Jazz em Agosto, 14 de Agosto de 2019

Jazz em Agosto

Porque resistir é preciso

texto Nuno Catarino e Gonçalo Falcão fotografia Petra Cvelbar / Fundação Calouste Gulbenkian

Em dois fins-de-semana, com concertos de quinta-feira a domingo, o Jazz em Agosto teve este ano como mote a música que está a ser feita em resistência às movimentações que pretendem fazer recuar o mundo para tempos mais negros. De modos diferentes, explícitos e implícitos, com 16 concertos que também tiveram desenlaces diversos. Aqui fica a reportagem da jazz.pt…

Com a resistência (ao fascismo, ao racismo, ao machismo, à homofobia e mais, capitalismo incluído) como mote, o festival da Gulbenkian ofereceu este ano uma panóplia variada de projectos do jazz e da improvisação que hoje se praticam dos dois lados do Atlântico. Um dos concertos, ainda que por causa da chuva, chegou a incluir todos – músicos e público – no palco, num fantástico exemplo de comunhão de sentimentos e propósitos. Aqui se conta como foi, na perspectiva dos enviados da jazz.pt… 

Marc Ribot “Songs of Resistance”

 

Porque a edição de 2019 do Jazz em Agosto teve como temática a “resistência”, a programação de Rui Neves teve logo início com o projecto “Songs of Resistance” de Marc Ribot - o disco com o mesmo nome foi um dos marcos discográficos do ano passado, numa revisão contemporânea de canções históricas anti-fascistas e de protesto. No disco participam vários cantores convidados, como Fay Victor, Sam Amidom, Meshell Ndegeocello e Tom Waits, entre outros, mas no concerto da Gulbenkian o guitarrista deu voz a todos os temas. Ao seu lado teve como companheiros Jay Rodriguez (saxofone tenor), Brad Jones (contrabaixo), Ches Smith (bateria) e Reinaldo De Jesus (percussão).

O concerto não começou bem. Arrancou com “We Are Soldiers in the Army”, o tema que abre o álbum, mas houve problemas técnicos com o amplificador da guitarra, obrigando a uma pausa para resolver o problema. O grupo voltou e atacou “The Big Fool”: desta vez não houve problemas de som e a banda pareceu mais coesa. A estratégia foi sendo repetida: o tema começava com Ribot na guitarra e na voz, e depois a banda entrava, com a música a crescer com “Groove” e chama jazzística. Além do repertório do disco, no qual assentou o concerto, Ribot incluiu também temas de Ceramic Dog (“Fuck La Migra” e “Muslim Jewish Resistance”) - independentemente da origem, todas as canções continham uma mensagem clara de luta política.

O público aplaudiu com entusiasmo e o concerto não acabou sem que Ribot tivesse regressado ao palco para três “encores” (!). Fechou definitivamente com Ribot a solo, começando a evocar o blues clássico “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”, de Blind Willie Johnson, evoluindo para uma letra contemporânea sobre o estado da nação americana, numa sentida mensagem de revolta. A selecção foi excelente e a pertinência da mensagem é indiscutível, nestes tempos de novos fascismos, de racismo e homofobia. Ribot deu tudo, na guitarra (sem exageros virtuosísticos) e na voz (não sendo perfeito, chegou e sobrou). A banda correspondeu, mas a interpretação colectiva poderia ter sido mais brilhante; a estratégia de ir aquecendo os temas com brasas jazzísticas, método sempre repetido, acabou por soar previsível e pouco interessante. Jay Rodriguez cumpriu, sem brilhar; Ches Smith, habitualmente exuberante, mostrou-se eficaz; e De Jesus complementou. Não tendo sido um concerto fantástico, valeu por cumprir o mote do festival, passando a mensagem de resistência e luta.

Maja S. K. Ratkje

 

Ao segundo dia de festival Maja S. K. Ratkje levou ao Auditório 2 a sua proposta de exploração sonora electrónica. Ratkje posicionou-se perante o público com uma mesa em que estavam vários dispositivos electrónicos e alguns objectos. A norueguesa começou por utilizar a sua voz, que ia sendo gravada, processada, transformada, e utilizada em fundo. Ratkje serviu-se igualmente de sinos, uma kalimba e outras fontes sonoras. O concerto teve um início muito interessante, pela forma criativa como as várias camadas iam sendo trabalhadas e coladas, numa massa sonora intrigante e atmosférica.

