DeScomposição Transitória 4, 5 de Julho de 2021

DeScomposição Transitória 4

Corpos de pedra e água

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo e Maribel M. Sobreira

A quarta edição da série que Maria do Mar e Felice Furioso vêm conduzindo teve como mote a pedra como símbolo da memória e como implícito a água enquanto factor de transitoriedade e impermanência, assim expondo as coordenadas da própria improvisação. O ensaio “Bodies of Water” de Astrida Neimanis não poderia ter tido melhor tradução artística.

Quando as artes integram o factor improvisação e quando se abrem à transdisciplinaridade, com elas vem um sentido próprio de circunstância, de oportunidade, de cruzamento experiencial, de desdobramento colaborativo. A 27 de Maio passado, nas novas instalações de A Valsa, foi apresentada em Lisboa a performance “O Corpo é Quem te Agarra”, juntando contribuições de Sarah Elisa, Joana Egypto, Maura Grimaldi e Maria do Mar. Com base em premissas expostas no ensaio “Bodies of Water – Posthuman Feminist Phenomenology”, de Astrida Neimanis, o espectáculo em causa aplicou a noção da fluidez dos corpos, neles mesmos individualmente, numa circulação aquática delimitada pela pele, mas exteriorizada por meio do movimento, e também na sua relação interpessoal, “água” que passa de um corpo para o outro, que se partilha e que une.

A água esteve sempre presente, escorrendo, banhando os rostos das performers, surgindo nos vídeos projectados atrás, mesmo quando sugeriam sangue. Grimaldi recolheu imagens de uma velha nascente cujas características visuais, representando o sexo feminino, a definiam como “fonte da vida” e Mar “tocou” água da mesma forma como toca o seu violino, com notas longas e curtas que mais pareciam pinceladas sobre a tela do silêncio.

Quase um mês depois, a 24 de Junho, a mesma Maura Grimaldi foi a artista visual convidada por Maria do Mar e Felice Furioso para a quarta edição da série “DeScomposição Transitória”, que ambos vêm organizando com periodicidade mensal na SMUP (Parede, concelho de Cascais). Com o guitarrista Simão Bárcia como quarto participante, foi o factor mineral que esteve em foco. De uma ideia de “origem” passou-se para outra de “percurso” e de “memória” de uma transitoriedade. Imagens de antas megalíticas foram-se sucedendo, primeiro inseridas no conjunto da natureza e depois observadas de perto. A partir de determinada altura, o vídeo de Grimaldi isolou os dólmens e como que entrou dentro da superfície, da “pele”, destes, em efeito de microscopia, deixando ver as pequeníssimas texturas das pedras.

 

A abstractização dos menires exaltou ainda mais a sua condição petrológica milenar. Onde há água, começo, há rocha, sedimento, o que fica de um intemporal fluxo líquido. Essas duas dimensões estiveram em equação, ainda que a aquática apenas implicitamente: as figuras inertes, cinzentas e duras das pedras eram contrastadas por não identificáveis corpos moles de cores vivas. Quando o vídeo mostrou um calhau com um lado claro e outro negro, a mensagem ficou bem evidente: até minerais compactos se deixam moldar e misturar, simbolizando a condição metamórfica da vida e do tempo que passa, ou seja, a ascendência da água sobre todos os corpos, os naturais (corpos humanos incluídos) e os humanos (os “corpos” que culturalmente, tecnologicamente, criamos), numa perspectiva pós-humanista (de colocação do antropoceno numa realidade maior que o transcende), feminista e queer, na definição que a Teoria Queer dá à impermanência e aos contínuos de mudança das identidades.

A música tocada por Maria do Mar (violino), Felice Furioso (bateria, percussão) e o referido Simão Bárcia (guitarra eléctrica), um desses corpos, jogou com estes parâmetros em toda a actuação. Estabeleceu desde logo um âmbito e preencheu-o consoante os estímulos visuais fornecidos por Maura Grimaldi, que funcionaram como partitura por sugestão. Tudo se ia transformando, tudo se mantinha em caudal, entre margens. Ora tal acontecia por adequação (ritmos, passagens, dinâmicas, volumes), ora em reacção opositiva, seguindo o clássico princípio de que o contraste pode ser mais eficaz para sublinhar algo do que a aliteração e o pleonasmo.

Nesta quarta configuração das coordenadas “tempo-som-imagem em movimento-acção” a pedra e a água foram os pólos de um revitalizador entendimento da improvisação. É positivo quando se volta às bases para se fazer de novo, sobretudo porque tal atitude vai rareando. Daí a importância deste “work-in-progress” que voltará em Julho à SMUP, com outros convidados...