Jazz ao Centro, 30 de Outubro de 2019

Jazz ao Centro

De um lado para o outro

texto Rui Eduardo Paes fotografia João Duarte

O mais pedonal dos festivais portugueses aconteceu este mês na Cidade Universitária com 16 concertos em 10 espaços, alguns deles improváveis. Os cabeças-de-cartaz, Steve Coleman e Fred Frith, dividiram as opiniões, mas entre as restantes presenças ouviu-se excelente música. A começar pelas participantes femininas e passando pelo que juntos fizeram portugueses e holandeses. Reportagem já a seguir…

Foram 16 os concertos em 10 locais de Coimbra, com um cartaz que cobriu a diversidade de abordagens ao jazz que caracteriza a actualidade deste género musical nos nossos dias (com dois deles a saírem mesmo dos seus parâmetros, sem o renegarem) e que se colocou na linha da frente dos festivais portugueses com maior representação feminina e queer, este ano na boa companhia do Jazz em Agosto da Gulbenkian. O Jazz ao Centro, também conhecido como Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, aconteceu em 2019, na sua 17ª edição, em dois fins-de-semana contíguos, o de 18 a 20 de Outubro e o de 25 a 27, com dias em que chegavam a ser quatro ou cinco as propostas programadas.

O arranque e o fecho do festival tiveram intencional peso simbólico. No primeiro dia actuou no palco (com os ouvintes sentados junto dos músicos) do grande auditório do Convento de S. Francisco o Iberian Roots Trio de Alberto Conde com Carlos Barretto e Alexandre Frazão. A sentida homenagem a Bernardo Sassetti, com intervenção dos seus antigos parceiros de grupo, serviu para apresentar o álbum “The Wake of An Artist”, este ano editado pela Clean Feed. Foi no Jazz ao Centro que em 2005 o pianista e compositor galego conheceu Sassetti: passados 14 anos, Conde fez questão de mostrar ao público conimbricense a admiração que tem pela música do seu malogrado par português, interpretando peças deste e outras de sua lavra nele inspiradas. Por isso mesmo, o momento acabou por ter um carácter acentuadamente melancólico, contrastando com o concerto do trio no Hot Clube, em Lisboa, de há uns meses. Só o tema “Monksetti”, em que Alberto Conde cruzou os legados de Thelonious Monk e Bernardo Sassetti (Monk era uma das referências deste), teve um registo agitado – o resto da prestação seguiu por ambientes mais calmos, culminando na final e muito sentida interpretação de “Alice”, tema escrito para o filme com o mesmo nome. 

Regresso atrasado

Alberto Conde Iberian Roots Trio 

R. Amado, J. McPhee, K. Kessler e C. Corsano

Na última sessão do Jazz ao Centro o quarteto americano de Rodrigo Amado com o “histórico” Joe McPhee e com Kent Kessler e Chris Corsano assinalou, numa das salas do Centro de Artes Visuais, as presenças dos dois primeiros na inauguração do festival em 2003, um na companhia de Carlos “Zíngaro” e Ken Filiano e o outro com o Trio X, partilhado com o já desaparecido contrabaixista Dominic Duval e com Jay Rosen. O regresso à Cidade Universitária de Amado e McPhee resultou na mais fulgurante prestação dos Encontros, num fim de tarde cuja carga enérgica desmentiu o cansaço dos quatro músicos: o avião que os transportara de Alemanha, onde tinham tocado na noite anterior, chegara atrasado ao Porto e ainda tiveram de se deslocar de automóvel até Coimbra. Ninguém arredou pé durante a espera.

À beira de fazer 80 anos, e fisicamente já algo fragilizado, nem por isso Joe McPhee se poupou: escolhendo o saxofone tenor em vez do ultimamente habitual soprano e do trompete de bolso, este residente na mítica Woodstock não só cruzou inventividade e entrega com o muito mais jovem Rodrigo Amado como o desafiou a ir mais além do que já lhe conhecíamos. Os dois saxes estiveram em despique aceso, num free jazz de óbvia sustentação hard bop que umas vezes tirou o fôlego à plateia e outras ganhou contornos de pura poesia. Foi um concerto magistral.