Contudo, ao longo da sessão a música foi começando progressivamente a perder interesse, principalmente quando começou a repetir os mesmos processos. Um dos momentos menos felizes aconteceu quando usou uma folha de plástico – o que parecia ser uma experiência interessante, acabou por se fixar demasiado na mesma técnica, momento esse em que algumas pessoas abandonaram a sala.

Heroes Are Gang Leaders

 

Amiri Baraka, também conhecido como LeRoi Jones, foi um escritor, poeta e activista ligado à história do jazz, particularmente ao free jazz. Uma das vozes mais proeminentes da comunidade afro-americana, Baraka colaborou e gravou com músicos como Sunny Murray, Albert Ayler e Don Cherry, tendo actuoado no Jazz em Agosto nas edições de 2000 e 2001. A mensagem de luta - contra o racismo, e o preconceito - continua actualíssima em 2019. O grupo Heroes Are Gang Leaders levou à Gulbenkian o material do disco “The Amiri Baraka Sessions”, do qual parte dos textos de Baraka para uma celebração jazzística. Ao leme do grupo está Thomas Sayers Ellis (voz), a ele se juntando Randall Horton (voz), Nettie Chickering (voz), Bonita Penn (voz), Jenna Camille (piano e voz), Heru Shabaka-Ra (trompete), James Brandon Lewis (saxofone tenor), Devin Brahja Waldman (saxofone alto / teclados), Melanie Dyer (viola), Luke Stewart (baixo elétrico), Brandon Moses (guitarra elétrica) e Warren “Trae” Crudup III (bateria). Ou seja, um grupo de grande dimensão, liderado pelos sopros e apoiado por uma secção rítmica sólida.

Em termos musicais, o colectivo combinou o “groove” da tradição afro-americana (soul, hip-hop, etc.) e o fogo do free jazz, com os textos de Amiri Baraka em “spoken word”. Dada a natural ênfase nas vozes (e nas suas combinações e sobreposições), a música acabou, no entanto, por ser relegada para um papel secundário, acabando por não se afirmar muito interessante. Utilizou uma fórmula já repetida, ainda para mais interpretada com pouca intensidade. Nota: no lugar lateral onde vimos o concerto o som estava desequilibrado, o que também não ajudou à plena fruição. 

Ingrid Laubrock & Tom Rainey

 

O disco “Contemporary Chaos Practices”, da saxofonista e compositora Ingrid Laubrock, combina de forma originalíssima composição contemporânea e improvisação aberta e foi distinguido como o melhor disco de jazz do ano pelo jornal Público. A saxofonista não teve oportunidade de trazer esse magnífico projecto a Portugal, mas apresentou-se em Lisboa num formato mais intimista, em duo com Tom Rainey. Duo no palco e na vida (são um casal), Ingrid e Tom levaram ao palco uma lição de improvisação livre, com os saxofones tenor e soprano a desenvolverem um permanente diálogo com a percussão. Laubrock foi desfiando ideias, primeiro no tenor, explorando sons, lançando ideias e trabalhando frases, até cuspir fogo. Rainey respondia na bateria, cruzando padrões rítmicos e subtis sugestões, exibindo toda a sua imparável imaginação musical. Sem composições nem bases pré-definidas, este encontro de pura improvisação sem rede foi, sem dúvida, um dos maiores momentos do festival.

Burning Ghosts

 

Na terceira noite do Jazz em Agosto os americanos Burning Ghosts levaram à Avenida de Berna a sua proposta arrojada, que combina jazz com heavy metal. No trompete estava Daniel Rosenboom, também compositor e líder do projecto, tendo ao seu lado Jake Vossler (guitarra eléctrica), Richard Giddens (contrabaixo) e Aaron McLendon (bateria). No centro esteve sempre o trompete de Rosenboom, de timbre directo e limpo, sempre disparando ideias com clareza jazzística. Em contraponto, a guitarra de Vossler assumiu a sua natureza metal: som sujo, abrasivo. A dupla rítmica sustentou as peças com energia. A música do grupo viveu num estado de permanente contraste / confronto, soando original, desafiante e provocadora. Por vezes surgia colada, mas em outras ocasiões a junção soava algo forçada - especialmente quando os solos da guitarra eram quase de natureza satrianesca. De modo geral, o quarteto exibiu a sua eficácia, sobretudo pela dinâmica colectiva, cumpriu as expectativas e conquistou o público, que aplaudiu com entusiasmo. 

