Sunsetnoise, 24 de Junho de 2020

Sunsetnoise

Regresso ao futuro

texto Rui Eduardo Paes fotografia Mário Mar

A SMUP voltou aos concertos com um minifestival de um dia e lotação limitada. Foi um final de tarde e início de noite especialmente emotivo, com música boa a condizer. A jazz.pt esteve lá e desentupiu os ouvidos, depois de quatro meses de confinamento…

O regresso da SMUP aos concertos no passado dia 20 de Junho, depois de quatro meses de paragem devido à epidemia do Covid-19, foi também um acontecimento social especialmente emotivo, até por ter proporcionado o reencontro de pessoas que não se viam há muito tempo. O público estava ansioso por ouvir de novo música ao vivo e o pleno da lotação máxima ainda obrigada pelas medidas de distanciamento fez-se com cerca de 40 presenças, num salão que em tempos normais já chegou a ter 400 – uma boa parte, curiosamente, constituída por músicos e artistas que se deslocaram a partir de Lisboa. Com programação de António Caramelo, o Sunsetnoise arrancou ao final da tarde com quatro propostas muito diferentes, em linha com o desejo de «continuar a activar realizações em favor das diferenças».

A abertura aconteceu com uma “escuta colectiva”: uma peça gravada de João Farelo em jeito de “soundscaping” que captava os sons (e os silêncios) de uma rua lisboeta em pleno período de confinamento. O enquadramento e o tratamento dos materiais acústicos foram ouvidos como música, porque é essa a definição primeira da música, a organização dos sons, ainda que estes tenham surgido de forma aleatória. Quando parecia estarmos a ouvir música concreta vinha finalmente a identificação das fontes auditivas: um automóvel a passar, uns pássaros distantes, vozes, sinais isolados de uma cidade que parecia vazia.

Depois, veio o primeiro concerto, um solo em computador e sintetizador de Miguel Sá, veterano da electrónica portuguesa que desde sempre tem estado envolvido com a cena da improvisação. Os dois primeiros temas prosseguiam o tipo de intervenção que se tornou próprio deste artista sonoro, com “drones” em várias camadas de agudos e graves, numa mescla de harmonias orquestrais subtilmente modeladas e ruídos intermitentes, como que numa encenação do “glitch” e do acidente. A surpresa veio ao terceiro tema, com uma “voz” dianteira a reiterar uma melodia tão clara nos seus contornos quanto leve, e até aérea, nos efeitos provocados, proporcionando uma fruição que tanto nos remetia para a pop ou a folk como para a música clássica.

Miguel Sá

Adriana Sá / John Klima

A seguir, apresentou-se o duo de Adriana Sá e John Klima, ou seja, 2/3 do trio Timespine. E com algo de novo: um instrumento de cordas tocado a dois, de sua própria invenção e construção, que foi utilizado de várias maneiras: dedilhado, percutido com pequenas baquetas e accionado com arcos de violino. Cada um dos músicos tinha funções definidas: Klima, que tem o baixo eléctrico como primeira ferramenta de trabalho, cuidava dos esqueletos e dos suportes, enquanto Sá enchia o corpo da música umas oitavas mais acima, não sem que marcasse as passagens com alguns impactantes subgraves. Repetições de motivos, rítmicos sobretudo, derivações mínimas que se iam somando até chegarmos a outros lados e explorações de harmónicos, sempre com um carácter orgânico, foi o que nos ofereceram nesta muito curiosa performance. No final, mostraram-nos as “pautas”: dois pequenos “post-its” com indicações-base, porque tudo o resto tinha sido improvisado.

A última intervenção foi especialmente marcante. Estava anunciado um David Maranha Ensemble (foto no topo) com participações de André Gonçalves com os seus sintetizadores modulares, Manuel Mota em guitarra eléctrica, Rodrigo Amado no saxofone tenor e Raphael Soares na bateria, mas este último e Gonçalves não puderam comparecer. Com Maranha a dividir-se entre a percussão e o órgão Hammond estiveram Mota, Amado e o baterista Afonso Simões. A exclusão do factor electrónico sublinhou as vertentes jazz e rock que se adivinhavam, com Rodrigo Amado a inserir-se nas intrigas do melhor modo, revelando que a paragem epidémica em nada prejudicou o topo de forma em que se encontrava antes de tudo isto acontecer, e Manuel Mota a gerir engenhosamente a distorção e o “feedback”. O emparelhamento percussivo de Maranha e Simões fez maravilhas, numa música iminentemente colectiva que aliava o minimal com o psicadélico e o modal com um espírito de “jam”.

O regresso da música à SMUP aconteceu em grande, e com as emoções à flor da pele. Agora é seguir em frente, na medida das possibilidades de todos conhecidas, agora mais apertadas na área da Grande Lisboa…