Dúvidas, dúvidas

Steve Coleman & Five Elements

Fred Frith

Se em ambos estes casos o público ficou rendido, de modos diferentes, ao que ouviu, já as contribuições dos dois cabeças-de-cartaz do Jazz ao Centro, Steve Coleman e Fred Frith, dividiram as opiniões. O compositor e saxofonista que foi o principal mentor da tendência M-Base apresentou num Convento de S. Francisco com muitos lugares vazios uma música toda ela feita de parâmetros matemáticos que consistia na repetição de motivos e no acrescento de pequenos elementos em cada compasso, fazendo-nos temer que um erro de contagem fizesse com que as graduais construções desabassem. Nunca isso aconteceu, como seria de esperar estando em cena músicos do calibre do próprio Coleman e de Jonathan Finlayson, Anthony Tidd e Sean Rickman, aos quais se acrescentou o “rapper” Kokayi, que já tínhamos ouvido este ano na Gulbenkian com Ambrose Akinmusire. Ainda assim, a insistência operativa neste modelo fez com que a performance, demasiado longa para tal opção, se tornasse aborrecida para muitos dos assistentes.

Houve também quem adorasse e quem ficasse decepcionado com a noite aberta pelo Fred Frith Trio no Teatro Académico Gil Vicente, e isso porque o guitarrista britânico radicado na Califórnia e os seus parceiros, Jason Hoopes e Jordan Glenn, nunca se predispuseram a desenvolver os muitos módulos que se foram desencadeando, saltando de umas situações para outras sem resolverem as que vinham antes. Tudo esteve em mutação permanente, alternando passagens mais abstractas e outras em que predominava um “riffing” vizinho do rock, numa desfilada em “short attention span”. Apesar desta estratégia, o que todos fizeram foi assombroso, com Frith a saltar do uso de objectos nas cordas para formulações de acordes mais convencionais e a dar largos espaços aos seus companheiros – o que permitiu descobrir as imensas virtudes como baixista de Hoopes. 

O princípio feminino

 Lantana

Ka Baird

Maria Villanueva

O público ficou unanimemente agradado com os três concertos femininos do programa, quando as características dos mesmos – os das Lantana, de Ka Baird e da dupla de Maria Villanueva e Vânia Couto – os tornavam arriscados no contexto de um evento dito “de jazz”. No Coola Boola Colab, um espaço comercial da Baixa de Coimbra, Maria do Mar, Helena Espvall, Maria Radich, Anna Piosik e Carla Santana (faltou Joana Guerra para que se completasse o sexteto original) encantaram quem as ouviu numa improvisação total que aliou o paisagismo camerístico de um violino e um violoncelo, ambos tratados com uma reverberação celeste e sonhadora, com as interferências da electrónica, de uma voz que discorria por linguajares inventados. na mimetização de uma conversa, e de um trompete cheio de grão e terra. Se tais contrastes pareceram, ao início, algo desconcertantes, o certo é que a sua engenhosa combinação conduziu a música para desenlaces que titilaram os ouvidos, em mais uma hora de excelente música do festival.

Ka Baird tocou a solo no jardim da Casa das Artes Bissaya Barreto, entre duas palmeiras, com uma panóplia de recursos – voz (com dois microfones ligados a efeitos distintos), um banjo africano híper-amplificado e vários dispositivos electrónicos, para além do seu primeiro instrumento, a flauta – e uma fisicalidade de execução que depressa conquistou a audiência, a começar pelas crianças presentes, que dançavam e corriam de um lado para o outro. Nos bastidores, a nova-iorquina dizia que pensava a música “a cores” e foi o que tivemos: um caleidoscópio de idiomas e timbres que conciliava o experimental com o “beat”. E se neste caso ainda estávamos mais longe do jazz patrimonial do que com as Lantana, o que Baird fez com a flauta incluía-o, decididamente, no seu ADN.