Abdul Moimême

 

A Sala Polivalente do Museu de Arte Moderna foi o palco para Abdul Moimême mostrar a sua exploração de guitarra preparada. Na verdade, eram duas as guitarras, cada uma com uma chapa metálica em cima, acrescentando-se diversos objectos de metal, vários utensílios percussivos e microfones, além dos dispositivos electrónicos para processamento do som. Na inevitável comparação com a performance de Maja S. K. Ratkje, a abordagem de Moimême esteve menos focada na electrónica, revelando-se mais artesanal. Moimême esteve mais focado no processo de produção de som, servindo-se de uma panóplia variada (e criativa) de recursos - a electrónica foi usada com parcimómia, e sobretudo para controlar volumes.

O processo de Moimême é detalhado e ao vivo o espectador absorve a tensão na criação de cada momento. O método passou pela combinação de texturas, com a sobreposição de várias camadas de materiais, num processo em permanente evolução. Perto do final da performance uma espectadora enviava ao meu lado uma mensagem a uma amiga: «Que experiência horrível, vou sair daqui com problemas nos ouvidos. É só um homem a mexer nuns aparelhos que fazem uns barulhos», finalizando a apreciação com quatro emojis de O Grito de Munch. Há sempre público que vai ao engano e que não procura informar-se sobre aquilo a que vai assistir. É pena que esta parte do público não aproveite para ultrapassar preconceitos e saborear as explorações sonoras criativas que lhe é proporcionada. 

Toscano / Pinheiro / Mira / Ferrandini

 

Ricardo Toscano (saxofone alto) e Gabriel Ferrandini (bateria) são dois jovens talentos da cena jazz nacional. Fazia sentido juntá-los em palco e o primeiro encontro aconteceu em quarteto, no Bar Irreal em Lisboa, onde Toscano e Ferrandini partilharam o palco com Rodrigo Pinheiro (Red Trio) e Miguel Mira (Rodrigo Amado Motion Trio). Desde então, Toscano e Ferrandini já se apresentaram ao vivo em duo na Galeria ZDB, num concerto memorável, e no festival da Gulbenkian o quarteto fez a sua segunda apresentação ao vivo. Os quatro músicos embarcaram numa viagem de improvisação livre pura, terreno confortável para três dos membros do grupo, sendo que, para Toscano, este é um território novo – o saxofonista tem trabalhado na área do jazz “mainstream”, como ouvimos no excelente “Ricardo Toscano Quartet” (Clean Feed, 2018).

O concerto arrancou com o saxofone a lançar sugestões, logo seguido pelo piano (Pinheiro), que lhe foi construindo uma rede de segurança até entraram violoncelo (Mira) e bateria. O quarteto mostrou a sua flexibilidade e capacidade de adaptação, encontrando-se em vários momentos de perfeito sincronismo. Foram quatro os temas apresentados, com cerca de 15 minutos cada, e ao longo do desempenho vários pontos altos tiveram lugar, incluindo um solo de violoncelo, um duo de piano e saxofone e um solo de bateria. O aplauso entusiasmado do público, no final, foi inteiramente merecido. Só foi pena que este concerto tenha ficado remetido para o Auditório 2: este encontro raro entre algumas das figuras mais relevantes do jazz nacional merecia o Anfiteatro ao Ar Livre, que seguramente estaria lotado. 

Nicole Mitchell

 

Numa excepção à regra geral do Jazz em Agosto, o concerto de Nicole Mitchell não se realizou no Anfiteatro e sim no Grande Auditório. A flautista, compositora e improvisadora americana trouxe na bagagem o recente disco “Mandorla Awakening II: Emerging Worlds”. Mitchell fez-se acompanhar por Tomeka Reid (violoncelo e banjo), Mazz Swift (violino), Kojiro Umezaki (shakuhachi), Alex Wing (guitarra elétrica, oud e teremin), Tatsu Aoki (contrabaixo, shamisen e taiko), Jovia Armstrong (percussão) e Avery R. Young (voz). O grupo começou por apresentar uma longa suite, dividida em vários movimentos, entre o universo do jazz e as músicas do mundo, com as participações dos instrumentistas a surgirem de forma controlada e contida, sem exageros individuais – ainda assim, destacaram-se o violoncelo de Reed e a guitarra de Wing.

