Julho é de Jazz, 19 de Julho de 2019

Julho é de Jazz

Ritmos abstractos e o efeito Washington

texto Gonçalo Falcão fotografia Adriano Ferreira Borges / gnration

O gnration de Braga voltou a ter jazz neste mês de Julho com dois concertos de excelente música e um, que não a oferecendo, encheu o anfiteatro. O melhor chegou no fim, com apenas 50 pessoas a assistir à actuação dos Bunky Swirl de Jim Black e Elias Stemeseder, mais Peter Evans como convidado…

Julho é de jazz no gnration, um espaço cultural magnífico no centro de Braga. Ficámos surpreendidos com a arquitectura escultórica, dominada por formas metálicas descendentes – ex-canteiros de plantas actualmente desplantados - que edificam um padrão visual leve e por uns pilares artificiais que avançam do edifício. O centro cultural é um espaço surpreendente, com uma programação variada em diferentes disciplinas artísticas. O mês de Julho foi dedicado ao jazz e ainda bem, pois a cidade tem uma enorme tradição musical, a que se adiciona um novo palco. Braga é uma cidade com vários pontos culturais imperdíveis – a livraria Centésima Página, o Theatro Circo e o gnration passaram a figurar no roteiro obrigatório de qualquer visitante que procure mais do que comes e bebes (área onde é impossível não destacar o restaurante Retrokitchen que, apesar do infeliz nome vintage-gourmet-barber-hipster, tem comida, bebida e simpatia que passam para além das magras cinco estrelas possíveis no “trip adviser”.

O festival começou a 11 de Julho com um calor insuportável. Estava um dia seco, com um calor paralisante que só pedia água e descanso (ou o vinho verde leve e frutado do Retrokitchen). À noite, o tecto do concerto eram as estrelas de um pátio interior onde foi desenhado um plano descendente com formas geométricas triangulares. Ficámos desde logo maravilhados com aquela ideia anfiteatral. O “palco” estava no ponto mais baixo e o público foi-se sentando e deitando nesta ideia curiosa entre o natural e o geométrico. Apesar do chão betumado, o facto de estarmos num plano descendente, com triângulos onde o corpo se conseguia encaixar, produzia uma plateízação confortável. O céu limpo e estrelado, a noite agradavelmente quente, o bom barzinho, o cenário arquitectónico inteligente e a música de Mário Costa criaram uma circunstância especial e uma sociabilidade muito bela. 

Não é só instrumental

 

“Oxy Patina”, o CD lançado o ano passado, serviu como fio condutor do concerto. A jazz.pt não se cansou de elogiar este trabalho, dando-lhe o máximo de estrelas possível (ver crítica em: https://www.jazz.pt/ponto-escuta/2018/08/20/mario-costa-oxy-patina-clean-feed/ ) e elegendo-o como “melhor disco do ano” e ao seu autor como “músico de jazz nacional do ano” na nossa “pool” de 2018. Costa veio acompanhado por Benoît Delbecq, o pianista do disco, mas substituiu a guitarra de Marc Ducret pelo contrabaixo de Bruno Chevillon. A troca revelou-se muito boa e se eu tivesse sido o produtor do álbum teria ficado aflito perante a necessidade de decidir se queria a versão com contrabaixo ou a de guitarra. A questão não é só instrumental, mas também de músicos, porque Chevillon é um contrabaixista especial, com um som incrível e uma técnica estratosférica que consegue adicionar leituras muito particulares às pautas de Costa.

O trio de bateria, contrabaixo e piano não funciona com a dinâmica clássica, pois o contrabaixista aproveita – e bem – a deixa solística criada pela guitarra que o precedeu e, em vez de tocar uma base que acentua e suporta as harmonias, torna-se ele próprio melódico, confundindo-se com o piano. O som da sala / anfiteatro ao ar livre estava perfeito, com um volume alto e definidíssimo. O concerto deixou ouvir os três músicos com igual importância, nunca se sentindo a dimensão solista / suporte. Foi uma noite especial em que o universo se alinhou (chacras-fengshui-tarot e todas as forças místico-inexistentes) para um concerto único. 

Música para vender telemóveis

 

Sexta-feira, 12, chegou e com ela o efeito Washington. A programação colocou a saxofonista inglesa Nubya Garcia no dia em que as noitadas se instalam e ganhou a aposta com uma sala cheia. O calor de tempestade da véspera tinha dado lugar à possibilidade de chuvas e a noite pedia celebração. Garcia é uma das respostas inglesas à porta aberta na América de um jazz levezinho como o vinho do mesmo nome. Se há coisa em que os ingleses são especialistas desde o século XV é rapinar e vender. Têm um sentido profundamente pragmático em relação à criação e uma dimensão comercial só comparável à dos holandeses. Garcia é uma proposta comercial bem montada, comparável às de Snarky Puppy, Kamasi, Shabaka, Ambrose, Makaya... Esta “nova” corrente jazzística nasce dos ambientes lounge / chill out / sunset e usa a sua linguagem simples e acessível adicionando-lhe uma imagem (black power / eco friendly / spiritual unity) e uma execução musical jazzísticas.

