Anna Homler / Adriana Sá, 11 de Outubro de 2019

Anna Homler / Adriana Sá

Pura magia

texto Rui Eduardo Paes fotografia Mário Mar

Em mais uma sessão da série Hysteria, a cantora norte-americana Anna Homler e a improvisadora electroacústica portuguesa Adriana Sá foram no passado dia 8 de Outubro ao Penha sco, em Lisboa, mostrar os resultados da sua colaboração. O resultado foi aquele que terá sido o melhor concerto do ano.

Num concerto cujos protagonistas estabelecem uma nova colaboração, o contexto está habitualmente na própria música que é criada “in loco”. No caso do encontro entre a norte-americana Anna Homler e a portuguesa Adriana Sá que teve apresentações públicas no passado dia 6 de Outubro na Sonoscopia, Porto, e a 8 no Penha sco, Lisboa, isso só em parte foi verdade. Tratava-se da concretização de mais um episódio de um projecto com maior abrangência, aquele que Francisca Marques vem promovendo com a designação “Hysteria” e que visa o «contacto directo» de artistas nacionais femininas com outras de países terceiros, convidadas «a explorar em conjunto processos técnicos, criativos e críticos». Antes deste “O Quente da Electrónica”, às “nossas” Ana Deus (ex-Três Tristes Tigres, Osso Vaidoso), Marlene Ribeiro (GNOD, Negra Branca) e Marta Ângela (Von Calhau!) tinham-se juntado, respectivamente, Heloise Tunstall-Behrens (Landshapes, em “O Aparelho Fonador”, Março), Valentina Magaletti (Tomaga, em “A Técnica como Linguagem”, Maio) e Natalie Sharp (Lone Taxidermist, em “A Performance como Prática”, Julho).

A jazz.pt foi assistir à sessão do Penha sco, produzida pela Nariz Entupido em parceria com o espaço anfitrião da Penha de França que, desde Novembro de 2018, tem apresentado uma incontornável programação nos domínios da música improvisada e do experimentalismo. E porque Anna Homler é uma das mais importantes personalidades da música criativa da actualidade, combinando o canto primordial com a inovação, a melodia com uma abordagem exploratória e um forte sentido poético com uma exploração fonética que ganhou os contornos de toda uma nova linguagem, o facto de nunca ter estado em Portugal – por estranho que pareça, num percurso que teve início na década de 1980 e que a juntou a nomes de primeiro plano como David Moss, Steve Beresford, Peter Kowald, Geert Waegeman e Sylvia Hallett, entre muitos outros – levou a que muitos admiradores dos seus discos comparecessem à chamada. O entusiasmo era evidente.

Assim como era evidente a curiosidade do público sobre o que Adriana Sá faria com uma cantora. A co-fundadora do trio Timespine com Tó Trips e John Klima e mentora de um grande número de projectos electroacústicos e intermedia sempre se recusara a trabalhar com vozes. O resultado ter-lhe-á modificado essa perspectiva, tão feliz foi o casamento do seu zither, ligado a dispositivos electrónicos, com os vocalismos únicos de Homler e o que esta fez com a panóplia de objectos sonicamente manipuláveis que tinha diante de si. Num meticuloso trabalho de escuta mútua e de interacção, o que aconteceu foi pura magia auditiva.

O zither de Sá soava umas vezes a guitarra de caixa e outras a harpa, para mais adiante sugerir um saltério medieval ou até um instrumento de percussão, com ataques mais específicos nas cordas ora a dispararem samples, ora a serem processados em tempo real. O não-linearismo das construções fez por vezes lembrar a música de Morton Feldman, que em vez de seguir um fio de prumo desenvolvimentista solta-se em diversas direcções. Foi em alto contraste com este uso da tecnologia que soaram os brinquedos de criança utilizados por Homler, primeiro desconcertando os ouvintes e logo depois dando uma medida humana aos estranhos ribombares digitais que iam ocorrendo sem se perceber a sua origem física. Quando Anna Homler introduzia as suas características linhas melódicas vocais toda a “bricolage” sonora a que assistíamos transformava-se numa canção. O geral paisagismo abstracto dava lugar a uma folk imaginária que julgávamos provir dos primeiros seres humanos que habitaram o planeta. Tudo isto em jeito de improvisação, sem estruturas previamente definidas.

A actuação ficou dividida em dois “sets”, com um generoso intervalo pelo meio, ambos breves. As duas intervenientes e quem as ouvia sentiram que, em cada um daqueles momentos, acrescentar algo mais estragaria a beleza que se tinha criado. Não sei se o concerto foi gravado, mas se não foi ficou indocumentada aquela que terá sido a mais impactante performance musical do ano na cidade de Lisboa…