Seguiram-se duas peças mais curtas, com o grupo a ligar-se mais claramente à tradição da música afro-americana, numa combinação de balanço rítmico e de energia free – estes temas já contando com a participação do cantor Avery R. Young, que passara o primeiro tema em silêncio. O grupo revelou uma excelente dinâmica colectiva e interpretou as composições com alta intensidade, evidenciando a sua exuberância. O aplauso e o “encore” finais confirmaram definitivamente este concerto como o maior momento do primeiro fim-de-semana do festival. (N.C.)

Abacaxi

 

A segunda semana do Jazz em Agosto deste ano arrancou com um dia francês. À tarde, no Auditório 2, estava prometido um espetáculo de música e luz com os Abacaxi de Julien Desprez. O guitarrista começou por se afirmar em vários grupos e é hoje um nome a ter em consideração. O seu grupo franco-alemão responde por um nome tropical, mas toca frio e duro como uma máquina industrial russa. A Gulbenkian fez o esforço de escurecer todo o auditório com um revestimento (impecavelmente acabado; foi um prazer ver) de pano escuro que potenciava o jogo de luz estroboscópica que este grupo usa em palco. Nos Abacaxi a luz faz parte da música, acentuando os sons gaguejados de alguns momentos, bem como as rápidas repetições de pequenos elementos.

O que a guitarra, o baixo de Jean François Riffaud e a bateria de Max Andrzejev apresentaram esteve na descendência das experiências dos Massacre em 1982. Os temas são feitos com pequeníssimas unidades disparadas como rajadas, que fazem lembrar a música minimalista de Glass ou Reich, mas com ritmos irregulares e pausas. O concerto foi organizado em três temas longos: “1984”, “Mainstream Desire” e “Catfish”. Logo após o início do concerto o jogo de luzes estroboscópicas deu lugar a uma iluminação mais estável, poucas vezes interrompida devido a um problema técnico.

Julien Desprez impressionou, pela enorme qualidade e pelo seu controlo no uso dos pedais, bem como pela abordagem inovadora à guitarra: usou sons curtos e metralhados, tocados tanto com as mãos como com os pés, num virtuosismo raro no uso dos efeitos. O concerto prolongou-se por 50 minutos, mas uma duração mais curta (20 ou 30) teria sido mais sábia, pois, por enquanto, o trio não tem soluções para criar novidade durante tanto tempo.

Théo Ceccaldi Freaks

 

A noite do recomeço ameaçou chuva, mas tal não se cumpriu e, por isso, o magnífico Anfiteatro ao Ar Livre recebeu Freaks, o novo sexteto do violinista Théo Ceccaldi. “Freaks” era o nome que se dava às aberrações exibidas nas feiras e a música do grupo soa também a uma colagem de elementos, a maior parte dos quais retirada da música que se passava na rádio nos anos 1940. Ouvimos rumbas, boleros, rock, jazz e até pop minimal, tipo “Tubular Bells”. A formação com dois saxofones (Quentin Biardeau e Mathieu Metzger), guitarra eléctrica (Giani Caserotto), baixo (Stéphane Decolly) e bateria (Etienne Ziemniak), além do violino, mostrou um som ultra-coeso, profundamente bem ensaiado e capaz de soar como um só instrumento. O baixo eléctrico de Decolly esteve sempre alto e serviu como a cola que manteve a coerência da gerigonça musical, feita tanto de calão como de literatura, na linha dos baixistas do período eléctrico de Miles Davis, que eram fundamentais para manter a máquina em funcionamento.

O concerto foi leve, no limite do “kitsh”, uma fronteira difícil que só os franceses conseguem dominar, mas também intenso e performativo. A música cativou por ser muito bem trabalhada e realizada. Não faz avançar o mundo, mas não replica modelos de sucesso e tenta criar uma proposta nova. Uma música com purpurinas que se ouviu com prazer. 

Joey Baron / Robyn Schulkowsky

 

Na sexta-feira a tarde programava um dos concertos que mais expectativas tinha criado: o duo de percussão de Joey Baron e Robyn Schulkowsky. Joey e Robyn são um casal: ele, baterista espantoso, esteve desde sempre ligado à elite jazzística americana; ela tem uma carreira como percussionista de música contemporânea, interpretando Shostakovich, Berio e Wolff, mas também surgindo em alguns discos com trompetistas como Markus Stockhausen ou Nils Petter Molvær. Ele tinha uma bateria turbinada com percussões, ela apresentou-se com tímpano, gongo, pratos, caixa, “jam blocks”, conga e um arsenal de objectos percutíveis. Estava tudo alinhado para mais uma tarde memorável no JeA... mas não. O concerto sofreu de dois problemas insanáveis: o primeiro é que Schulkowsky não é uma improvisadora e a música foi genericamente improvisada (ou estruturada em planos genéricos e vagos); o segundo é que o duo vinha lento, em modo férias de casal em “resort all inclusive”. A conjugação destes dois imponderáveis foi fatal.

