Angrajazz, 8 de Outubro de 2019

Angrajazz

Contas feitas

texto Nuno Catarino fotografia Rui Caria

A 21ª edição do festival da Ilha Terceira conduziu o público por várias expressões actuais do jazz, desde o muito performativo Quintet Sfumato de Émile Parisien à salsa reimaginada por Miguel Zénon (foto acima), com as presenças portuguesas no cartaz – a dos Axes de João Mortágua, de Mário Costa no grupo de Parisien e da Orquestra Angrajazz com Carlos Azevedo como convidado – a fazerem-se valer. Saldo mais do que positivo.

Na noite anterior ao início do festival, o Furacão Lorenzo tinha levado a destruição às ilhas do grupo oriental dos Açores (Flores e Corvo), mas não chegou à Terceira e o Angrajazz não foi directamente afectado. Ainda bem, porque assim a edição de 2019 do festival de Angra do Heroísmo arrancou, como é habitual, com a actuação da “big band” criada pela própria organização, a Orquestra Angrajazz. Liderada por Pedro Moreira e Claus Nymark, este é um empreendimento que já criou raízes. O disco editado no ano passado, com temas originais encomendados a compositores portugueses, é um bom retrato do seu trabalho.

Eficácia colectiva

No palco do Centro Cultural e de Congressos a orquestra começou por interpretar uma peça de Carlos Bica (“Azul é o Mar”), seguindo-se o clássico “I’m Old Fashioned” (que incluiu um solo de Nymark no trombone). Ao terceiro tema surgiu em palco o músico convidado: Carlos Azevedo, pianista e director da Orquestra Jazz de Matosinhos. Com a presença de Azevedo em palco, a Orquestra Angrajazz interpretou uma série de composições originais suas. Pelo meio ouviu-se o “Olhar” de Bernardo Sassetti, já com Azevedo a assumir a direcção, passando Pedro Moreira para o saxofone. A orquestra mostrou a habitual eficácia e, mais do que destacar momentos a solo, importa realçar a boa dinâmica colectiva, o entrosamento e a precisão do “tutti”.

Para a despedida ficou guardado “FPWL” (acrónimo da mensagem “From Porto With Love”), tema que Azevedo que escreveu de propósito para o disco da Orquestra Angrajazz. Não sendo uma formação exuberante, pelas condições limitadas (os ensaios são condicionados às visitas pontuais dos maestros, que vivem em Lisboa), é notável o resultado que o grupo consegue alcançar. Assumindo-se na tradição das “big bands” jazzísticas, o trabalho de Pedro Moreira e Claus Nymark continua a dar frutos. 

Sem Michel Portal

 

De França veio o primeiro dos projectos internacionais do festival, o Quintet Sfumato de Émile Parisien. Apesar de ter sido anunciada a participação de Michel Portal como músico convidado, o veterano acabou por não conseguir comparecer em Angra do Heroísmo por motivos de saúde. Assim, em palco surgiram Parisien (saxofone soprano), Roberto Negro (piano), Manu Codija (guitarra eléctrica), Simon Tailleu (contrabaixo) e Mário Costa (bateria). Era grande a expectativa para se conhecer ao vivo o Quintet Sfumato e o grupo não desiludiu. O concerto arrancou com “Préambule”, a música que abre o primeiro disco do grupo (“Sfumato”, edição Act de 2016): primeiro a guitarra suave de Codjia, acompanhada pela percussão delicada de Costa e o sax de Parisien. A música foi crescendo, com o grupo e exibir uma excelente dinâmica.

O saxofonista mostrou os seus predicados técnicos, numa interpretação vibrante. Além de musicalmente rica, a actuação foi complementada com a sua forma muito pessoal de estar em palco, numa performance que acrescentou fisicalidade à interpretação, pela forma como mexia o corpo, com o movimento das pernas e a expressão facial a acentuarem o que tocava. Mas não houve só Parisien: ao seu lado estavam músicos de excelência, sendo justo destacar a presença do baterista português Mário Costa (autor do excelente disco “Oxy Patina”), fundamental para imprimir o balanço rítmico. Refira-se ainda a importância do piano de Roberto Negro (o principal dinamizador, numa abordagem torrencial) e a guitarra de Codjia, com um som aveludado que se entrelaçava. Foi o primeiro grande momento do festival açoriano.

Fora da caixa

 

O segundo dia arrancou com um projecto português, o sexteto Axes liderado pelo saxofonista João Mortágua. Distinguido como Músico do Ano nos Prémios RTP / Festa do Jazz 2017, Mortágua é um dos mais activos e requisitados músicos nacionais e vem explorando diferentes configurações, tendo estreado recentemente um solo de saxofone e electrónica a que deu o nome de HOLI. Aos Açores levou o seu grupo mais “fora da caixa”, combinando quatro saxofones e duas baterias, sem contrabaixo nem piano. Em cena, juntaram-se a Mortágua (saxofones soprano e alto) o saxofone alto de José Soares, o tenor de Hugo Ciríaco, o barítono de Rui Teixeira e as baterias de Alex Rodriguez-Lázaro e Pedro Vasconcelos. O concerto arrancou de forma tranquila, com Mortágua em solo de sax soprano; só depois entrou o grupo. As baterias articularam uma base rítmica sobre a qual os quatro sopros viajaram.

