Seixal Jazz, 29 de Outubro de 2019

Seixal Jazz

Vinte anos e algumas dúvidas

texto Gonçalo Falcão fotografia Seixal Jazz / Câmara Municipal do Seixal

Marca 20 foi o nome criado para a edição de 2019 do festival que, este mês, celebrou 20 outonos. Hoje sem o brilho de outros tempos, continua, no entanto, a motivar uma visita à baía seixalense – aliás, dificilmente se poderia resistir a um concerto a solo de Ralph Towner (foto acima). O enviado da jazz.pt foi até lá e regressou com dúvidas sobre o que serão os próximos 20 anos…

Depois do período de ouro em que a Câmara Municipal de Lisboa apostou no jazz (1988 – 1992), a maior parte dos músicos internacionais que podíamos ouvir ao vivo na região passavam por Cascais, pelo Estoril e pelo Hot Clube. Foi em 1996 que a autarquia do Seixal resolveu alterar esta situação e foi nesse ano que pela primeira vez fui até lá ouvir os Gateway de John Abercrombie, Dave Holland e Jack DeJohnette. Fiquei em pé, ao fundo, numa sala cheíssima para ouvir um concertaço.

O mesmo edifício que me recebeu há 23 anos continua de pé, confortável e a contribuir para a vida cultural a Sul do Tejo, que só é um deserto para quem é alérgico à cultura (teatro de Almada, Out.Fest do Berreiro, etc.. etc.. etc). Nos primeiros anos, as viagens até ao Seixal proporcionavam assistir a actuações de músicos como Steve Coleman, John Scofield, Michael Brecker, Jason Moran, Sam Rivers, Andrew Hill, Dave Douglas, Paul Motian, Joe Lovano, Jim Hall, Cindy Blackman, John Patitucci, Myra Melford, Chick Corea, John Mclaughlin, Larry Coryell e muitos outros. O jazz português (quase) nunca foi esquecido e teve (quase) sempre um apoiante no palco seixalense: Maria João, Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Carlos Bica, Carlos Barretto, Pedro Madaleno, Mário Delgado, Nuno Ferreira, Nelson Cascais, José Salgueiro, Filipe Melo, Carlos Martins, Laurent Filipe e tantos outros tocaram no Auditório do Fórum Cultural do Seixal, tradição que, felizmente, se mantém e nos dias nobres.

Passados 23 anos com 20 tiragens depois da inicial, o cartaz é uma evidência não só da magreza financeira hoje existente, mas, principalmente, de alguma incapacidade em “jogar” na terceira liga, onde muita coisa interessante também acontece. O jazz não se faz só de grandes nomes e alguns festivais nacionais têm sabido propor música abastada com magros orçamentos. Em 2019, no Seixal, ficámos com a sensação de que, em vez de celebrar o presente, estávamos a festejar 1996: o “vintage” está na moda e a música desta edição foi demasiadas vezes conservadora, retrospectiva e até mimética.

Anéis de outros tempos

 

Dos anéis de outros tempos só o solo de Ralph Towner se mostrava como imperdível. Historicamente, os concertos do festival dividem-se por dois palcos: o do Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal e o do Seixal Jazz Clube, que funciona no espaço de uma fábrica corticeira já extinta, com “after-hours” bem interessantes que, de alguma maneira, compensam o fim dos concertos em dois “sets” que eram a marca distintiva deste evento. Infelizmente, não pude assistir a estes, incluindo os dos dois músicos que foram contemplados pela Cena Jovem Jazz.pt, João Fragoso e Miguel Rodrigues.

A inauguração coube, no dia 17, ao trio de Kenny Barron, que tocou pela primeira vez em Portugal em 1997 e já nos visitou diversas vezes. Como em todas as inaugurações do Seixal Jazz, a casa estava cheia, não faltando os mais altos quadros do município, o que é sempre de elogiar. Barron fez o que era expectável: tocou temas conhecidos e alguns seus, desmontando como só ele sabe fazer toda a estrutura harmónica e melódica em mil variações poliédricas. Foi doçura em doses de entupir as veias.  

O pianista norte-americano veio em trio com o contrabaixista japonês Kiyoshi Kitagawa, seu companheiro de longa data, e a estreante baterista Savannah Harris. Ambos competentes, ambos bons, ambos dedicados à função de fazer brilhar o piano. Esteve-se bem, confortavelmente sentados numa música que não quer revolucionar o mundo ou fazer avançar o jazz, mas que faz o que faz com muita competência e saber.

Um dia português

 

O segundo dia era português e esteve entregue ao César Cardoso Quarteto. «Música fresca, melódica e fácil» era o que propunha o saxofonista leiriense que se tem destacado na cena jazzística nacional por ter uma grande fluidez melódica e por tocar com proficiência técnica. Cardoso veio ao Seixal em quarteto com Bruno Santos na guitarra, Demian Cabaud no contrabaixo e André Sousa Machado na bateria, o grupo que gravou o seu último CD, editado este ano. Um grupo muito consistente e bem apetrechado. O que se pode dizer deste concerto é que é um prazer ouvir músicos portugueses a tocar ao mesmo nível do que ouvimos na noite anterior. Contudo, pareceu estarmos sempre a ouvir a mesma música: melodias de simples compreensão, sem elementos distintivos ou de originalidade que as separassem de uma miríade de músicas igualmente bonitas e tocadas com igual correcção. Em 2019, isto, que é muito, já não é suficiente. 

