Cat in a Bag, 5 de Fevereiro de 2020

Cat in a Bag

Figurativismo abstracto

texto Rui Eduardo Paes fotografia Diogo Luís

A banda que conta com três elementos dos Slow is Possible passou pela SMUP para apresentar o seu conceito de ambiguidade de género e estilo. Ficou a noção de que o jazz é mais uma atitude do que outra coisa, pela via da adopção musical de premissas que vêm da pintura.

Com o seu primeiro disco homónimo a surgir o ano passado na lista dos melhores álbuns nacionais, mas ainda contando com poucas aparições públicas entre nós (João Clemente, o guitarrista, vive na Alemanha, e João Lucas, o baixista, na Holanda), os Cat in a Bag meteram-se à estrada neste início de 2020 para um par de concertos. O primeiro foi na SMUP e o segundo na Casa da Música - assistimos ao primeiro, o da Parede, no passado dia 31 de Janeiro. E fizeram-no para nos trocarem as voltas: não se percebia se estávamos diante de um grupo de jazz que toca rock ou se de um grupo de rock que toca jazz. A dúvida, ou melhor, a ambiguidade de género e de estilo, foi mesmo a chave que explicava as dinâmicas conseguidas pelo quarteto.

A formação trazia consigo uma referência importante: três dos seus elementos (o referido Clemente mais o saxofonista Bruno Figueira e o baterista Duarte Fonseca) pertencem igualmente aos aclamados Slow is Possible. Ora, se características composicionais há de comum com essoutra banda, o que esta nos ofereceu ao vivo (suplantando mesmo o que vem no disco editado pela Clean Feed) soou mais solto e mais definido em termos de alinhamento estético, com nada da moldura camerística e pouco dos procedimentos de colagem e mistura à la John Zorn e à la Frank Zappa que caracterizam os SiP.

A actuação decorreu numa inversão de termos. Se no jazz o habitual é que as improvisações surjam dentro dos temas, explorando-lhes as cifras, o que os Cat in a Bag fizeram foi colocar peças pré-definidas no decurso de um fluxo improvisacional, sem paragens pelo meio. As diferenças eram óbvias: de um lado estavam explorações texturais próximas dos domínios da EAI (acrónimo de “electro-acoustic improvisation”, uma tendência específica da música improvisada) e da noise music, fundamentada no uso e no abuso dos pedais de efeitos da guitarra e do baixo e nos processamentos do saxofone alto, e do outro surgiam os “riffs” rítmicos e as linhas melódicas do que eram, muito claramente, canções rock sem vocais – ou pelo menos com o sax no lugar da voz.

O que havia, no entanto, de rock era intencionalmente impreciso. Notavam-se influências do prog, mas também do hard rock, do metal e do punk, parecendo importar mais os conteúdos do que as formas. O factor jazz, esse, estava mais na atitude do que na adopção de uma linguagem parametrada, no seguimento daquilo que defendia Miles Davis: «Não toquem o que está lá, toquem o que não está. A atitude do músico é 80% do que se ouve». Assim, o baixo de Lucas calcorreou o chão existente entre os subgraves de Bill Laswell e as minuciosas construções de Hugh Hopper (Soft Machine), a guitarra de Clemente variou entre filigranas de acordes “bluesy” ou “folky” e um cuidado controlo da distorção, a bateria de Fonseca tricotou umas vezes e impôs rigorosíssimos “beats” e métricas em outras passagens, e o saxofone de Figueira foi-se instalando como um Zorn que tivesse descoberto em si um lado mais vulnerável e macio.

Tudo decorreu, pois, em permanente metamorfose, com transições quase imperceptíveis, como se estivéssemos diante de uma tela do mais desconcertante figurativismo abstracto, com as figuras a formarem-se de modo muito natural a partir de aparentemente caóticas manchas de cor. A reacção do público foi entusiástica, lembrando a excitação que os Slow is Possible causaram no mesmo espaço um par de anos antes.