Pedro Sousa / Rodrigo Pinheiro / Hernâni Faustino / João Lencastre, 30 de Setembro de 2019

Pedro Sousa / Rodrigo Pinheiro / Hernâni Faustino / João Lencastre

Nome de Guerra

texto Rui Eduardo Paes fotografia Bruno Ferrari

A estreia do quarteto de dois membros do Red Trio com Pedro Sousa e João Lencastre fez-se numa música nada cinematográfica que, ainda assim, recorreu à combinação dos planos abertos e planos fechados da sétima arte. Uma música tonal que, apesar disso, nunca pareceu rendida às convenções e que teria, certamente, agradado a Ernesto de Sousa, o autor de “Almada, Um Nome de Guerra”. Saibam como, aqui…

As associações de Pedro Sousa com Rodrigo Pinheiro e Hernâni Faustino, membros do Red Trio, não são novas – têm, aliás, um rasto não muito fácil de seguir, tantas as vezes que pisaram o mesmo palco em diferentes configurações. Mais recente será a de João Lencastre com os dois músicos, mas já nos conta uma história, e esta não é apenas a do Nau Quartet do irmão do baterista, José Lencastre. A (ainda) novidade, no concerto realizado a 27 de Fevereiro passado na SMUP, esteve no encontro entre Sousa e Lencastre – um segundo encontro, pois tocaram ambos com Faustino num concerto realizado no infelizmente já extinto Bar Irreal em Março deste ano. O primeiro é o saxofonista que conhecemos do projecto Volúpias de Gabriel Ferrandini, dos Eitr (com Pedro Lopes) ou de colaborações ao vivo com os mesmos Black Bombaim que gravaram com Peter Brotzmann; o segundo conhecemos como o mentor dos transnacionais Communion e de trabalhos conjuntos com João Hasselberg, Pedro Branco e Rodrigo Amado.

O conceito do quarteto é o mesmo que conduziu antes o trio Sousa / Faustino / Lencastre, o de uma improvisação integral alicerçada sobre o património estilístico do free jazz. A criação de uma música que acontece no momento e que, por isso mesmo, não depende nem de temas fixados nem de conversações prévias sobre o que fazer. Ainda assim, houve nesta estreia do formato um arrumamento de papéis que resultou melhor precisamente por não ter sido combinado, antes tendo derivado das propensões naturais dos quatro elementos. Num par de improvisações que nada tiveram de cinematográfico ou paisagístico, no seu alinhamento pela estética do grito, ouvimos Sousa e Faustino a centrarem-se numa laboração de planos fechados e Pinheiro e Lencastre a desenharem panorâmicas de plano aberto, com cruzamentos vários de situações (sobretudo quando surgiam combinações a três e a dois). Foi como se assistíssemos a um filme com imagens e partes de narrativa divididas entre duas telas de projecção, surgindo uma terceira e uma quarta em determinadas ocasiões. Ernesto de Sousa, o autor de “Almada, Um Nome de Guerra”, teria decerto gostado de assistir.

Pedro Sousa fez com o saxofone tenor o que é usual esperar de um contrabaixista: construiu os seus fraseios com poucas notas, variando entre a repetição de motivos e uma subtil variação dos mesmos, tal como aconteceu com Hernâni Faustino. Só o posicionamento na música os diferenciava, o de Sousa melódico, o de Faustino rítmico. Na combinação estabeleceu-se um caudal que não esteve muito longe do de um mantra – daí a impressão de que tínhamos embarcado numa viagem. Espiritual até, na boa tradição de John Coltrane e Albert Ayler, embora com outras estratégias de desenvolvimento. A Rodrigo Pinheiro e João Lencastre coube cobrir um mais amplo espectro de abordagens, entre a criação de texturas de suporte ou de contextualização (sobretudo Lencastre) e a harmonização, ou pelo menos a organização / composição em tempo real, do conjunto (sobretudo Pinheiro). O desempenho do pianista concretizou-se na totalidade do teclado, e se também ele introduzia figuras muito objectivas e insistentes no todo, contrariava-as de imediato com uma miríade de outros sons, como se o seu instrumento fosse toda uma orquestra. Já Lencastre raramente se focou num padrão, preferindo a mutabilidade proporcionada pelas vibrações misturadas de peles e metais, num permanente e inteligente jogo de dinâmicas.

A música era totalmente convencional no seu tonalismo, mas nunca soou familiar, cómoda ou conformista, numa demonstração de que a criatividade e a imaginação continuam a ser possíveis quando se utilizam as ferramentas mais estabelecidas. Dizia Ernesto de Sousa sobre “Almada, Um Nome de Guerra”: «Isto não é um filme. Se julgava vir assistir a um filme, ser espectador, enganou-se.» De modo muito semelhante, o jazz do quarteto de Sousa, Pinheiro, Faustino e Lencastre não era simplesmente o que as suas coordenadas indicavam…