DeScomposição Transitória II & III, 14 de Maio de 2021

DeScomposição Transitória II & III

Não existia mais mundo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Érika Machado e Cláudio Rêgo

Na segunda e na terceira sessões do ciclo organizado por Maria do Mar e Felice Furioso para a SMUP reequacionou-se o legado da arte intermedia nas interpretações via música das “partituras” visuais que nos foram apresentadas. Resultado: todo o mundo estava ali dentro, no cruzamento de sons e imagens.

O termo “intermedia” começou a ser utilizado na década de 1960 por figuras como John Brockman, que o aplicou no âmbito do também chamado “cinema expandido”, e Dick Higgins, este para referir as colaborações interdisciplinares e em particular aquelas em que as nascentes artes do vídeo e da performance estavam associadas. De então para cá muito foi acontecendo na evolução deste tipo de abordagem, pelo meio com derivações de designação como “mixmedia” (caído em desuso ou circunscrito à criação de obras de colagem ou assemblagem) e “multimedia” (quando há tecnologia de ponta envolvida, designadamente na arte por computador).

Iniciativa de dois instrumentistas da área experimental e da improvisação que têm como comum característica um entendimento performativo da música, Maria do Mar e Felice Furioso, a série deScomposição Transitória tem levado à SMUP, no concelho de Cascais, um entendimento da fórmula que parte da recuperação de antigas ferramentas (caso do filme em película, logo na primeira sessão – em Dezembro do ano passado – com o artista visual António Caramelo e a contrabaixista Sofia Orê-Ibir, de que nestas páginas demos conta) para reavaliar as heranças existentes no presente desta tendência e projectá-las para outros desfechos e possibilidades que não necessariamente os que foram fazendo escola.

Com a reabertura dos espaços culturais em Abril, a 22 desse mês e a 6 de Maio passados ocorreram mais dois episódios do ciclo. Num estiveram com a violinista e o percussionista que são os curadores do projecto a artista Érika Machado e o músico Tom Maciel; no outro os convidados foram Francisca Veiga e o saxofonista alto Guilherme Rodrigues. O carácter “vintage” dos meios utilizados por Machado e Maciel não podia ter sido mais simbólico: um retroprojector e um sintetizador analógico. A intervenção com o retroprojector foi processualmente muito simples, consistindo em dirigir pelo tubo de uma esferográfica vazia o sopro necessário para mover um conjunto de missangas de várias cores, colocadas dentro de uma travessa de pirex – utensílios do dia-a-dia para uma estética, a de Érika Machado, alicerçada sobre uma leitura artística do quotidiano e uma conversão dos objectos desta.

As deslocações desses pequeníssimos corpos na tela implicaram uma concentração máxima da atenção. A ideia inicial era que, com tal enfoque minimalista, a imagem em movimento funcionasse como partitura da parte musical da performance, mas mais do que isso aconteceu: houve como que uma ampliação, por relações de medida, dos cruzamentos estabelecidos pelos instrumentos musicais. Os jogos tímbricos entre violino e sintetizador e entre sintetizador e percussão ganharam um especial realce, por vezes sendo até difícil perceber de onde vinham determinadas frequências.

Foi a todo um equacionamento de equilíbrios que assistimos, o pouco permitindo o muito, mas esse muito nunca cobrindo em termos de intensidade e densidade a dimensão liliputiana de que derivava. A regra base de uma colaboração interdisciplinar, aquela que vem das parcerias entre o compositor John Cage e o coreógrafo Merce Cunningham e que vem prefigurando a recusa do pleonasmo e da ilustração, esteve bem aplicada: se havia, muito obviamente, interpretação sonora do que era visualizado, esta não traduzia simplesmente os seus termos, seguia um rumo paralelo e autónomo de coincidências. O que a deScomposição Transitória nos vem mostrar é, pois, que o som e a imagem não têm de “dizer” o mesmo, ou pelo menos da mesma maneira. Algo que muitos encenadores e cineastas ainda não entenderam, 50 anos depois do nascimento dos conceitos intermedia.

Foi algo de muito diferente, mas com desfechos algo semelhantes, o que trouxe depois o quarteto formado por Maria do Mar, Felice Furioso e Rodrigues com as projecções de Veiga. A montagem vídeo desta tinha como referência o carácter “still” e fixamente impactante do seu trabalho fotográfico: a lenta mutação de uma árvore tombada, morta, consoante as sombras e as incidências da luz do dia; o alto contraste da cor de um fruto a apodrecer no solo com o fundo matizado, apenas com as formigas que a comiam contradizendo a aparente imobilidade; nuvens passando em andamentos “forward” e “backward”; ondas do mar a desfazerem-se e a recuarem; chuva a cair em plano aproximado, com ofuscamento do que estava por detrás dos pingos. Mistura de tempos, uns acelerados, outros ao ralenti, com enquadramentos criadores de ilusão. E porque assim era, este “videoscore” induziu um estado hipnótico que suspendeu o público e os músicos nas complexas e muitas vezes subliminares malhas da intriga que estava a ser urdida.

Neste cenário, particularmente interessantes foram os relacionamentos explorados entre violino e saxofone, ora ganhando um cariz camerístico, ora optando pela exploração de texturas abstractas, ora entrando pelo registo ultra-expressionista do free jazz, com a bateria e demais percussões a cortarem ou a proporcionarem ambiências, a pontuarem situações, a contradizerem o todo, a acrescentarem pormenores. Se na sessão anterior se introduzira a banalidade do quotidiano no “fazer” artístico, nesta houve uma apropriação e uma manipulação de elementos simbólicos da natureza. A audibilidade do sopro de Érika Machado inscreveu humanidade na performance electroacústica e luminotécnica que preencheu a segunda deScomposição e, na terceira, as nuvens de Francisca Veiga retiraram esse mesmo factor humano do primeiro plano, mas com coincidente usufruto: fora do salão da SMUP não existia mais mundo. Estava todo ali dentro.