Julho é de Jazz + Jazz no Parque, 6 de Julho de 2020

Julho é de Jazz + Jazz no Parque

Regresso à terra

texto Gonçalo Falcão fotografia Hugo Sousa / gnration e Fundação de Serralves

Eis, finalmente, que volta a solo firme a nave em que nos vimos metidos neste mau filme de ficção científica trazido pela epidemia do Covid-19. Com o jazz novamente a ser tocado ao vivo em dois ciclos de concertos que estão em curso neste mês de Julho nas cidades de Braga e do Porto. A jazz.pt foi assistir às primeiras actuações…

Foi em Março. As coisas começaram a parar a 10 e no dia 18 foi decretado, pelo Presidente da República, o estado de emergência em Portugal. Congelou-se a vida.
O grande problema é que não é possível congelá-la sem a extinguir. Por muito inactivo que esteja o corpo, algum alimento tem de entrar. A música terá sido das áreas em que a supressão se sentiu mais profundamente, pois os músicos vivem de tocar ao vivo, duplamente: porque os concertos são fundamentais para evoluírem musicalmente e também porque os concertos são a sua principal fonte de rendimento, ou seja, imprescindíveis para que existam.

Cada vez se compram menos discos, e o Spotify (e outras plataformas de “streaming”) são um péssimo negócio para a esmagadora maioria dos músicos (o cálculo de quanto é que um músico recebe por alguém ouvir a sua música no Spotify é quase impossível de fazer porque os valores são variáveis e têm ainda de ser divididos por um grupo de agentes, mas calcula-se (https://soundcharts.com/blog/music-streaming-rates-payouts) que o valor médio que um músico recebe por cada 1000 “streams” é de $3,18. Para um músico poder ganhar o ordenado mínimo nacional com o Spotify a sua música tem de ser tocada no mínimo 230 milhões de vezes por mês. Saibam mais sobre isto em https://informationisbeautiful.net/visualizations/spotify-apple-music-tidal-music-streaming-services-royalty-rates-compared/ 

Para nós, que gostamos de jazz e de música tocada ao vivo, os concertos são um bem de primeira necessidade. Havia-os todos os dias. O mundo era assim e parecia ser natural, mas Março desnaturalizou esse facto. Foi por isso que nos fizemos alegremente à estrada entre Lisboa, Braga e Porto, para ouvir o segundo e o terceiro concertos de jazz pós-confinamento em Portugal. O primeiro tinha sido na Guarda (com os TGB no ciclo Guarda in Jazz) no dia 1, o segundo foi em Braga, no gnration, a 3 (Julho é de Jazz), e o terceiro no Porto, no Museu de Serralves (Jazz no Parque), logo no dia seguinte. Contamos ver estes programadores e organizações medalhados no próximo dia 10 de Junho.

Cadeira-sim-cadeira-não

“Julho é de Jazz” era a frase da casa em Braga. Passados 87 dias do dia do encerramento do País, «I want to see people and I want to see life» era o “feeling” geral. Foram as pessoas e o gnration esgotou. A sala, previamente higienizada, recebeu-nos a todos com a etiqueta respiratória do momento e mãos purificadas. Sentámo-nos cadeira-sim-cadeira-não e saímos da sala controladamente, por filas. É assim, agora. Zero viroses, 100% de alegria e jazz para ouvir com o duo de Andy Sheppard e do português Mário Costa. Foi um bom regresso. O baterista tinha tocado magnificamente o ano passado e o retorno tinha esse simbolismo de nos indicar que a vida continua.

O saxofonista britânico é uma presença regular no circulo de Carla Bley e Steve Swallow e um músico ECM desde 2009. Está a viver em Portugal, Sintra mais especificamente, julgo que para fugir à des-europeização da Inglaterra. Estava cá, a jeito, e Mário Costa, inteligentemente, aproveitou para retribuir o convite que Sheppard lhe tinha feito para integrar o seu quarteto na “tournée” que ia começar em Março, o que acabou por não acontecer. Convidou-o para um duo de sax e bateria. Sheppard e Costa têm personalidades musicais semelhantes, muito rigorosas, contidas e ambos à procura de músicas agradáveis. Ao início, o baterista colocou-se numa posição de resposta, deixando o saxofone conduzir o concerto.

Foi Sheppard quem definiu as conversas e o papel da bateria numa música macia, mas pouco emocional. Só mais perto do final, com “Tea Cake”, começámos a ouvir a bateria mais solta e Mário Costa a impor alguma energia. Ouviram-se músicas redondas, com uma lógica muito evidente. É a receita do inglês, que se manteve fiel ao seu formato. Assistimos a um concerto com algum distanciamento, mas bonito e sereno. Mário Costa é, com justiça, um dos melhores bateristas europeus e mostrou nesta ocasião muita capacidade de ouvir e de facilmente perceber o universo musical proposto. Fizeram-se sentir os efeitos do isolamento, da pausa e do primeiro concerto juntos, sem com isso o mesmo deixar de ser bom de ouvir. Parabéns ao gnration pela coragem.