Com um “twist”

 

No sábado, o auditório encheu-se para ouvir o quarteto do guitarrista Peter Bernstein (que estudou com Kenny Barron). Quando vamos ouvir Bernstein sabemos exactamente o que nos espera: elegância, simplicidade, lógica. O nova-iorquino teve a sabedoria de escolher um grupo em que cada músico toca dentro daquilo que é de prever, mas com um “twist”. A bateria de Leon Parker é, por exemplo, minimalista, sem prato de choques, apenas com um “ride”. O baterista nem sempre esteve bem e não resistiu a alguns exageros (poucos e suaves). O pianista Sullivan Fortner foi a melhor surpresa da noite, com uma forma de tocar elementaríssima, que pontuava a música com os elementos certos, na altura certa e com a intensidade certa. Foram excelentes os seus solos, com a surpreendente qualidade de um Sun Ra dentro de um Fats Waller lento.

O mais esperado 

O Seixal Jazz são duas semanas. Por isso, quatro dias depois, reapareceu com o concerto mais esperado da edição deste ano: o de Ralph Towner a sós. O guitarrista já veio a Portugal várias vezes, a primeira das quais em 1982, mas ouvi-lo a solo, numa guitarra acústica de seis cordas, é raríssimo. Assim foi no Seixal e eu ouvi coisas impossíveis. Acordes impossíveis, mudanças de acordes impossíveis, mudanças de acordes rapidíssimas e sem qualquer tipo de ruído nas cordas, mistérios insondáveis, coisas inexecutáveis. Com quase 80 anos, o guitarrista continua a tocar extraordinariamente e eu vi as suas mãos fazerem coisas dificílimas com a naturalidade de quem bebe água. Ouvi melodias belíssimas cheias de acontecimentos dentro. Música barroca, no sentido de que era híper-decorada, mas com elementos lógicos e sensíveis que só contribuíam para a sua beleza. Foi um concerto esdrúxulo, dos mais importantes que ficaram para a história do festival. 

Mercador polaco

 

O dia seguinte propunha um músico pouco conhecido que vinha da Polónia com o seu grupo. O contrabaixista Wojtek Mazolewski veio fardado à mercador do século XVIII e mostrou desde cedo ao que vinha: apresentar um pop-jazz do ponto de vista do Leste. O surpreendente trompetista Oskar Török tocou melodias cativantes e refrões muito repetidos, perto do hard-bop, mas raramente foi imprevisto. A música era de consumo ligeiro, com guarda-roupa, poses e muito estilo, soando exageradamente ensaiada e fabricada para o público smooth FM. Um jazz com conceito que se ouviu bem durante algum tempo, mas não sei se justificou o pedido esfuziante de um “encore”.

Com muita pena perdemos o penúltimo concerto, que criava muita expectativa. Ricardo Toscano apresentava um novo trio, mantendo a fórmula simples, porque tem sido a naturalidade com que toca o seu maior encanto. Na bateria esteve Ali Jackson e no contrabaixo Géraud Portal. Gostávamos de o ter ouvido, mas na vida é o que acontece por mais que a planeemos. 

Casa cheia

 

O último concerto do Seixal Jazz de 2019 chegou com mais uma casa cheia, para ouvir a Monkestra de John Beasley. O septeto foi formado para - como o próprio nome indica – celebrar a música de Thelonious Monk. O pianista tem usado este pretexto recorrentemente na construção da sua carreira. A cópia sempre foi um modo de aprendizagem – desde o ensino primário que o sabemos – e não só na Europa, mas também no Oriente, onde se considera que a perfeição pode vir através desse exercício. É através da cópia que se abrem portas para a criação de caminhos individuais. Que me lembre, Beasley já passou a pente fino as músicas de Herbie Hancock e Clark Terry; foi agora a vez de Monk e Charlie Parker está na calha.

A Monkestra celebrou Monk com um “swing” global que incorporou ritmos brasileiros e afro-cubanos, amaciando as melodias angulosas do pianista original. A música fica mais redonda, mais vaga, mais sociável. O grupo é originalmente uma “big band”, mas para Portugal só viajou uma redução europeizada para septeto, com uma excelente secção de sopros que se destacou marcando positivamente a noite. Deste quarteto de sopros é necessário destacar o sueco Magnus Lindgren – que fez um solo de clarinete excepcional - e o holandês Joris Roelofs, tocando clarinete baixo com a mesma facilidade com que Gerry Mulligan tocava sax barítono. O trombonista mexicano Francisco Torres e o trompete de James Ford também estiveram bem, mas não deixaram memórias especiais. A secção rítmica foi isso mesmo, e só: trivial, perto das linguagens virtuosas do pop-jazz que são popularizadas pela GRP.

O negócio das celebrações está florescente. Por isso o concerto começou com “Donna Lee”, ou não fosse 2020 o ano que lembrará o centenário do nascimento de Charlie Parker. Ouvimos alguns temas de Monk (a Monkestra nasceu em 2016 e no ano seguinte comemoraram-se os 100 anos do nascimento do genial pianista) e alguns de Beasley, passando-se uma boa noite com música bem tocada e bem orquestrada, que evocou o passado sem apontar futuros. 

Um futuro retroactivo?

O Seixal Jazz continua a ser um evento a ter em conta, mas parece estar num momento de transição. Aquele que já foi um festival aberto para o que aí vem, parece hoje mais celebrativo. Nos últimos anos ofereceu alguns concertos surpreendentes, contemporâneos, que pareciam indicar a vontade de se manter na corrente de ideias do nosso tempo, mas a edição de 2019 indicou uma vontade retroactiva, mais popular e conservatorial. Passada a fasquia das duas décadas, vamos ver o que é que os próximos anos nos reservarão.