Lantana, 27 de Agosto de 2020

Lantana

Bruxaria entre fábricas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Rocha

A estreia de um filme sobre a improvisação portuguesa e a abertura de um novo espaço em Lisboa deram contexto à segunda actuação pública pós-confinamento de um sexteto de mulheres que entende a sua música como um ritual e uma viagem. Pois foi o que aconteceu num “warm up” do Indie Lisboa na Casa do Capitão, entre fábricas abandonadas…

A ocasião era especial, assim como já tinha sido especial a apresentação do mesmo grupo, Lantana, umas semanas antes, no Jazz 2020 da Fundação Calouste Gulbenkian. Nestes tempos em que vivemos, qualquer concerto que aconteça é uma vitória contra a paragem a que o sector artístico e cultural foi obrigado, porque de uma retoma de actividade e de um reencontro com o público se trata. No caso, outras circunstâncias específicas se acrescentavam: tratava-se de um dia (23 de Agosto passado) de “warm up” para o festival de cinema Indie Lisboa, o mesmo em que o documentário de Pedro Gonçalves sobre a música improvisada portuguesa, “Caos e Afinidade”, vai ser estreado (e cujo cartaz mostra, precisamente, uma das Lantana, a violinista Maria do Mar), tendo como palco um novo espaço de Lisboa aberto às músicas não-conformistas, a Casa do Capitão. Num contexto epidémico que ditou a morte de tantos locais da capital com música ao vivo, haver algum a nascer é, só por si, um admirável acto de coragem e resistência.

Era, pois, de Lantana – ou seja, do sexteto formado por Maria do Mar, Maria Radich, Anna Piosik, Joana Guerra, Helena Espvall e Carla Santana que tanto surpreendeu em 2019 – o concerto marcado para um terraço situado entre fábricas abandonadas do Beato. E foi o melhor dos quatro já presenciados por este ouvidor profissional, tendo passado por momentos de uma beleza dificilmente descritível. Lantana é o nome que se dá às flores selvagens do campo e a associação que imediatamente vem à ideia é a do jardim alienígena que surge no filme “Space is the Place”, protagonizado por Sun Ra e realizado por John Coney. Um jardim colocado bem a meio de um espaço industrial desactivado. Lantana pode partir do enquadramento da chamada “improv” (uma tendência musical caracteristicamente urbana), mas soa como poderia ser, na nossa imaginação, a música de câmara do planeta Vénus. Os alicerces são-nos familiares, mas os resultados têm um factor de estranheza que coloca o grupo num lugar à parte, bem longe dos cânones da livre-improvisação.

Os três instrumentos de cordas, um violino e dois violoncelos, como que funcionam em movimento perpétuo, definindo um parâmetro tímbrico que nos remete para a música clássica sem que tal determine um vínculo formal ou estético. Estão lá sempre, como o núcleo de cada situação, colando as partes e dando-lhes substância. De certo modo, é como se agissem como a tambura da música indiana. Tal como neste caso, impõem uma atmosfera e garantem o estado de transe em que somos mergulhados durante cada actuação. Neste dia, isso aconteceu muito em particular. E se Mar, Guerra e Espvall foram eficazes em fantasmizar a presença de uma orquestra, desdobraram-se também em outros planos. Um foi a introdução de pulsações em pizzicato não muito distantes das rítmicas do rock ou do jazz; outro o ocasional recurso a figurações melódicas que tinham algo de uma folk sincrética. Algo pastoral até, contrastando com a paisagem do local deste concerto.

A electrónica de Santana tornava tudo isto ainda mais irreal, enquanto os volteios de trompete por parte de Piosik desestabilizavam os edifícios construídos, abrindo ainda mais o alcance dos sons que iam sendo mesclados. A voz de Radich acrescentou grão ao conjunto, simulando conversas numa língua indecifrável, com significações que nos eram apenas emocionais, pathos em vez de logos. A longa improvisação tocada mais parecia um Shostakovich psicadélico e ritualístico com agridoces apontamentos trompetísticos à maneira de um Kenny Wheeler e um vocalismo que derivava da poesia fonética Dada. A música de depois de todas as músicas, uma música de bruxaria, mágica e transformadora. Quando o concerto terminou, parecia que tínhamos feito uma longa viagem num curtíssimo período de tempo, dentro de nós e muito longe no Espaço. Por segundos, as pessoas presentes ficaram em suspenso, para logo manifestarem ruidosamente o entusiasmo gerado. Há algo de diferente e precioso na actualidade da música criativa nacional e chama-se Lantana. Vamos ouvir falar muito deste colectivo…