Guimarães Jazz, 20 de Novembro de 2019

Guimarães Jazz

A regalia de receber uma carta

texto Gonçalo Falcão e Ritchie Program fotografia Júlia Fernandes – Guimarães Jazz / CCVF

Os convidados do festival têm sempre uma à sua chegada. Uma carta que nos devolve ao ambiente que anualmente é criado pelo jazz por toda a cidade de Guimarães. Respondemos com esta reportagem…

É só uma carta. Uma carta à antiga, bem tipografada, assinada à mão, num papel esmerado, envelopada sem dobras num sobrescrito bem timbrado. É uma carta de boas vindas que recebe com um cuidado comovente os convidados do Guimarães Jazz e lhes dá as indicações para usufruírem daqueles dias sem enguiços. O que estas cartas significam para mim! Sento-me para as ler e faço-o com emoção. Receber esta carta é saber que passou mais um ano e que estou vivo, com o privilégio de ter voltado a Guimarães, à cidade e ao festival que tem o seu nome. A carta é uma delicadeza, um “pormaior” de enorme importância. Nunca guardo o papel, só a esperança de a receber no ano seguinte.

Este ano, Manuel Jorge Veloso não recebeu a carta. Não posso usar a expressão “Manuel Jorge” porque não o conheci bem, não privei com ele, não era seu amigo próximo. Mas não deixo de sentir o bem-querer e a gratidão devida a quem fez tanto para que hoje o jazz não seja um fenómeno estranho em Portugal e toque em Guimarães e noutros sítios com naturalidade e ouvintes. Encontrava-o anualmente no festival, cumprimentava-o com a mesura de quem lhe é devedor. Mas este ano não o pude fazer e a mesa do canto esquerdo ao fundo da sala onde normalmente se sentava ao pequeno-almoço com António Curvelo e mais amigos estava ocupada por outra pessoa. Custou-me. Há coisas que parece que vão ser sempre assim, como deviam ser, mas acabam-se e eu não estava preparado para esse fim.

Um dia, mais tarde ou mais cedo, por várias razões todos nós deixaremos de receber a carta do Guimarães Jazz e tenho a certeza de que a maior parte de nós não se importará de não a receber se a carta continuar a ser endereçada a outros. Acredito que Manuel Jorge Veloso tenha ficado contente por saber que as cartas continuam a ser emitidas, que os músicos continuam a bem tocar no palco do Centro Cultural Vila Flor e que o comboio continua em movimento mesmo depois de ele se apear. Para nós é que custa. 

Um exagero

 

A edição deste ano era uma maldade para quem não gosta de faltar a concertos interessantes. Dez dias seguidos, incluindo aqueles em que as pessoas trabalham. Um festival perfeito para reformados e vimarenenses e cruel para os restantes, um exagero de 13 concertos em 10 dias que só fazem bem às sinapses. Vieram à cidade músicos de várias origens e diferentes gerações e estilos num festival diverso, incerto, que se assume como de divulgação. Música ao vivo, fruída pelo prazer da descoberta e da partilha e não para vender cerveja ou telemóveis.

Fomos ouvir parte da programação do grande auditório sem esquecer que ela é apenas a espinha dorsal do Guimarães Jazz, sustento de uma série de actividades orbitais igualmente importantes. Talvez seja apropriado ver este festival como um conjunto de planetas em que acontecem coisas diferentes e todas elas relevantes entre si e individualmente. O menu de actividades paralelas inclui as animações musicais urbanas, em que o jazz surge em contextos quotidianos menos previsíveis e se oferece à população, as “jam sessions” no Café Concerto do CCVF e no Convívio Associação Cultural e as oficinas de jazz, “workshops” conduzidos por músicos americanos em residência. Todo este movimento serve para cruzar diferentes linguagens e aproximações à música e ampliar a dimensão humana, formativa, de urbanidade e civismo que distingue este festival. Tudo isto facilitado pela cidade, que tem uma escala humana que permite uma circulação fácil e amigável. Chegámos já com a procissão longe do adro e com a sensação de que tínhamos perdido grandes concertos (os de Charles Lloyd, Antonio Sánchez, Trio Oliva / Boisseau / Rainey, Vijay Iyer com Craig Taborn, Miguel Moreira, ICP, Ikizukuri) e música muito diferente, mas sabíamos que ainda estávamos a tempo de nos encantarmos.

Começámos por ouvir Joe Lovano, um dos grandes saxofonistas da actualidade. “Grande” não no sentido de que tem uma técnica superior ou extrema e arrojada, mas porque tem uma ideia diferente para a música. As melodias do saxofonista americano são longas e têm a irregularidade da fala, de uma linguagem estranha. São frases com conjugações de sons que formam uma linha sísmica aparentemente sem nexo, mas que acaba sempre por se resolver numa ideia de beleza. Sentimo-nos como se estivéssemos a ouvir uma língua estrangeira, de que não percebemos o significado, embora compreendamos o sentido, e de que gostamos da sonoridade. Os temas e os solos são deixados incompletos, numa música que soa muito especial.

Lovano veio com o Trio Tapestry, juntando piano e bateria ao saxofone. É neste contexto que se ouve mais uma das qualidades do saxofonista, que é a inteligência: a música fica livre, dispersa, com uma pianista única – Marilyn Crispell – que acrescenta elementos brilhantes e que percebe perfeitamente a dimensão abstracta das melodias. A bateria de Carmen Castaldi esteve bem, sem qualquer nota particular a destacar. 

