Limpe Fuchs, 16 de Junho de 2021

Limpe Fuchs

Lâminas de granito e um mergulho

texto Rui Eduardo Paes fotografia Mário Mar

Foi um momento histórico e especialmente mágico: a percussionista (mais exactamente: poli-instrumentista) alemã que se deu a conhecer com o krautrock na década de 1960 e hoje é admirada por Lachenmann e parceira de, por exemplo, Evan Parker veio a Portugal para um “workshop” e um concerto (com uma ida à praia pelo meio) em que apresentou vários instrumentos de sua invenção. A jazz.pt esteve presente.

Uma coisa é certa: este é já, e com certeza assim ficará até ao último dia de Dezembro, um dos concertos maiores de 2021. Não houve espectáculos ao vivo durante quatro meses, é verdade, mas a quantidade de boas actuações que se vão sucedendo à medida que desconfinamos não o deixará esquecido quando se fizerem as contas quanto ao que está a valer musicalmente este ano. Foi nada menos do que mágico o que aconteceu, de tal modo que pudemos, finalmente, compreender (os que estavam presentes na SMUP no passado dia 10 de Junho, e não foram poucos) esta frase do compositor Helmut Lachenmann: «Estou a tentar encontrar o meu som. Limpe Fuchs já descobriu o seu.»

Aos 80 anos de vida, mas com uma agilidade física absolutamente surpreendente (diz ela que se dedica «a fazer música enquanto houve a passagem do tempo… com simplicidade e emoção»), a inventora de instrumentos, improvisadora (e escultora da aleatoriedade, é necessário acrescentar, dado o lugar que reserva ao acaso e até ao acidente) alemã presenteou-nos com uma hora de música em que estavam alguns dos instrumentos de percussão que foi inventando ao longo de uma vida, desde que se deu a conhecer no final da década de 1960, com o seu marido Paul Fuchs (já falecido), na banda de krautrock Anima Sound.

No salão da SMUP estavam um enorme litofone construído com lâminas de granito, um alto polvo de três cabeças (bombos que funcionavam como caixas de ressonância) e tentáculos pendulares de metal, o que pareciam ser uns timbales cujo corpo era feito de grossas canas de bambu, um tambor de bronze, a parte de cima de um bidão de gasolina em que martelou por dentro uns relevos, para obter diferentes tonalidades, e mais. Um mais que incluía uma serra redonda de madeireiro a fazer de címbalo, dois tubos de ferro com um pequeno desfasamento de timbres, pelo que, quando percutidos em conjunto, provocavam choques de frequências que iam ondulando pelo ar, uma bola maciça de madeira que pontapeava pelo chão também de madeira, assim introduzindo profundos “drones” nas peças, e até uma enorme pedra de quartzo («encontrei-a no Brasil», disse-nos) que funcionava como um “delay” ou um “looper” natural quando os acima referidos tentáculos nela tocavam. Explicava-se o motivo por que, no início, deixou um aviso ao público: «I play acoustic.»

A desconcertante elementaridade dos meios era contrastada pelos complexos ritmos que ia retirando de tal parafernália (transportada de país para país numa carrinha; tinha vindo de Marrocos e seguiu depois para Córdova, tendo um jovem que visivelmente a adorava como motorista, “roadie”, assistente e até músico interlocutor em alguns momentos concertantes). Regra geral, explorou microtonalidades, por vezes mesmo lembrando a genialidade demente de Harry Partch, Moondog e Z’ev. Ainda cantou, mantras que ora pareciam originários do Oriente profundo ou dos indígenas das Américas do Norte, Central e do Sul, e tocou violeta, vulgo viola de arco, com a mais estranha das afinações.

A sessão abrira à tarde com um DJ set de Marta von Calhau (sob o nome Vuduvum Vadavã), constituído por temas da electrónica por computador mais “vintage” que existe em arquivo, registos de música tradicional dos confins do mundo, “field recordings” da Amazónia e música de “dança” experimental, daquela que dificilmente se pode dançar, cada mistura soando mais bizarra do que a precedente. E continuou com uma excelente curta-metragem da realizadora de cinema Camila Vale, numa combinação idealizada por Afonso Simões (Frissom) e João Castro (Nariz Entupido) que fez todo o sentido e que de alguma maneira nos preparou para este encontro com Limpe Fuchs. Preparados (e desta vez sentados com o público) estavam já os músicos que compareceram no dia anterior ao “workshop” conduzido e que tiveram a oportunidade de se familiarizar com todo o aparato instrumental e com os métodos muito pessoais desta desbravadora de caminhos que tem duos em curso com Evan Parker e o gira-disquista Ignaz Schick.

E porque, para a eternamente jovem Limpe, música e vida se misturam e os seus significados se confundem, o final desse trabalho com artistas nacionais fez-se com uma descida até à praia da Parede e um mergulho. Acima de tudo, fica para a memória futura a imagem de uma grande criadora de sons que é também um ser humano muito especial.