noite | James Brandon Lewis Quartet “Molecular”

Excelente opção para substituir o projeto “Ekhidna”, da guitarrista norueguesa Hedvig Mollestad, impossibilitada de se deslocar à capital portuguesa, o novo quarteto do saxofonista tenor James Brandon Lewis (membro fundador dos Heroes Are Gang Leaders, que estiveram na edição de 2019 do Jazz em Agosto, quando nem sonhávamos com a hecatombe), trouxe ao palco do Grande Auditório o excelente “Molecular”, o disco de estreia da formação, editado em 2020 pela suíça Intakt, que veio acrescentar pontos a um pecúlio que já o elevara ao estatuto de um dos mais relevantes saxofonistas do jazz e das músicas improvisadas do nosso tempo.

Com uma curiosidade irreprimível pelas temáticas mais díspares, o músico de Buffalo baseado em Nova Iorque deixou-se a dado momento cativar pelos insondáveis desígnios da biologia molecular, que o inspiraram a desenvolver o complexo sistema musical (a que chamou “Molecular Systematic Music”) utilizado para compor material especificamente para este quarteto. O saxofonismo virtuoso e mercurial de Lewis (que espoletou logo a abrir, no intenso “A Lotus Speaks”), sob o signo pós-“coltraneano” (mas com laivos de um Rollins aqui, ou de um Ayler ali), encontra aliados perfeitos na inventividade (ao piano e no Fender Rhodes) de Aruán Ortiz, na segurança inatacável de Brad Jones (magnífico solo em “Loverly”) e nesse pulmão (poli)rrítmico que é Chad Taylor (sempre o preferi nos tempos mais rápidos, o que aqui confirmei).

Ninguém se limita ao papel de “sideman”, antes contribuindo de forma efetiva para o cômputo global do som da formação. Pianista com enorme sentido rítmico, Ortiz é muitas vezes a fonte de ignição que depois Jones e Taylor mantém a carburar. O saxofonista estabelece jogos muito interessantes com o pianista, de melodias e contramelodias, explorando as virtualmente infinitas possibilidades da associação entre os respetivos instrumentos, com a secção rítmica efervescente. O quarteto, ao pisar terrenos muitas vezes incertos, recorre a uma empatia subliminar para pegar num pequeno fragmento melódico e desenvolvê-lo em alta rotação, que funciona como combustível para os voos de Lewis. O jazz poderoso do quarteto, para o qual confluem elementos de proveniência múltipla (da frente exploratória ao hip-hop mais desafiante, passando pelos temperos latinos) equilibra um lado inevitavelmente mais cerebral com uma beleza temática e um “swing” musculado que, entroncando na coluna vertebral do género, transporta-nos para um outro patamar. Já no “encore” escutou-se uma prometedora amostra do disco novo, a chegar em outubro. Salivemos, pois. (A.B.)  

7 Agosto, tarde | Katharina Ernst “Extrametric”

A segunda jornada sabatina iniciou-se com o recital a solo de Katharina Ernst, que trouxe a Lisboa o seu álbum de estreia, “Extrametric”, de 2018, constituído por um conjunto de peças exploratórias (a que chamou “estudos”). A partir de um avantajado “kit” de bateria, complementado por um gongo e por dispositivos eletrónicos, a música da percussionista austríaca é feita de camadas rítmicas (orgânicas, eletrónicas e híbridas) que se vão paulatinamente desenvolvendo, gerando paisagens sónicas contrastantes. Desafiando delimitações idiomáticas e convocando uma amálgama de referências que vai do jazz às músicas de vários quadrantes geográficos, passando pelo krautrock ou pelas eletrónicas dançantes, Ernst soou como se de uma formação alargada se tratasse, em que aos elementos acústicos acresce a sua transformação por meios eletrónicos, que distorcem os sons orgânicos e os levam para outros níveis, em composições abstratas que provam a elasticidade das fronteiras sónicas da bateria e das percussões.