Não vou criticar esta corrente: seria um erro histórico já cometido várias vezes, quando, por exemplo, Miles Davis quis entrar nos grandes festivais e criou a fusão eléctrica. O jazz pode assentar – e frequentemente o fez ao longo da sua história – sobre ideias simples e atraentes e mesmo assim mostrar a sua dimensão libertária e criativa. Melodias acessíveis (ex: “Somprero Sam” de Charles Lloyd, “Ghosts” de Albert Ayler) são belas na sua modéstia e são potentes enquanto material jazzístico se tratadas por músicos com boa utensilagem mental. Não critico esta corrente porque, de vez em quando, deixa-se ouvir muito bem. A grande dificuldade desta linha estilística tem, no entanto, sido a passagem do disco para o “ao vivo”: em disco, Kamasi Washinton toca um jazz modal com laivos de espiritualidade pós-coltraneana (Alice / Pharoah), com um som muito bem produzido, que se ouve com prazer. Ao vivo, toca um funk pobre e evidente, com solos de carrascão. Esta noite tinha por isso um atractivo adicional, o de dar a Nubya Garcia espaço para nos mostrar que é uma saxofonista interessante. Não é.

Ouvimos maus solos de piano a repetir 20 vezes a mesma coisa em crescendos de teatralidade emotiva (foi impressão minha ou ouvi o mesmo solo duas vezes em duas músicas diferentes?), uma bateria sem ideias que também se repete até ao insuportável e uma saxofonista com força e alma, mas que não deixa de ser vulgar, igual a tantas outras/os. Hiper-emotividade, repetição exaustiva de elementos, melodias simples, músicas reconhecíveis. Entendemos a aposta da programação e não só porque é impossível julgar sem ouvir: a casa encheu e esse é um factor importante na missão dos centros culturais.

O concerto – que aconteceu em total desconforto na Black Box e não no anfiteatro dos triângulos (as apps calculavam a possibilidade de chuva e essa terá sido, provavelmente, uma decisão de recurso), com demasiado calor, pouca ventilação e nenhuns lugares sentados –  tinha um público claramente diferente dos outros dois dias: muita gente ligada a telemóveis e a redes sociais, gente nova que queria dançar, gente que adorou (já vi este filme com o Kamasi). O dub de final dos anos 1970 dos Inner Circle (heavyweight dub, killer dub) foi o estilo dominante sobre o qual a saxofonista e o pianista solaram. Excitadíssimos, o sax e o piano recusaram-se, no entanto, a mergulhar naquele caldeirão jamaicano e o ambiente ficou estranho. A bateria e o baixo estavam no Studio One em Kingstown, mas os ditos saxofone e piano tocavam “live” com uma banda de rock. O público conversou e abanou o esqueleto com prazer, pois o concerto soava a música para vender telemóveis. Quando o pianista dobrava o tempo e tocava a mesma melodia em velocidade, a audiência gostava e aplaudia. Ao meu lado, uma senhora já com mais de 40 anos interagiu avidamente com as redes sociais durante os 40 minutos de música. 

Em grande

 

O terceiro dia, sábado 13 de Julho, propunha um grande concerto e por momentos temi uma vergonha. À hora prevista para o início estavam 30 pessoas para ouvir Jim Black e o virtuoso Peter Evans. Felizmente, o ligeiro atraso no início deu tempo para chegarem alguns espectadores tardios e a sala compôs-se. Imaginamos a angústia do programador no momento da decisão. Dá que pensar: a música de telemóvel do dia anterior tivera casa cheia e este, com tão grandes nomes, só convidou umas 50 pessoas no total. Ao duo Bunky Swirl, nome do projecto de teclas e percussão de Jim Black e Elias Stemeseder, juntou-se o trompete virtuoso de Peter Evans. O entre nós pouco conhecido austríaco tocou piano e várias electrónicas com teclas e o nosso bem conhecido Black desancou a bateria com uma rapidez que achávamos só ser possível com “drum machines”. Os ritmos abstractos que são a sua marca de água (“beats” techno que param e arrancam sem terem uma métrica lógica e repetitiva), esses só apareceram no final da improvisação.  

O concerto foi longo, mas excelente, e durante muitos períodos parecia que a música tinha sido escrita – em vez da improvisada –, de tal modo os músicos se entendiam e respondiam no momento às mudanças. Elias Stemeseder foi uma excelente surpresa: domina o piano, mas também a electrónica e consegue sempre fornecer material interessante aos outros músicos. Black também usou uma placa digital para manuseamento dos sons e a surpresa esteve precisamente no equilíbrio entre os instrumentos tradicionais – piano e bateria – e os electrónicos, numa banda de dois que parece de seis. Peter Evans foi submetido a este tratamento de choque intenso, com uma hora e um quarto de sopro, a que correspondeu sempre com enorme disponibilidade mental. Conseguiu não se repetir, inventou ideias interessantes para aquele contexto difícil em que se ficava extremamente exposto e tocou frases lindíssimas.

O ciclo de jazz do gnration acabou como começou, em grande, com um concerto intenso que nos deixou presos à música e com muita vontade de voltar a Braga.