J. “Cato” Calvi “Gaucho de la Pampa” + M. do Mar / S.Q. Orê-Ibir / F. Furioso / A. Caramelo “DeScomposição Transitória”, 8 de Dezembro de 2020

J. “Cato” Calvi “Gaucho de la Pampa” + M. do Mar / S.Q. Orê-Ibir / F. Furioso / A. Caramelo “DeScomposição Transitória”

Desalinhamentos

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Dois concertos recentes na SMUP proporcionaram a quem esteve presente o usufruto de propostas musicais (e interdisciplinares, num dos casos) desenquadradas dos estilos e estéticas dominantes quando se faz uso da improvisação. A jazz.pt ouviu, viu e conta como foi, já aqui em baixo.

Como é por todos sabido, mesmo nas músicas em contracorrente há tendência para a formatação estilística e estética e assim acontece – demasiadas vezes até – no âmbito daquilo a que vamos chamando de “improvisação livre”. E tanto assim que os factores “liberdade” e “improvisação” ficam colocados em causa. Quando algum projecto se desalinha das molduras habituais, é caso para celebração, pois essa proposta musical repõe as premissas originais de toda uma tendência e tem a força de projectar as ideias fundadoras em consequentes práticas de inovação. Assim aconteceu em dois concertos recentes da programação de Cláudio Rêgo para a paredense SMUP, o solo de clarinete baixo de Juan “Cato” Calvi a 27 de Novembro passado, com o título “Gaucho de la Pampa” (e que terminou com um duo secundado pelo – na ocasião, pois toca variadíssimos instrumentos – guitarrista André Holzer), e a primeira sessão do ciclo DeScomposição Transitória, com Maria do Mar (violino) e Felice Furioso (bateria), os seus curadores e músicos permanentes, convidando para o efeito a contrabaixista Sofia Queiroz Orê-Ibir e o cineasta experimental António Caramelo, ocorrida a 3 de Dezembro.

“Cato” Calvi apresentou a sua intervenção como um conjunto de “comprovisações”, pelo facto de combinarem escrita, ou pelo menos estruturas base, com desenvolvimentos espontâneos. Tocou uma série de pequenas peças quase situacionais, no sentido de que cada uma se centrava num determinado conceito melódico ou rítmico ou, pelo menos, uma selecção de técnicas chave, umas de sua autoria e outras repescadas de terceiros (Yusef Lateef – “Purple Flower”; Eric Dolphy – “Hat and Beard”; John Coltrane – “Lonnie’s Lament”; num “statement” de conexão com o património do jazz), uma peça apenas nos remetendo para a tradição musical argentina, berço do clarinetista radicado em Portugal: “Zamba de Luzano” de Cuchi Leguizamón, considerado o pai do folclore do Noroeste da Argentina. Pelo meio, avançou pela mimetização sonora de uma Lisboa «permanentemente em obras», retirando o bocal do clarinete baixo.

O curioso, e particularmente interessante, deste músico, não obstante a inclusão de Dolphy no repertório, é a circunstância de a sua personalidade musical pouco dever ao padrão dolphyniano da maioria dos clarinetistas baixos. A identidade de Calvi como utilizador deste instrumento é outra, provindo em grande parte da música erudita, quando não das músicas populares argentinas. E porque se trata de um virtuoso, no bom sentido, foi impressionante ouvi-lo a usar as notas mais agudas, por vezes “empurrando” as cinco oitavas de “range” do instrumento para a sexta, sempre explorando harmónicos e multifónicos. Quando ia para os baixos mais graves, parecia que não estávamos nas suas Pampas natais e sim numa planície africana, entre elefantes. A música tornava-se gutural, primitiva, selvagem, inventando para o clarinete baixo o sucedâneo de um Albert Ayler.

Como se não bastasse a nenhuma ortodoxia da sua intervenção a solo, o duo final de Calvi com Holzer, mais demorado, constituiu uma surpresa. O multi-instrumentista alemão também residente no nosso país levou consigo uma guitarra de aço que deitou sobre o colo, enfiando “slides” nos dedos de cada mão, e em conjunto improvisaram sobre um tema misto de raga e blues. Fiéis à noção de que na música clássica indiana não há harmonia, escolheram tons diferentes para os seus fraseados paralelos, só se encontrando nas exposições da linha melódica principal. Soou quase como se John Fahey tivesse feito uma dupla com John Carter, num dos momentos mais especiais que se ouviram na SMUP em sete anos de concertos.

Semelhante impacto teve a estreia da série DeScomposição Transitória, um projecto que visa a combinação de música criada ao vivo com o cinema ou a vídeo-arte de autores convidados, com Maria do Mar e Felice Furioso a estabelecerem o eixo das leituras musicais sugeridas pelas imagens projectadas sobre a tela. Nesta edição tal aconteceu com o acrescento de Orê-Ibir, jovem contrabaixista de enorme talento que, com toda a certeza, dará muito que falar no futuro. Com o som dos dois projectores de película como fundo, manipulados por um António Caramelo que puxava manualmente os filmes a preto-e-branco para trás e para diante e lhes aplicava ácidos transformativos, o trio teve múltiplas, mas convergentes, abordagens, nunca se fixando numa e igualmente nunca perdendo coerência ou consistência: ora coincidia com os procedimentos do reducionismo improvisacional, ora partia do free jazz do Revolutionary Ensemble de Leroy Jenkins, ora espraiava-se por situações mais camerísticas ou, com os processamentos de sinal e os “loops” do contrabaixo, entrava pelos domínios da electroacústica. Por vezes, com mesclas de referências a ocorrerem.

Tudo correu num fluxo encantatório e sinestésico, com Caramelo também a reagir à música (até porque ele próprio é músico, com actividade no domínio da electrónica), dando a ilusão de que estávamos imersos num mar que nos levava consoante a força das correntes. do Mar e Furioso foram profícuos em sugestões, pistas a seguir e soluções composicionais e organizativas do que ia surgindo, em movimentos que demoravam a instalar-se e a desenvolver-se. Sobretudo, agradou que a música não fosse ilustrativa ou programática, que não representasse pleonasticamente o que se via, condição a que vulgarmente é obrigada quando em interacção com outras artes, contradizendo a sua própria natureza não-representacional. Isto com uma Sofia Orê-Ibir a muito bem utilizar o arco, na melhor filiação clássica do contrabaixo (algo que é relegado para segundo plano pelos contrabaixistas de jazz), mas também a vincar o seu entendimento do pizzicato rítmico, em directa conjugação com a bateria.

O DeScomposição Transitória vai ter uma periodicidade mensal, com um músico extra e um artista visual adicionais, sendo de prever que cada prestação cubra um segmento de um largo espectro de aproximações possíveis, dependendo de quem se juntar a “setups” que têm como fito revitalizar os parâmetros da improvisação e da interdisciplinaridade artística. Ou seja, na SMUP este interesse pelo desalinhamento e pela descompartimentação vai continuar, e ainda bem…