Os dois chegaram ao palco, instalaram-se nos respectivos “kits” e apontaram sorrisos um para o outro. Tocaram apaixonadamente e o concerto teve a beleza de nos dar a ver uma coisa deslumbrante: um casal nos sessentas a namorar e a cuidar um do outro. Por isso valeu a pena. Mas para além desse raro contentamento o que assistimos foi um Joey Baron a montar bases de bateria “andantes”, e Robyn Schulkosky a tocar em tudo o que encontrava pela frente, sem nunca explorar uma ideia, sem dar tempo para que estas se instalassem e sem grande capacidade de propor. Apenas tentou colorir e adicionar tonalidades aos ritmos que Baron fazia e encaixar nas suas bases. Usaram alguns processos que já vinham em disco (exemplo: o dueto de pedras) e tentaram outros novos, num concerto que se ouviu sem excitação.

Tomas Fujiwara Triple Double

 

A noite era do Triple Double, um sexteto com duas baterias, duas guitarras eléctricas e dois trompetes. As composições eram de Tomas Fujiwara, que lidera e escreve pautas que tentam socializar vozes particularmente estranhas. Quer isto dizer que, em vez de forçar os músicos a uma música particular, a ideia do baterista é precisamente a contrária: tentar fazer conviver vozes musicais muito particulares - como a da guitarra deslizante de Mary Halvorson ou os impulsos rápidos e pequenos de Brandon Seabrook. Particularmente entusiasmante foi o diálogo das duas baterias (e em especial o solo de Fujiwara), que pegaram no tema  repetiram os ciclos da melodia até que esta se evaporou. Ouvimos com precisão uma das particularidades do sexteto: é que não se trata de um trio de duos, mas sim de um sexteto em que a dobragem dos instrumentos não lhes tira singularidade.

As baterias eram o motor (como seria de esperar); as duas guitarras encaixaram-se muito bem, apesar da enorme diferença de estilos, ora repetindo melodias que passavam a funcionar como baixos ou assumindo-se como solistas. Cruzaram-se com os dois metais da frente num quarteto impossível, com quatro músicas diferentes a serem tocadas dentro de uma só. Foi uma proposta original e interessante de ouvir, num contexto rítmico forte e intenso, com melodias francamente interessantes. Fechou bem o dia. 

Zeena Parkins / Brian Chase

 

Com o festival na recta final, o sábado abriu com o duo de Zeena Parkins em harpa e Brian Chase na bateria. Foram dois solos curtos, um de Chase e outro de Parkins e um final com 15 minutos em duo. Para o seu solo, o baterista usou a ideia a que Karlheinz Stockhausen deu o nome de “Mikrophonie” (1964); o compositor alemão fez avançar o planeta ao captar as vibrações sonoras que normalmente não são audíveis através do uso da amplificação do microfone, usando-o activamente como instrumento musical (em contraste com a sua função mais típica, totalmente passiva). Chase pegou neste conceito e aproximou o microfone à pele da tarola e depois fez o mesmo com um prato. Sem ser novo, o momento curto (10/15 minutos) foi bonito. Entrou depois Zeena Parkins, que continua a fazer um uso raro e excêntrico da harpa no jazz. A harpa clássica foi submetida a um tratamento de choque por Parkins, através da aplicação de metais, grampos, uso do corpo de madeira e processamentos electrónicos. Como a improvisadora experiente que é, foi tocando todos os sons que a harpa pode fazer. Já perto do final, Chase voltou para o palco, e contruiu imediatamente uma boa ligação com os movimentos da harpa, seguindo-a mais do que propondo. 