Exímia na construção de texturas, padrões rítmicos em constante mutação e passagens mais atmosféricas, a percussionista explora as tensões resultantes do facto de alguns componentes se irem alterando, enquanto outros se mantêm imutáveis, maquinais e hipnóticos. Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando Ernst se posicionou atrás do gongo (na perspetiva do público) e provou (tal como Gabriel Ferrandini fizera na véspera) que o que verdadeiramente importa é o som e não a visualização da fisicalidade interativa entre o ser humano e o instrumento necessária para o produzir. Um concerto que valeu sobretudo pela criação e o desenvolvimento de dinâmicas polirrítmicas multirreferenciais, embora tenha sido marcado pela heterogeneidade, já que as melhores ideias intervalaram com outras de menor interesse. (A.B.) 

7 Agosto, noite | Anthropic Neglect

O concerto da noite, no Grande Auditório, esteve a cargo do quarteto Anthropic Neglect – liderado pelo saxofonista José Lencastre, com o guitarrista Jorge Nuno, o baixista Felipe Zenícola e o baterista João Valinho – que em 2020 editou na Clean Feed um surpreendente disco de estreia. Nesta sua apresentação, reforçou a condição de formação que opera numa instável interface entre a alta voltagem do rock e a experimentação das músicas improvisadas, com elementos do jazz mais aventuroso à cabeça, coordenadas sónicas geradoras de uma tensão latente que funciona como catalisadora de tudo quanto acontece.

As fundações são fornecidas pela bateria potente, e crescentemente decisiva, de Valinho, à qual Nuno e Zenícola acrescentam descargas elétricas, formando um “power trio” por vezes com sabor psicadélico (escutaram-se ecos longínquos das jornadas interestelares de Syd Barrett) e outras a roçar um rock anguloso. Lencastre, que se desdobra entre o tenor e o alto, ora paira ora empreende voos picados por cima desta orografia escarpada, ele próprio incorporando elementos diversos no seu discurso, sempre atento e assertivo. Particularmente notáveis são as interações entre saxofone e guitarra, que adquirem aqui contornos particulares. Lencastre e Nuno parecem alternar papéis, estimulando-se mutuamente. Muito inteligente é a forma como o guitarrista, oriundo do rock mas improvisador de corpo inteiro, não abdicando dos altos níveis energéticos, aproveita as pontes construídas por Zenícola, pedra fundamental neste tabuleiro, suportando, a cada instante, o evoluir dos acontecimentos com o seu baixo pulsante.

A música do quarteto, totalmente improvisada, alimenta-se dessa omnipresente inquietação e vale essencialmente pelo conjunto, que suplanta a soma aritmética dos contributos parciais, sejam individuais, em duo ou trio. O que de imprevisível se escuta está em mutação constante, impedindo que se instale qualquer espécie de padrão ou rotina. Quando um motivo é proposto, logo o mesmo é desafiado e nada do que era continua a ser. Um concerto que caiu certamente no goto de quem entende a música como um espaço aberto a polinizações cruzadas e à assunção de riscos, e não como uma arte conservada numa solução aquosa de formaldeído. (A.B.)  

8 Agosto , tarde| João Lobo “Simorgh”

A tarde dominical foi entregue ao interessantíssimo projeto Simorgh (no contexto da mitologia persa o termo designa uma ave que renasce, qual fénix), do baterista João Lobo, músico com percurso invejável no contexto do jazz, mas que estende a sua atividade num perímetro bastante mais vasto, fintando catalogações. João encontra aqui um habitual companheiro de aventuras, o guitarrista Norberto Lobo (apesar de partilharem o apelido, não há ligação de parentesco).