As cantoras e guitarristas Maria Villanueva e Vânia Couto tocaram em outro jardim, o do Colégio da Graça, com o apoio instrumental de Lucas de Centi, Yoshida Carvalho e Sandra Peréz, responsáveis pela envolvência para-jazzística de um projecto que radica na música tradicional da Galiza e de Portugal e que ganhou forma numa residência artística na aldeia do xisto da Barroca, no âmbito do X-Jazz, com edição em disco (“Siu Kiu” se intitulará) marcada para breve. A galega e a portuguesa realizaram uma recolha de canções populares femininas – e, em alguns casos, inesperadamente feministas, considerando a sua antiguidade – nos dois lados do Rio Minho e delas fizeram a sua interpretação. Uma delas versava o amor de uma mulher por outra mulher. Foi muito especial. 

Associação de Amizade Luso-Holandesa

 Luso-Dutch Large Ensemble

Marta Warelis e Carlos "Zíngaro"

Hugo Antunes e Michael Moore

Jasper Stadhouders

Twenty One 4tet

Outro grande trunfo do Jazz ao Centro foi a parceria estabelecida entre o festival e o DOEK, colectivo de músicos holandeses, ou a viverem na Holanda, que se fez representar por alguns dos seus mais renomados membros. O “tutti” destes esteve integrado no Luso-Dutch Large Ensemble, com Jasper Stadhouders, Wilbert De Joode, Onno Govaert, Marta Warelis, Michael Moore e John Dikeman a contracenarem no Salão Brazil com Carlos “Zíngaro”, Marcelo dos Reis, Hugo Antunes, Helena Espvall e Luís Vicente. Foram dois os “sets” tocados por esta formação de 11 elementos. No primeiro dedicaram-se a uma improvisação que esteve claramente à procura de uma organização interna de alcance composicional, sem o conseguir, e no outro, bem mais feliz nas contas finais, houve cinco partituras em desconstrução improvisativa, com passagens verdadeiramente entusiasmantes. De modo natural, porque são instrumentistas muito afirmativos, em destaque estiveram Dikeman, Stadhouders e Vicente. “Zíngaro” e Moore contrapuseram-lhes sempre materiais mais subtis.

Outros concertos reproduziram esta colaboração luso-holandesa. Carlos “Zíngaro”, Marta Warelis, Helena Espvall e Marcelo dos Reis foram ao Museu Nacional Machado de Castro para uma matinée com um foco de música de câmara, em versão século XXI, exploratória, intimista e um tanto onírica. Só não foi possível fruir em pleno as pérolas que nos foram lançando porque uma parte do público, que ali estava ao engano, não soube comportar-se, com umas quantas senhoras da sociedade conimbricense a falarem como se estivessem em casa, a brincarem entre si com os telemóveis e a fazerem barulho ao levantarem-se. O que motivou dos Reis a um «obrigado aos que vieram e já estão a ir-se embora», irónica alusão ao facto de terem decidido sair.

Michael Moore e Hugo Antunes apresentaram-se numa repleta (de jovens, importa frisar) sala da Casa das Artes Bissaya Barreto (chovia lá fora) para outro inesquecível desempenho. Tonal nos contornos e bastante melódico, com uma elegância a toda a prova, o duo parecia estar a reinventar canções pop e folk, todas elas com poucos minutos de duração. Parecia apenas: tudo o que ocorreu saiu espontaneamente, em improvisos tão definitivos nas suas linhas que se diria tratar-se de composições. Ninguém diria que foi a primeira vez que o contrabaixista português tocou neste formato com o saxofonista e clarinetista americano sediado em Amesterdão. Noutro local, um corredor das instalações da Rádio Universidade de Coimbra na sede da Associação Académica, estivera pouco antes Jasper Stadhouders a sós com a sua guitarra electroacústica e o seu bandolim. Beliscões e dedilhares tão cubistas quanto meticulosos articularam-se com moldagens de “feedback”, em jogos de controlo e subversão da linearidade discursiva que muito surpreenderam os presentes. No fim, interpretou um tema de Eric Dolphy, como que a mostrar de onde é que tudo o que antes se escutara tinha vindo.

