Mardi Matin Trio, 18 de Setembro de 2019

Mardi Matin Trio

Um momento impressionista

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Como improvisar sem seguir a cartilha da música improvisada? Ricardo Sá Leão, Ricardo A. Freitas e Nuno Morão deram-nos uma resposta impressionista na SMUP, fechando uma sexta-feira 13 da melhor maneira…

Foi com uma formação diferente daquela com que, em 2017, teve início (Ricardo A. Freitas na guitarra baixo e o percussionista Nuno Morão acompanham agora Ricardo Sá Leão ao piano), que o Mardi Matin Trio se apresentou na SMUP na passada sexta-feira, 13 de Setembro. O contexto era de improvisação, mas tínhamos a expectativa de que o grupo não se cingisse à linguagem típica da música improvisada. E isso não só porque Freitas e Morão são dois dos improvisadores portugueses menos formatados pelos modelos estabelecidos nesta área, mas sobretudo porque o trajecto do líder do trio, Sá Leão, tem estado centrado na música erudita, vulgo “clássica”. Pois foi o que se verificou, demonstrando que há mais modos de improvisar do que aqueles definidos de alguma maneira pelo jazz, e com bons resultados.

Este posicionamento do projecto tem uma consequência fundamental em termos estéticos. Se, por hábito e até por regra, a improvisação é expressionista, a do Mardi Matin Trio, aparentemente organizada apenas por motivos harmónicos, é assumidamente impressionista, e não apenas segundo o enquadramento musical dessa condição, o de uma clareza estrutural e temática subordinada à harmonia: os termos aplicados na pintura impressionista estiveram sempre em jogo, no sentido em que iam ocorrendo enquanto impressões do momento, numa lógica construtiva que cobria um largo espectro de cores.

Curiosamente, a base da música que se ouviu na Parede era percussiva e rítmica, ainda que escapando sempre à definição de um batimento regular, com a própria guitarra baixo electroacústica (porque utilizando uma pedaleira de efeitos e um amplificador) a escolher, amiúde, uma abordagem complementar à parafernália de Morão, sobretudo quando Freitas a deitava ao colo – num desempenho, aliás, que orçou a excelência performativa. Essa vertente não chegava a ser dominante porque de imediato Ricardo Sá Leão a moldava harmonicamente, acrescentando-lhe outra dimensão e levando-a para outros desfechos, nesse propósito muito claramente evitando o estabelecimento de melodias lineares e colocando-se inteiramente ao serviço do todo musical, numa intervenção que recusou ter um papel solístico.

Tudo isto aconteceu num registo suave, tão suave que a música ocupou um plano paisagístico, dando-se a contemplar em vez de se tornar imersiva, neste aspecto também contrariando a mais usual música improvisada. Assim, em vez de um mergulho vivenciámos uma viagem, em vez de um banho de energia tivemos um painel que deixava à observação os mais pequenos pormenores. Ir contra a corrente continua a ser o que de melhor podemos encontrar numa criação artística e o Mardi Matin Trio deixou na Parede um bom exemplo disso mesmo…