Os dois Lobos há muito acrescentam episódios a uma longa história de cumplicidade, sempre com um final diferente. Seja em duo, no trio Norman (com outro Lobo, o teclista Manuel), em Oba Loba (a que se junta o pianista Giovanni Di Domenico) ou em Simorgh, juntando-se-lhes o baixista belga Soet Kempeneer. Foi este último trio que se entregou, na aparição lisboeta, à continuação do seu profícuo trabalho de desenvolvimento de uma ideia muito própria de conjugação de elementos rítmicos com melodias abstratas, abertas, com espaço para deambulações criativas e que jamais nos soa igual, o que já conhecíamos do recomendável álbum de estreia, editado no ano passado pela Shhpuma. A proposta radica na acreção de referências múltiplas, do jazz às músicas de cantos recônditos do planeta, do rock experimental à eletroacústica e à improvisação sem rede. Estruturas multicamada, assentes em bases rítmicas que constituem substrato adequado para as deambulações da guitarra elétrica, com efeitos acoplados, na construção de um paisagismo sonoro capaz de nos transportar até paragens inóspitas, ao coração de uma floresta ou à vizinhança de um vulcão em atividade estromboliana.

É Norberto quem parte de um motivo geralmente telegráfico, cujos indizíveis meandros depois perscruta do ponto de vista melódico, com uma sonoridade etérea muito especial. O baixo elétrico de Kempeneer acaba por funcionar como uma espécie de fiel da balança, geralmente na órbita da guitarra, servindo-lhe de suporte, sem que isto signifique a perda de graus de liberdade. Por vezes, criam-se ambientes mais lentos e introspetivos ou outros dos quais emana um “groove” esdrúxulo. Esta mistura sonora saudavelmente incategorizável, explorando todo um leque de possibilidades, foi um muito apreciado bálsamo para os tempos que vivemos. (A.B.) 

8 Agosto, noite | Roots Magic

Para o encerramento ficou guardado outro dos momentos mais esperados. Ao palco do Grande Auditório subiu o coletivo romano Roots Magic (na ocasião configurado para sexteto), responsável por empreender uma fantástica missão: pegar nos elementos fundacionais dos blues mais profundos e da música popular norte-americana e transportá-los, qual máquina do tempo, para o outro lado do Atlântico no século XXI.

Os Roots Magic são Alberto Popolla (clarinetes), Errico De Fabritiis (saxofones alto e barítono), Gianfranco Tedeschi (contrabaixo) e Fabrizio Spera (bateria), a que se juntam, como convidados habituais, Eugenio Colombo (flauta e saxofone soprano) e Francesco Lo Cascio (vibrafone e percussões). Os blues emergem aqui na plenitude da sua africanidade e espiritualidade, interpelados criativamente por uma abordagem devedora do free jazz, movimento libertário que nos anos 1960 integrou com orgulho muitas dessas referências como arma contra a discriminação racial e pelos direitos cívicos da população negra. Os Roots Magic são isso mesmo: um mergulho na magia das raízes, na fonte primordial, incrível celebração dos “deep blues” (não saudosista ou emulativa, pois o que fazem é processar jazzisticamente essas referências) de todo um legado negro que viajou para a América a partir de África, e se desenvolveu num contexto escravocrata e de trabalhos forçados nos campos de algodão, nas minas ou nos caminhos de ferro, interpretado por músicos que dele se apropriam e o transformam com paixão, proficiência técnica e um meticuloso conhecimento de causa, desafiando espaço e tempo.

Escutaram-se interpretações muito especiais de “Last Kind Words”, blues da obscura cantora e guitarrista Geshie Wiley, “Devil Got My Woman”, emblema de Skip James, da maravilhosa “November Cotton Flower”, de Marion Brown, e a não menos tocante leitura de “Humility in the Light of the Creator”, de Kalaparusha Maurice McIntyre, com vénia a Milford Graves, desaparecido em fevereiro deste ano. Ocasião também para escutar material novo como “Run As Slow As You Can” e “Blue Lines”, peça dedicada ao grande Muhal Richard Abrams. Numa era em que pululam negacionistas do racismo e da discriminação, esta música é um grito de esperança que ressoa bem fundo. A grande música negra vista desta forma a partir do país de Salvini só pode ser motivo para exaltação. (A.B.)