John Dikeman, Luís Vicente, Wilbert De Joode e Onno Govaert, ou seja, o Twenty One 4tet (a banda que estava dentro do Luso-Dutch Large Ensemble), apresentaram a sua “fire music”, isto é, o free de depois do free jazz dos anos 1960 e 70, no Salão Brazil. Assistimos a uma actuação abrasiva que esteve constantemente no vermelho, com o saxofone e o trompete a expulsarem os pulmões de Dikeman e Vicente, um Govaert a fornecer os esqueletos com um intrigante sentido de medida e De Joode a revelar os motivos por que é considerado um dos melhores contrabaixistas da Europa, senão do mundo, os seus dedos de uma grossura invulgar quase a partirem as quatro cordas do mais grave instrumento da família do violino. Só para terem uma ideia: o abraço que antes dera a “Zíngaro”, com quem teve há anos um trio em que também participou Dominique Regeff, deixou o português com as costelas doridas. 

Antes e depois da “old new thing”

 Gabriel Ferrandini Volúpias

Susana Santos Silva - Fish Wool

Na programação restante, sensação causou a estreia em Coimbra, e no Salão Brazil, do projecto Volúpias de Gabriel Ferrandini, com Pedro Sousa e Hernâni Faustino como coadjuvantes. Se os Twenty One partem da “old new thing” com o propósito de descobrir o que vem a seguir, os três Volúpias investigam o que esteve antes. Partindo das fórmulas da música improvisada, devolveram esta à ascendência no free jazz e incorporaram nessa busca dos fundamentos alguns factores dos estilos jazzísticos anteriores. Foi um regresso à forma e ao tema, em “zooms” de execução que mereceram bem o aplauso final.

Outra coisa fez o trio de Yedo Gibson, Susana Santos Silva e Vasco Trilla, que na ocasião celebraram o lançamento do novo CD da editora dirigida pela organização do festival, a JACC Records. “Fish Wool”, título do disco e agora igualmente nome do trio, eleva o timbre, e mesmo o som, como princípio e fim das suas lógicas criativas. Indo do mais pequeno (os diminutos motores colocados dentro das taças tibetanas de Trilla) ao desmesurado (Gibson soprando para dois saxofones em simultâneo), com Santos Silva a juntar as duas partes, estivemos umas vezes na zona que está antes do “fazer musical”, num primordialismo recuperado e colocado a nu, e em outras naquele plano em que a música se converte em mais uma das artes plásticas ou das artes performativas. Como se verificou, há música que também pinta e é teatro.

Poesia jazz

DeclAMAR Poesia

Não foram apenas estas implícitas pontes que o programa de José Miguel Pereira lançou para outras disciplinas artísticas. Outra foi explícita, e com a poesia como meio. Na Casa da Mutualidade, o colectivo DeclAMAR Poesia, ou seja, Vanda Ecm, Olga Coval, Catarina Matos, Lurdes Telmo e Rui Amado, protagonizou uma sessão em que os versos falavam do jazz e dos seus músicos ou colocavam nas palavras o seu ritmo. Acompanhou-os uma jovem (17 anos apenas) promessa do jazz de Coimbra: Filipe Fidalgo, um discípulo de João Mortágua. Ficou por ouvir, neste calcorrear pelas ruas da cidade, o que no Centro Norton de Matos, berço do Jazz ao Centro, propôs a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Daniel Dias e Paulo Perfeito, com o baterista Mário Costa como convidado especial, mas as pernas deste repórter já não são o que eram. Desculpado?