José Bruno Parrinha + Pedro Sousa, 29 de Janeiro de 2020

José Bruno Parrinha + Pedro Sousa

A arte do solo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo e Bruno Ferrari

Não terá sido por acaso que neste mês de Janeiro o cartaz de concertos da SMUP incluiu dois solos de improvisadores e que ambos tenham sido de reconciliação dos seus protagonistas, José Bruno Parrinha e Pedro Sousa (foto acima), com os seus respectivos passados. O primeiro com a sua formação jazzística, o outro com os tempos em que utilizava electrónica e era guitarrista. Dois acontecimentos de excepção logo a abrir o ano.

São muito poucos os improvisadores que se atrevem a abraçar a arte única do solo. Tocar sem rede – ou seja, sem as deixas fornecidas por outros músicos, dado que não há cifras a respeitar – é sempre um risco, não sendo de ânimo leve que alguém escolhe o formato. Pois a SMUP alinhou na sua programação, nos passados dias 17 e 24 de Janeiro, duas sessões que tiveram o solo como mote, a primeira com José Bruno Parrinha (com o saxofone alto e não os seus habituais clarinetes) e a outra com Pedro Sousa (ligando um saxofone tenor dos anos 1940 a uma panóplia de pedais de efeitos e processadores). Ambas as noites resultaram em música da melhor que já se ouviu pelos lados da Parede.

Quando está inserido em grupos de variado número de intervenientes, Parrinha é conhecido por contribuir para as intrigas que se constroem com poucas notas, subtilmente as derivando com uma parcimónia e uma economia que ilustram bem o seu entendimento de que cada membro de uma formação é apenas a parte de um todo. A sós, utilizou mais materiais sonoros, porque só a ele cabia formar o todo, mas fê-lo igualmente com um foco e uma noção de sequencialidade, de fluxo, tão raros e preciosos quanto a sua habitual postura num colectivo de criação espontânea. E se alguma dúvida houvesse quanto ao facto de se tratar de um dos melhores praticantes portugueses disso a que se vai chamando de “música improvisada”, este ficou em plena evidência.

Ou seja, cumpriu, ainda que de outro modo, aquilo que dele esperávamos: uma suprema elegância, com nada a mais e nada a menos. Sobretudo, com nada ao lado. O seu solo trouxe, no entanto, um elemento de que não estávamos à espera. Como estava a tocar com o seu instrumento de aprendizagem, um saxofone, e esse “background” é o do jazz, o que lhe ouvimos esteve mais dentro deste género musical específico do que qualquer outra coisa que nos tenha oferecido em muitos anos de actividade. E tanto em termos formais quanto de conteúdo: nos seus fraseados em torno de várias perspectivas da tonalidade pressentiram-se vários momentos da história do alto no jazz, ainda que nunca como citação ou piscadela de olho. Simplesmente, faziam sentido na altura em que surgiam, eram estruturais, oportunos.

Muito curiosamente, e embora o tivesse feito de maneira radicalmente diferente, Sousa conciliou também o seu presente com o passado que teve. Em tempos guitarrista e manipulador de electrónica, caracterizando-se pela particular atenção que dava ao “sampling”, a ligação que operou entre o saxofone e os dispositivos que tinha diante de si, por via de dois microfones e de uma difusão aérea que contou com dois amplificadores de guitarra, duas colunas e um “subwoofer”, foi altamente surpreendente. Em pouquíssimas ocasiões – incluindo um solo noise de boa memória ali realizado pelo guitarrista Luís Lopes, que fez com que uma trave caísse do tecto movida apenas pelas frequências – sentimos o sótão da SMUP vibrar tão manifestamente.

Cada baque na boquilha do tenor vinha com uma virulência, uma gravidade e um corpo que nos faziam saltar das cadeiras. Uma determinada articulação de sons era seguida por um rasto de outros que o harmonizavam sinteticamente, mais parecendo que eram dois os músicos que estavam diante de nós. Mas no meio disto, Pedro Sousa teve a feliz decisão de, num par de passagens, desligar a parafernália que tinha ao dispor e tocar sem qualquer amplificação ou tratamento, mostrando-nos que o que estava a presentear-nos não era, afinal, muito distinto das tradições do free jazz, do pós-bop e do modalismo que vêm sendo as coordenadas do seu estilo pessoal. As bases estavam aí, apesar de os meios terem sido os da electroacústica experimental e de uma atitude assumidamente punk.

Se a dita atitude é, em muitas circunstâncias, confundida com displicência, o saxofonista da linha de Cascais deu-nos uma lição de controlo. Com os pés a saltarem alucinantemente de pedal em pedal, contrastando com a serenidade de expressão do seu rosto, Sousa pareceu sempre saber muito bem o que estava a fazer, sem se deixar ir no comando das operações e sem temer o acidente. O concerto durou pouco mais do que meia-hora, e só porque algo mais seria excessivo. Teve a medida certa e foi um acontecimento. Felizes os que lá estivemos para o viver.