Máquina sonora

O dia seguinte trazia uma das mais recentes ideias do festival e uma das mais interessantes. Guimarães conta com uma (jovem) orquestra muito competente e o evento tem querido incorporar esta unidade na sua programação. Para o fazer vem pedindo a vários músicos (Marco Barroso, Nels Cline, Léa Freire) que transponham as suas composições para aquela máquina sonora. Esta orquestra não está habituada a tocar jazz (mas já se vai acostumando), pelo que a música destas noites não tem tido muita improvisação, mas isso é pouco importante, pois não há nenhuma regra que obrigue um festival de jazz a só tocar jazz.

Em 2019 o convite foi feito à cantora sueca Lina Nyberg, que trouxe o seu quinteto para assegurar o “groove” jazzístico e fez um excelente trabalho a arranjar os seus temas para a orquestra vimaranense. O motor de todo o concerto foi a obra “Terrestrial”, que – explicou a cantora – integra uma trilogia com uma dimensão épica e operática sobre a natureza, os humanos, o planeta e a galáxia. As canções de Nyberg não são particularmente excitantes, o seu modo de cantar não é particularmente original, as letras das músicas (em Inglês) não são particularmente poéticas e a banda sueca não era particularmente interessante. Assim, sem particularidades, entrámos num mundo musical agradável de ouvir, embalador, que nos recebeu como um sofá confortável. Músicas com arranjos delicados e bem tocados (pela orquestra e pelo quinteto) que proporcionaram uma noite muito agradável. O jazz é um conjunto de estilos em agitação, mais ou menos próximos das linguagens fundadoras ou de outras (rock, pop, etc.) e este projecto é um excelente exemplo do que se pode fazer para testar os limites destas linguagens.

Com prazer

O último fim-de-semana chegou com o calor da bateria de Rudy Royston a contrariar o frio fininho que se instalou no Norte de Portugal. Royston é um percussionista de grande qualidade, requintado, atento e inteligente a bater, que compôs uma série de canções sobre as memórias da sua meninez no ar livre texano. Apresentou-se no Guimarães Jazz em quinteto, com a mesma formação que gravou o seu último álbum. O grupo é uma prova da sua perspicácia musical: os temas que escreve são cantáveis e poderiam facilmente tornar-se vulgares em outro contexto instrumental, mas Royston fez uma banda liderada por três instrumentos inusitados que se casam surpreendentemente bem: acordeão, violoncelo e clarinete baixo. Por trás está a bateria, com o contrabaixo a manter o motor ligado. A combinação imprevista destas três sonoridades resultou em “Flatbed Buggy”, uma série de canções bonitas que se ouvem com surpresa e satisfação e que resultaram num bom concerto.

Conhecedores da diferença entre um intervalo e um fim fomos para o último dia do Guimarães Jazz 2019, que tinha dose dupla. À tarde, no Auditório 2, tocou o quinteto do saxofonista Geof Bradfield. O chicagoense - que conduziu os “workshops” deste ano para os aspirantes a “jazzmen” e “jazzgirls” da ESMAE – escreve um bop branqueado que dominou a tarde com músicas bem escritas, bem tocadas e um esquema previsível do ora-solas-tu-ora-solo eu. Não surpreendeu, mas ouviu-se com prazer. Vinha anunciado como pós-bop, mas na verdade raramente ouvimos a estrutura clássica do bop a ser posta em causa. A secção rítmica (Dana Hall e Clarke Sommers) impressionou frequentemente com muitos pormenores interessantes. É o que se pede para uma tarde de sábado, o equivalente a ver um bom filme debaixo de uma mantinha em dia de frio e chuva. Há uma tendência exagerada para a preferência de “grandes nomes” para os festivais, dado que o público tende a interessar-se mais por músicos da primeira divisão, mas a experiência de vários festivais (Gulbenkian, Portalegre, Guimarães) mostra que, com sapiência, pode-se programar músicos menos reconhecidos, mas igualmente agradáveis.

Longos contínuos

Como sempre o Guimarães Jazz encerrou com um grupo orquestral, neste caso o Large Ensemble do saxofonista e compositor canadiano Andrew Rathbun. Fomos ouvir as suas Atwood Suites, inspiradas na poesia da escritora canadiana Margaret Atwood. O pequeno grupo orquestral de 19 elementos veio parcialmente do Canadá, mas integrou também músicos portugueses e o baterista, o contrabaixista e o saxofonista do quinteto americano da tarde. Apesar de 19 músicos não serem suficientes para criar uma dimensão wagneriana, a verdade é que a grande presença de metais (14 sopros) gerou uma grande dimensão orquestral.

Os sopros criaram massas de longos contínuos e Rathbun usou muito bem as personalidades de cada um dos metais para explorar diferentes tons e modulações. Trombones, trompetes e saxofones foram criando diferentes harmonizações numa música que parecia ondular como bandeiras ao vento. A voz de Aubrey Johnson foi uma boa surpresa, com uma forma de cantar limpa, concisa, sem maneirismos ou emocionalidades exacerbadas, mas os textos de Atwood foram cantados lentamente e não os conseguimos fixar ou perceber o seu encanto. A bateria de Dana Hall e o contrabaixo de Clarke Sommers, membros do quinteto de Geof Bradfield, voltaram a impressionar pela imensa qualidade – mantiveram o grupo organizado e fizeram bons solos. Hall foi escalado à última da hora por um imprevisto ocorrido com Martijn Vink e tocou como se o ritmo e o corpo musical lhe fosse muito familiar. Grande baterista. Um concerto que fechou com muita beleza os 13 deste ano. Ter estado em Guimarães foi, como ficou escrito mais acima, um privilégio.