O sexteto tratou de apresentar na Terceira o material do disco homónimo (editado em 2017 pela Carimbo Porta-Jazz). Assentes nas composições de Mortágua, os quatro (s)Axes enovelavam-se, numa original combinação de timbres, apoiados por uma exploração criativa da percussão. Um dos destaques iniciais foi para o alto de Soares, num solo em que o som foi processado em tempo real. Ao terceiro tema o sax soprano de Mortágua também foi tratado electronicamente. Um dos momentos mais memoráveis da noite foi um divertido diálogo de baterias. Novamente, mais do que destaques individuais, importa destacar a dinâmica do grupo. Mortágua ousou apostar numa proposta originalíssima e essa aposta foi claramente ganha. E não apenas pelo desafio estético e pela arrojada criatividade: o público ficou seduzido também pela qualidade das ideias e pela energia da interpretação.

Monk’s Dreams

 

Para fechar a segunda noite de concertos chegou o americano Frank Kimbrough, com a proposta de revisitar a música de Thelonious Monk. O pianista editou uma sumptuosa “box set” de seis CDs, “Monk's Dreams: The Complete Compositions of Thelonious Sphere Monk” (publicada em Novembro do ano passado) e apresentou ao vivo uma pequena parte desse trabalho. A acompanhá-lo nesta empreitada estavam Scott Robinson (saxofones e trompete), Rufus Reid (conntrabaixo) e Billy Drummond (bateria). A música de Monk é caracterizada pelas suas arestas, mas o piano de Kimbrough arredonda-lhe os cantos (que continuam brilhantes, embora mais suavizados). Robinson, Reid e Drummond revelaram ser os parceiros ideais, precisos e focados.

A maioria dos temas foi apresentada em tempos mais lentos do que os originais, resultando uma música delicada e com mais açúcar, perdendo-se um pouco da acidez e da rugosidade que reconhecemos em Monk. O grande momento da noite aconteceu com a interpretação do clássico “’Round Midnight”, que arrancou com um solo de contrabaixo e evoluiu para uma execução plena de precisão e intenção, deixando a música a ecoar em “loop” na cabeça de todos os presentes no final do concerto. 

Entre dois Kings

 

A noite de sábado, última do festival, abriu com a actuação de um cantor, o americano Allan Harris. “Crooner”, guitarrista e compositor, Harris revela uma filiação entre Nat King Cole e B.B. King, entre o jazz vocal sofisticado e os blues. Na Allan Harris Band o vocalista teve a companhia de Arcoiris Sandoval (piano), Nimrod Speaks (contrabaixo) e Shirazett Tinnin (bateria), com o repertório a passar por clássicos da história do jazz – temas como “I Remember You”, “When I Fall in Love” e “The Very Thought of You” – interpretados por Harris com à-vontade, sempre a interagir com o público e a seduzi-lo, bem apoiado por um trio competente em que Sandoval se destacava. Harris passou também por “Miami” (uma interessante canção original) e “Doralice” (cantada em Português do Brasil, tentativa que não foi bem-sucedida). Para o fim ficou “Nature Boy”, composição eterna escrita pelo eremita Eden Ahbez. O concerto teve o senão de se estender por demasiado tempo.

Sons de Porto Rico

 

O Angrajazz de 2019 despediu-se com um dos projectos mais aguardados do cartaz, o quarteto liderado pelo saxofonista porto-riquenho Miguel Zénon. Na bagagem, ainda fresquinho, estava o disco “Sonero: The Music of Ismael Rivera”, acabado de editar. Zénon alimenta uma carreira de quase duas décadas em que se inclui uma longa ligação com o SFJazz Collective e até uma colaboração no álbum “Interchange”, do saxofonista português César Cardoso. A ligação de Zénon à tradição musical porto-riquenha já vem de longe e em 2018 editou mesmo um disco cujo título era toda uma afirmação: “Yo Soy La Tradicion”. E lá estava ela, num repertório de salsa com ambiente jazzístico: Ismael Rivera foi uma das mais importantes figuras da salsa de Porto Rico, agora justamente homenageado por Zénon.

Salsa essa que foi transformada numa música nova, fruto do tratamento imposto pelo superlativo quarteto que ouvimos no meio do Atlântico. O sax alto de Miguel Zenón ziguezagueava veloz, o piano de Luis Perdomo estava sempre presente e imaginativo, o contrabaixo de Hans Glawischnig e a bateria de Henry Cole foram motores rítmicos imparáveis. As melodias da salsa eram a base, mas rapidamente ficavam transformadas por um quarteto que vive sempre na vertigem. Houve permanentes interacção e desafio, além de uma tensão enorme. Sempre no vermelho, o grupo trabalhou uma música inventiva e musculada, sempre transbordando de energia. Foi o encerramento de que a 21ª edição do Angrajazz precisava.