Desterronics, 1 de Julho de 2020

Desterronics

O dia em que o Desterro foi à praia

texto Rui Eduardo Paes fotografia Mário Mar

As coisas que este tímido desconfinamento proporciona: esse acontecimento a que se chama Desterronics saiu da cave do Desterro em que se apresentava semanalmente antes da presente crise epidémica para ir à praia, mais exactamente à SMUP. Foram quatro horas de música electrónica totalmente improvisada, mas com ritmo e melodia. Ou seja, livre de facto.

Um concerto de música electrónica reportado pela jazz.pt? Sim, porque aquele a que assistimos no passado dia 26 de Junho, com Desterronics a sair da sua base de trabalho, o Desterro (Lisboa), para uma ida à SMUP, teve a particularidade de ser integralmente improvisado. Como é apanágio do projecto, mas sem nunca parecer música improvisada. Aliás, tudo neste Desterronics foge à regra, começando pelo facto de ser mais o nome de um acontecimento do que de uma formação – esta é variável no número e nos participantes, só mantendo como repetentes as presenças de figuras como Jari Marjamaki, Violeta Lisboa, Rui Antunes, António Caramelo e poucos mais. O acontecimento, na Parede, consistiu em quatro horas de actuação ininterrupta à volta de uma mesa cheia de “gadgets” (entre sintetizadores, samplers, sequenciadores, “laptops”, dispositivos MIDI, mesas de mistura e centenas de cabos), com os sete intervenientes a entrarem e a saírem a espaços, dependendo do cansaço ou da vontade de fumar.

Se algumas das performances Desterronics podem ser experimentais, abstractas e ruidosas, na linha do que ficou definido como EAI (iniciais de “Electro-Acoustic Improvisation”), e se outras entram pelos domínios da música de dança e do techno, nunca se sabendo muito bem o que esperar de uma apresentação, no caso vertente – um concerto que decorreu no centro do salão, entre cadeiras espaçadas devido às medidas de contenção da epidemia em curso e colunas de som (quatro, mais dois “subwoofers”), das 18h00 às 22h00 – escolheram-se o ritmo e a melodia como parâmetros. A partir daí foram revisitados alguns modelos de criação electrónica da década de 1980, da electropop (um momento houve em que só parecia faltar a voz de Dave Gahan para termos em cena os Depeche Mode) à kosmik music, com alusões directas e indirectas aos Tangerine Dream. E no entanto, tudo era embrulhado e entregue ao público de um modo completamente diferente daquele que foi parametrado por essas tendências musicais do passado, numa atitude que era retro, sem dúvida, mas de desconstrução com critérios totalmente actuais.

O que mais surpreendeu, neste contexto, foi a capacidade composicional para criar “beats” e linhas melódicas que mais parecia terem sido previamente estabelecidos, algo que apenas se poderia esperar de um colectivo com muita rodagem e um domínio total da improvisação. Foram notáveis as pulsações digitais introduzidas por Marjamaki e as frases “cantabile” que Antunes retirava de um sintetizador analógico russo dos anos 80 de nome impronunciável (Polibox em Inglês), com um som que decerto terá envergonhado na época marcas como Moog, Roland, Oberheim, Ensoniq, Yamaha e mais. Brilhante foi igualmente a forma como Lisboa introduziu os seus vocais, processando-os, nas malhas em construção – se os ditos já eram únicos (a voz de Violeta Lisboa está algures na zona que vai do contralto ao tenor), as sínteses que a partir desses timbres operou como que humanizaram as máquinas.

Calhou que um dos poucos concertos de regresso da cultura à vida do País que por estes dias vão surgindo tivesse a improvisação como técnica, que não como estética, mas bem que, em termos de uma improv estética, poderíamos tirar conclusões interessantes sobre o que aconteceu nesta ida às praias da Parede e das Avencas para uma prestação que foi invulgarmente solar e luminosa – a enegrecer à medida que a noite caía, o que também resultou em algo de intrigante. Que conclusões? Por exemplo, que a batida e a melodia não têm de ser proibitivos num quadro de música improvisada “livremente”, ou pelo menos assim se diz…