O mês de Julho vai mesmo ser de jazz em Braga e a música continuará: já na próxima sexta-feira, dia 10, com um quarteto: Rodrigo Amado, Ricardo Toscano, Hernâni Faustino e João Lencastre. Na seguinte, dia 17, apresenta-se um duo que importa não deixar de ouvir, pois junta um pianista introspetivo com um baterista também excepcional: João Paulo Esteves da Silva e Pedro Melo Alves. E para fechar o mês, no dia 24, vamos conhecer os novos capítulos do trio Lokomotif de Carlos Barretto. Braga deu o exemplo e que bem o fez. 

Projectos em estreia

 

Depois de Braga foi a vez de o Porto mostrar que é preciso voltar a viver. E como sempre, no “court” de “lawn tennis” de Serralves, instalou-se o Jazz no Parque. Como sempre - mas como nunca - com as cadeiras distanciadas, mãos alcoolizadas e máscara na cara. E exclusivamente português. A opção pelo jazz nacional resulta parcialmente de uma imposição – a maior parte das fronteiras ainda está fechada e não é possível fazer viajar os músicos, mas também, como explicou o programador Rui Eduardo Paes, por necessidade: os músicos portugueses precisam urgentemente de tocar. O público ouviu no dia 4, e ouvirá nos dois próximos sábados, projectos de jazz nacional em estreia.

A ideia de propor ao trompetista suazi (radicado em Portugal) Yaw Tembe que passasse de uma formação mínima (Sirius, um duo) para uma máxima (GUME, uma mini-orquestra de 12 elementos) também se enquadrava neste contexto de premência musical: os músicos portugueses são bons, os músicos portugueses precisam de tocar. «Cuidarmos dos nossos e darmos-lhes um espaço», dizia a folha de sala. Parabéns a Serralves por não ter desistido.

O concerto começou rítmico, primeiro com a bateria e com a percussão, juntando-se depois o resto do grupo: guitarra eléctrica, contrabaixo, sopros, cordas e vozes. A música escrita por Tembe para este grupo tem pequenas semelhanças com a de Ambrose Akinmusire, mas as diferenças são maiores. A base rítmica não radica no hip-hop, mas nos ritmos africanos, passados a ferro pela bateria de Sebastião Bergmann. As vozes não rappam. Leonor Arnaut limitou-se no concerto a dobrar os sopros, cantando a melodia, enquanto Raquel Lima, bem mais interessante, presente e interventiva, declamou / cantou e dançou os seus textos em que a fonética desempenha um papel fundamental. As cordas (Gil Dionísio, Maria do Mar e Joana Guerra) estão longe de ser um trio certinho e coeso: tocam com algum desarrumo e impõem-se como uma segunda voz relativamente aos saxofones e ao trompete, que têm a responsabilidade principal na entrega das frases simples e dançáveis de Yaw Tembe.

Foi um concerto de Verão, solto, rítmico, melodioso, alegre, dançável, como os tempos (o físico, o meteorológico e o psicológico) pedem. Assistimos à estreia dos GUME conscientes de que esta pedra fundacional tem muito trabalho de polimento pela frente. Não conseguimos imaginar a dificuldade que foi escrever, reunir os 12 músicos à volta desta ideia e ensaiar. Ainda bem que Tembe o conseguiu fazer. Que o tempo, a liberdade e a proximidade social façam o resto.

Julho é de jazz também no Porto e ainda há muito por ouvir: no próximo sábado, à mesma hora (18h00, fim da tarde, temperatura perfeita) toca o Paulo Chagas Bogus Pomp com a estreia absoluta de “The Deathless Horsie”. Trata-se de um quinteto que tem a particularidade de fazer Nuno Rebelo regressar a Portugal (o músico dos Mler Ife Dada está há vários anos a residir e a trabalhar em Barcelona). Os dois nomes – Bogus Pomp e “The Deathless Horsie” – são os títulos de peças de Frank Zappa e por isso sabemos desde já que a presença do genial compositor americano se fará sentir, enquanto homenagem e referência, nos temas compostos por Paulo Chagas. Para além deste nos sopros e de Nuno Rebelo na guitarra eléctrica, a formação contará com Fernando Simões no trombone, João Madeira no contrabaixo e Mário Rua na bateria. No dia 18 o ciclo portuense fecha com Cíntia, o trio de Simão Bárcia na guitarra e na electrónica, Tom Maciel nos teclados e Ricardo Oliveira na bateria.