Ambrose Akinmusire

 

A noite iria ser muito especial, mas à hora em que o público jogava tetris com os lugares já sentados do esgotado Anfiteatro, ainda não o sabíamos. O “Origami Harvest” de Ambrose Akinmusire era a justificação para a enchente que chamou à Gulbenkian muita gente, das que provavelmente não são habituais no JeA. A música do jovem trompetista americano é leve e acessível, cruza as fronteiras do hip-hop e do jazz, mas não é pobre ou vulgar e, portanto, a sua presença não era absurda (sendo estranha). O concerto em Portugal foi conseguido com um esforço negocial acrescido por parte da organização, que convenceu o músico a alterar férias já marcadas e a vir até Lisboa com a família. Valeu a pena o esforço.

Estavam oito músicos em palco: o quarteto do trompetista com voz, bateria e teclados e o Mivos Quartet, um quarteto de cordas. Ao vivo é muito bonito o trompete de Ambrose Akinmusire, improvisando bem sobre as bases do disco. Faz lembrar Miles Davis porque não é um virtuoso, mas usa tudo o que tem com enorme qualidade, bom gosto e uma procura por caminhos novos. Excelentes o baterista (Justin Brown) e o teclista (Sam Harris). A música respeitou o CD e o quarteto de cordas cingiu-se à pauta, em orquestrações elegantes que interferiam com os ritmos mais previsíveis do hip-hop. O contraste entre a linguagem de rua do “rapper” (Kokayi) e o som palaciano das cordas criou um choque atraente, como o das palavras parecidas que têm uma desigualdade de significados.

Estávamos a meio de Agosto, mas com o descaramento de quem pediu um empréstimo bancário gigantesco sem dar garantias, a metereologia resolveu surpreender: a meio do concerto, a chuva apareceu. Não foi uma chuvinha de Verão: avisou-se timidamente desde o início do espectáculo, mas a meio caiu em força. A plateia tentou resistir, mas rapidamente percebeu que a coisa não era de somenos e teve de se levantar. O público procurou abrigo por baixo das frondosas árvores que rodeiam o Anfiteatro. Ambrose estranhou aquele movimento repentino de pessoas sem, porventura, ter percebido logo que era por causa da chuva. Quando percebeu o problema, convidou o público para se sentar à volta do palco, debaixo da cobertura que o aguaritava. Criou-se um momento especial e único na história do Jazz em Agosto: o público a rodear a banda, com os músicos muito próximos, e Kokayi a cantar a letra de “Free, White and 21”, na qual se nomeia uma série de negros americanos assassinados pela polícia em crimes de ódio - Trayvon Martin, Sandra Bland e tantas outras vítimas de um país que acredita que deve andar armado e onde o fogo do ódio racial é tantas vezes ateado pelo próprio governo.

Em Lisboa, sem armas e sem incidentes, o ambiente era de paz; partilhámos a protecção contra a chuva com enorme cortesia, num exemplo de boa política aplicada. Dividimos o mesmo espaço civilizadamente, respeitando o papel de cada um naquele momento. Ouvimos um jazz tintado por outras músicas afro-americanas, como os blues, a soul e o hip-hop, numa denúncia do racismo americano. Acabou o concerto e a chuva ao mesmo tempo. Foi uma noite tramada para quem acredita em coisas místicas. 

ERIS 136199

 

E com a fatalidade das coisas boas chegou o segundo e último domingo do JeA. Cabe aqui, em jeito de conclusão, uma referência à nova personalidade que o Auditório 2 teve nesta edição, assumindo-se claramente como um espaço laboratorial, para os projectos mais experimentais. Concertos curtos, de uma hora, em que tocaram músicos e grupos que pedem ouvintes mais informados. Os lugares pagos afastaram muito do público que em edições anteriores esgotava rapidamente a sala, para também rapidamente desistir dos concertos por não estar preparado para o embate. Mesmo assim, continuamos a ver um número pequeno de abandonos, o que é um bom sinal. É bom sinal porque muitos dos surpreendidos ficam até ao fim.

Às 18:30, como habitualmente, fomos para o Auditório 2 ouvir o ERIS 136199. Este é claramente o tipo de nomes que se deve evitar para um grupo musical. Quem o lê pensa logo em música picuinhas ou guiada por fórmulas cabalísticas. O champô já não arde nos olhos e já não estamos em tempo de usar nomes que têm de ser colocados num bloco de notas para serem memorizados. Mesmo com este cartão de visita abstruso, os espectadores quase esgotaram a plateia. Duas guitarras eléctricas e um saxofone. O guitarrista líder, Han-earl Park, fez valer a pena a ida ao concerto. Foi um prazer ouvi-lo. Toca no lado errado da guitarra, e se tem poucas coisas para dizer o que tem é muito bom e original. Nick Didkovsky, o antigo mentor dos Doctor Nerve e segundo guitarrista, tem um bom controlo do ruído e soube produzir texturas eléctricas saturadas. A presença da saxofonista Catherine Sikora no trio actua por contraste: parecia uma mãe a tentar arrumar o quarto numa festa de anos de rapazes com 8 anos. Tocou frases longas, limpas, organizadas e serenas no saxofone, disputando a nossa atenção com o ruído subterrâneo que era criado pelas duas guitarras. Foi uma música feita em dois planos, com um saxofone que construía um caminho e duas guitarras eléctricas que o tentavam despistar. 

