MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 25 de Junho de 2021

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Boas notícias a Oeste

texto Rui Eduardo Paes fotografia José Félix da Costa

Em versão reduzida a 30 músicos, sem sorteios nem “jams” madrugadoras, o MIA voltou este ano a acontecer com concertos de grupos “ad-hoc” ou já existentes no fim-de-semana de 18 a 20 de Junho. Foi menos do que era antes da pandemia, mas foi muito bom. Voltou a ouvir-se excelente música no Oeste português.

Não fora as “jams” que fecharam as noites de sábado e domingo (18 e 19 de Junho), com entradas e saídas espontâneas de músicos, e a 12ª edição do MIA teria sido bem diferente de todas as anteriores. Se o festival de Atouguia da Baleia a que nestas páginas vimos chamando de “congresso dos improvisadores” chegou a incluir 90 desses improvisadores provenientes dos mais diversos países, este ano, devido à pandemia, foram 30 os convidados e todos eles surgiram em grupos específicos para concertos convencionais. Uns já existiam, outros foram constituídos propositadamente para a ocasião. Ainda assim, ficou o essencial: um encontro de várias gerações, vários tipos de experiência, vários entendimentos estéticos. Não houve sorteios nem desbundas até ao nascer do sol, mas a satisfação de todos os participantes (com representações de Itália, França e Dinamarca) por terem podido voltar a tocar era bem evidente. Afinal, não houve MIA em 2020. 

Baralho de cartas

 

 

Tudo começou na tarde de 18, no auditório da Filarmónica local, com um “workshop” conduzido por Nuno Rebelo. O guitarrista português residente em Barcelona recuperou um antigo jogo/método a que dera o nome de “Joker”, com estreia em 2005 num festival organizado pela Granular chamado Multiplismos: nesse contexto, Rebelo opunha a uma formação mono-instrumental (por exemplo, cinco guitarras) um outro instrumento de características diferentes (por exemplo, um saxofone), com as articulações a estabelecerem-se consoante a apresentação de cartões (cartas ampliadas de um baralho), por parte do condutor e dos músicos entre si, com sinais que definiam os rumos a tomar. No caso a instrumentação era heterogénea, mas propiciadora ainda das oposições pretendidas, um pouco à maneira do “Cobra” de John Zorn.

À noite, tocou na Igreja de S. José um quarteto de sons graves formado por João Pedro Viegas (clarinete baixo), François Mellan (tuba), Alvaro Rosso e Miguel Falcão, ambos em contrabaixo. Um percalço fez com que o concerto fosse interrompido a meio: a mecânica da tuba deixara de funcionar e, não tendo sido logo possível corrigir o problema, a actuação continuou com Mellan a tocar trompete. Se os parâmetros do projecto se alteraram, a intencionada abordagem camerística da improvisação foi conduzida a bom termo, beneficiando da natural revereração do espaço. O elemento estranho, o “joker”, foi a avaria de um instrumento, pelo que a temática do dia se manteve, ironicamente, até ao final. Logo ali ficou, de resto, definido o destaque que François Mellan viria a ter no restante evento, depois de a sua tuba ter sido reparada. 

Mahler em versão pós-hip hop

 

 

O factor acidente manifestou-se ainda no primeiro concerto da tarde de 19 de Junho. O trombonista Fernando Simões formara um quinteto com Maria Radich (voz), Maria do Mar (violino), Paulo Pimentel (piano) e Mário Rua (bateria), mas por motivos de saúde não pôde comparecer. Substituiu-o, também em trombone, o italiano Carlo Mascolo, assim permitindo a preservação do equacionamento tímbrico originalmente pensado. A prestação teve como pólos a música clássica e o jazz, tendendo ora para um lado ora para o outro e resultando em algo que foi descrito por um músico que assistia, na plateia da Sociedade Filarmónica, como «Mahler em versão pós-hip hop», com o factor “pós-hip hop” a ser introduzido pelas glossolálias de Radich. As improvisações curtas foram as mais bem-sucedidas do conjunto, revelando o agudo sentido de oportunidade de Pimentel e começando por estabelecer como segunda figura de maior evidência no MIA deste ano uma Maria do Mar em fase criativa particularmente interessante.

Seguiu-se uma formação com Elisabetta Lanfredini (voz), Niels Mestre (guitarra), Manuel Guimarães (piano) e Jonathan Aardestrup (contrabaixo). Se a intervenção deste último foi objectivamente jazzística, os demais deram contributos algo excêntricos à música que foi tecida. Lanfredini ia gravando a sua voz em dois dictafones, intercalando o canto com disparos desses registos. Mestre tanto espalhava pinceladas de cor com notas longas altamente processadas pela pedaleira como desligava a guitarra e tocava filigranas dedilhadas no limite do audível. Manuel Guimarães englobava nas suas construções reminiscências tanto do pianismo erudito como do popular, sempre excluindo léxicos mais identificáveis com a música improvisada enquanto tendência com os seus próprios códigos. A recusa de lugares-comuns trouxe frescura à música, sendo que Guimarães esteve especialmente bem nesta edição do MIA. Fica ele também na galeria dos que mais a marcaram.

