Maria do Mar, 22 de Outubro de 2020

Maria do Mar

Gestualismo musical e um cartaz de Abril

texto Rui Eduardo Paes

O ciclo Estação Minhoca incluiu um único concerto de música improvisada, o solo de violino que ouviu e viu quem se ligou à Internet no passado dia 19. O gestualismo musical, performativo, de Maria do Mar vai ficar, com certeza, para a história, por tudo aquilo que significou, com um cartaz alusivo ao 25 de Abril que se via atrás da violinista a descolar-se da parede e a cair.

Com a pandemia e a impossibilidade de haver concertos ao vivo, a transmissão em “streaming” de actuações musicais tornou-se na única forma de os músicos – alguns músicos – continuarem activos. Se teve esse lado positivo, muitos outros aspectos resultaram negativos. A qualidade do som e da imagem era medíocre, o que menorizava os projectos em apresentação, e o objectivo de os artistas serem pagos pelo seu trabalho com os donativos de quem os via e ouvia nos computadores ou nos iphones falhou redondamente: a maior parte dos visionamentos resultava em nenhumas, ou muito poucas, contribuições financeiras. No caso das transmissões de música improvisada o dilema era claro: a improvisação vive do “aqui e agora”, da fruição presencial e da performatividade, pelo que o recurso não funcionou. Por mais boas intenções que uma iniciativa como a Covidarte de Margarida Azevedo, entre outras, existissem.

Até que, já numa altura em que se começou a poder ouvir música em sala, com espaços entre cadeiras e menos pessoas, sempre de máscaras colocadas, surgiu algo de diferente, o ciclo que, desde o passado mês de Setembro e até Novembro próximo, dá pelo nome de Estação Minhoca, em alusão às rádios locais portuguesas do início do século XX. A comparação faz sentido, pois a série em questão realiza-se em locais inconvencionais de Lisboa, geralmente nunca utilizados para espectáculos e muitos deles privados, espaços esses que estão a ser mantidos em segredo na divulgação. A iniciativa partiu da Unha de Eduardo Morais, conhecido realizador de documentários sobre música e DJ da noite alfacinha, com um programa de “pocket-shows” de músicos independentes (vulgo “indie” ou alternativos) que recebeu o apoio do Fundo de Emergência Social da Câmara Municipal de Lisboa. Com mais tecnologia envolvida, as propostas feitas ao público têm-se destacado pelas melhores condições, com a música a fazer-se ouvir sem interferências e as imagens a chegarem com clareza. Não sem alguns problemas de permeio: o “streaming” foi mais pensado para os telefones inteligentes do que para os computadores de casa, surgindo os músicos nestes em ponto pequeno, e se a intenção era que o vídeo do mesmo ficasse disponível 24 horas depois da prestação, tal não aconteceu nas duas últimas emissões devido a problemas técnicos da própria rede social escolhida.

No variado programa concebido por Morais (os demais incluindo Batida DJ, Octa Push, Scúru Fitchádu, Nerve, Aurora Pinho, Cancro, Cigarra e Miguel Torga), a que se pode assistir no Instagram da revista “online” Rimas e Batidas, só um concerto foi do domínio da música improvisada, o da violinista e violetista Maria do Mar, que teve lugar a 19 de Outubro num atelier de artes plásticas. Não foi o mesmo que estar lá, mas teve o melhor enquadramento de sempre. Para o espaço em questão, e à semelhança do que foi definido para a generalidade do ciclo, estava previsto que cinco pessoas (e só cinco, seleccionadas por concurso, devido à exiguidade das instalações) pudessem assistir. Tal não se verificou devido às novas medidas preventivas do estado de calamidade, tendo as ditas surgido de forma contraditória, vaga e não muito científica (como tem sido, aliás, hábito com esta governação). Presentes estavam apenas a artista, os técnicos, a utilizadora do atelier, Catherine Boutaud, e este ouvidor, por opção dos organizadores.

Consciente de que o seu solo (improvisado, experimental) teria menos impacto em meio virtual do que normalmente aconteceria com o público diante de si, Maria do Mar fez a inteligente escolha de o tornar especialmente performativo. Como? Desenvolvendo uma abordagem gestual da música, no sentido de que a fisicalidade das execuções ora se traduzia em sonoridades em tudo consequentes ou despertava imaginários igualmente do domínio do movimento quando as situações auditivas eram menos visivelmente óbvias – por exemplo, quando explorava harmónicos, multifónicos e sincronias de agudos e graves com duas linhas simultâneas de melodia (os académicos chamam a tal “embodied music cognition”). O começo da performance introduziu desde logo essa dimensão, com Mar a balançar o violino diante de si de maneira a ouvir-se o ar entrando pelo microfone e depois a manipulá-lo com o arco (cordas e madeira) como se se tratasse de um instrumento de percussão. Seguiu-se um jogo de dinâmicas em que o gesto era a medida do que se ouvia, umas vezes com um ataque abrupto, seco e mais virulento, outras indo ao muito pequeno e ao quase nada, em diminutos detalhes que implicavam também sub-reptícios movimentos.

O envolvimento do corpo na música tornou esta mais emotiva, o que, se é uma natural característica da livre-improvisação, no caso teve uma particular incidência. A vertente técnica foi totalmente colocada ao serviço da expressão, com o violino a agir como uma extensão da instrumentista ou como se fosse uma prótese desta, e tanto assim que já não se tratava simplesmente de um concerto, mas de uma performance. A música gestual, ou melhor dizendo, o gestualismo musical de Maria do Mar colocou em prática o que os matemáticos da música (leia-se “Formulas, Diagrams and Gestures in Music”, de Guerino Mazzola, publicado no Journal of Mathematics and Music, Vol. 1, de 2007) referem como uma «configuração de curvas no espaço e no tempo». Assim dito pode até parecer que a performance foi algo árida, mas os momentos de pura beleza atingidos desmentiram essa impressão. «Na prática a teoria é outra», para citar uma máxima da cooperativa artística Penha sco, de que a artista é uma das dinamizadoras.

A intervenção de Mar na Estação Minhoca foi um bom exemplo da interacção e da intermodalidade dos sistemas motores e perceptuais desta tendência que está a ampliar o âmbito daquilo a que convencionalmente chamamos “música”. É de um novo tipo de teatro musical que se trata e trouxe até consigo algum simbolismo. Na parede atrás da improvisadora estava um cartaz alusivo ao 25 de Abril, da autoria de Catherine Boutaud, que, talvez devido às vibrações acústicas produzidas, se descolou da parede e caiu. Agora que se fazem concertos escondidos com transmissão na Nuvem, o acidente como que representou esta época em que as mais elementares liberdades e garantias trazidas pela revolução estão a ser colocadas em causa, não tanto por causa de um bicharoco que não vemos, mas pela forma como quem manda está a lidar com ele, e connosco. No entender do acima assinado, este concerto à distância fez história no que à improvisação diz respeito.