Mary Halverson Code Girl

 

À noite, com o Anfiteatro ao Ar Livre já seco e com as apps da especialidade a prometerem um céu de Verão, apresentou.se o novo projecto de Mary Halvorson, “Code Girl”. O grupo com três homens e três mulheres (foi também mais evidente nesta edição a louvável preocupação de procurar uma paridade entre músicos masculinos e femininos) é uma novidade que toca a nova música da guitarrista. Halvorson procura agora uma maior proximidade com a música popular, num jazz que usa o formato de canção em longas pautas melódicas sem refrão. A voz era de Amirtha Kidambi, cantora com formação clássica. A sua expressão repetitiva, aborrecida, com uma sentimentalização forçada dos textos, esteve muito mais próxima dos disparates vocais de Yoko Ono do que da prometida - na folha de sala - Nina Simone. O problema está parcialmente na linha melódica e grandemente nos textos escritos por Halvorson: uma poesia trôpega que parece retirada do instagram de uma adolescente. Só David Bowie e Scott Walker, mestres das letras vãs, conseguiriam fazer parecer sentidas coisas como «Deceptive euphoria / She remains stretched / By the force of your breath / The vulture star / Ignores the receding wave». Amirtha Kidambi acentuou parvamente os versos e não pausou as estrofes, num contínuo aborrecido e desalmado.

A minha admiração pela originalidade da guitarra de Halvorson e pela sua escrita – e por esta aventura numa pop de vanguarda –  não se conseguiu sobrepor à presença constante da voz, que sistematicamente cortava a tentativa de isolar e seguir as longas linhas melódicas das canções e o trabalho do grupo. Terminámos com a sensação de que esta mesma música teria sido excelente se fosse tocada apenas por Halvorson, Formanek, Fujiwara e O‘Farrill. As presenças da saxofonista Maria Grand e da cantora contribuíram para a paridade de género, mas lesaram a música. 

Post-scriptum

É verdade que há muita desinformação sobre o que é o jazz (um campo generoso de “fake-news”): já no passado referimos esta questão numa carta aos que desistem (https://jazz.pt/cronicas/2017/08/06/carta-aos-que-desistem/). A palavra jazz tem as costas largas e leva com tudo, de maus cantores a maus improvisadores. A música ao vivo é cada vez mais um negócio complicado quando se pretenda dar a ouvir música nova e desafiante. O mundo dos festivais foi tomado por empresas de cervejas, energia e telemóveis que programa música do mais fácil, evidente e pobre que há. O propósito não é promover a música, mas sim vender produtos. A música é só um pretexto e por isso deve bem-dispor. Deve ser um sofá confortável e não uma porta para o desconhecido. Com a excepção do Blitz, da jazz.pt e de outras publicações especializadas, a crítica aos concertos aceitou um papel de promotora-prozac, alimentando um éden extraordinário onde nunca há um concerto mau. Um mundo onde os Cure a cair da tripeça ou os AC/DC com o piroso Axel Rose e Jamie Cullum a ”chibatar um cavalo morto” fazem sempre concertos fenomenais, inesquecíveis, extraordinários, soberbos, incríveis, inacreditáveis e outros qualificativos “top”. A “payola” 3.0 funciona melhor do que nunca.

Nesse sentido, a jazz.pt procura seguir os festivais nacionais, promovendo e divulgando a música feita ao vivo e o esforço de promotores e programadores na procura de uma oferta interessante e que nos deixe ouvir a música do nosso tempo. Respeitamos o leitor dando-lhe uma opinião baseada em escutas informadas. Respeitamos músicos, promotores e programadores não defendendo interesses particulares ou alimentando uma agenda de preferências. Queremos contribuir para a música feita ao vivo, com o momento, pelo momento. (G.F.)