Depois de se ver o documentário “Caos e Afinidade”, de Pedro Gonçalves, foi a vez de o Voltaic Trio subir ao palco da Filarmónica de Atouguia, dado que a meteorologia desaconselhava uma ida à Fonte Gótica, local inicialmente previsto para o efeito. Com Luís Guerreiro (trompete, electrónica, voz), Jorge Nuno (guitarra) e João Valinho (bateria) introduziu-se na improvisação um outro idioma, o do rock. Os excessivos decibéis para o pequeno espaço onde nos encontrávamos por parte de Guerreiro e Nuno e a gratuitidade de algumas situações (os berros digitalizados do primeiro) tiveram como efeito não se ouvir devidamente o trabalho da bateria, mas o certo é que foi um momento de catarse.

Após o jantar veio o trio de Rodrigo Amado (saxofone tenor), Hernâni Faustino (contrabaixo) e João Lencastre (bateria) com o seu free melódico que, se estava bem enraízado na tradição do hard bop e no modalismo que lhe sucedeu na história do jazz, foi tocado sem quaisquer identificáveis pré-estruturações. As peças iam em crescendo de intensidade e densidade, causando estupefacção a forma telepática como os três improvisadores terminavam simultaneamente em devires que nada faziam supor a iminência de um fim. Mais tarde, o “ensemble” com todos os participantes da jornada que fechou a noite teve os altos e baixos (na circunstância, infelizmente, mais baixos) que são de esperar de um contexto “ad-hoc”, com uma única regra funcionando como dispositivo organizacional: que os músicos fossem entrando e saindo, de modo a não estarem todos a tocar todo o tempo. 

Música para crianças

 

Aquela que terá sido a melhor sessão deste MIA foi o “concerto para bebés” que decorreu na manhã de domingo, 20, na Igreja de S. José. Conduzido por Elisabetta Lanfredini e pelo violoncelista de origem turca Uygur Vural, com as participações de Carlo Mascolo, Maria do Mar e Carlos Cañao (gongo, taças tibetanas, percussão vária), tratou-se, na verdade, mais de uma performance com música do que um concerto. A encenação, o trabalho com o corpo dos intervenientes e as interacções constantes com os miúdos identificavam mais a situação como teatro musical, do todo se salientando a imaginação, o dinamismo e o desempenho especificamente sónico de Vural, apesar das dores numa perna provocadas por mais um acidente nestes dias. A canção de embalar remontando ao passado bizantino da Turquia que o mesmo Uygur Vural interpretou foi de uma beleza comovente, bem como a resposta das crianças a tudo aquilo a que assistiram. Ficará igualmente para a memória o quanto este superlativo improvisador foi importante para o MIA de 2021.

A tarde abriu com a prestação de um agrupamento proposto pelo colectivo Osso, parceiro da Zpoluras, a associação de Paulo Chagas e Fernando Simões que dirige o festival. Ricardo Jacinto (violoncelo, electrónica), Nuno Torres (saxofone alto, electrónica) e Nuno Morão (percussão, electrónica) apresentaram uma peça electroacústica de desenvolvimento lento e arquitectura minimalista. Havia, claramente, composição e havia improvisação, mas o interessante foi constatar a impossibilidade de determinar onde terminava uma para dar lugar à outra, tão articuladas estavam as duas dimensões. O carácter hipnótico da música conduzia-nos para outras paragens, das étnicas (o gnawa de Marrocos) às da “nova simplicidade” norte-americana, mas de uma forma bastante singular.

A elevada qualidade deste concerto colocou em apuros quem vinha depois no alinhamento: Maria Dybbroe (saxofone alto, clarinete), Joana Guerra (violoncelo), Paulo Duarte (guitarra) e Vito Basile (baixo eléctrico). Guerra esteve impecável nos solos e nos diálogos com os sopros e Duarte realizou um trabalho harmónico de enorme bom gosto, mas Basile não conseguiu dar consistência ao todo, agindo de modo descosido, e não foram poucas as vezes em que Dybbroe se deixou arrastar pelos mesmos cursos derivativos. A prestação que terminou a tarde subiu novamente a bitola, com Carlo Mascolo, Uygur Vural e Carlos Cañao a regressarem à cena, desta feita com a electrónica de Carla Santana. Mascolo utilizou todos os seus recursos, com as mangueiras, o cone de trânsito e um boneco de peluche motorizado a “extenderem” as propriedades do trombone. Quando resolveu tocar este com a máscara da Covid colocada, num gesto de humor cáustico deveras simbólico, provocou acesas gargalhadas na assistência. Vural voltou a entusiasmar e Santana foi a cola que uniu o todo.

Melhor estava ainda para vir à noite, com um quinteto formado por Paulo Chagas (flauta, saxofone alto), Nuno Rebelo (guitarra preparada), Miguel Mira (violoncelo) e Felice Furioso (bateria), complementados pelas imagens do cineasta Pedro Gonçalves. Muitos motivos de entusiasmo se sucederam nesta prestação, como os vocalismos flautísticos de Chagas, fazendo lembrar Roland Kirk e Ian Anderson, e a solidez exuberante de Mira tanto com o arco (com o violoncelo deitado diante de si nos minutos iniciais) como em pizzicato jazz, mas o empolgamento de quem ouvia veio da maneira como Rebelo e Furioso entrosaram entre si, parecendo que os seus respectivos instrumentos eram a continuação um do outro. O jovem baterista italiano foi outro dos incontornáveis deste Encontro de Música Improvisada.

Com o “ensemble” que fechou o MIA deste ano veio outro motivo de entusiasmo: François Mellan e Maria do Mar fizeram um duo que esteve entre o que de melhor aconteceu este ano a Oeste, apetecendo que a empatia de que deram mostras tenha futuras explorações. A ver se isso acontece já para o ano, sem pandemia e com o congresso dos improvisadores em funcionamento integral.