Jazz no Parque, 18 de Julho de 2019

Jazz no Parque

No fio da navalha

texto João Esteves da Silva e Nuno Catarino fotografia Fundação de Serralves

Em mais uma edição que tem incidido nas parcerias de músicos portugueses com outros de países terceiros, o ciclo de concertos da Fundação de Serralves arrancou com um novo projecto de Pedro Melo Alves, “In Igma”, estrelado por Mark Dresser e Eve Risser, e continuou com a segunda versão do grupo nacional Fail Better! com Théo Ceccaldi como convidado. No próximo sábado 20 de Julho haverá mais um encontro inédito e construído sobre uma ideia de risco, aquela que justifica a prática da improvisação…

«Na sua 28ª edição, o Jazz no Parque aposta na colaboração de grupos e músicos individuais portugueses com outros do mapa internacional, procurando contribuir para maiores relacionamentos da realidade musical do nosso país com as de terceiros […], na prossecução do ideal universalista do jazz neste início de um novo milénio. Sempre inaugurando novos caminhos para os envolvidos, com propostas em estreia absoluta», lia-se na folha de apresentação daquele que é já, em grande parte graças à linha de programação “sui generis” seguida por Rui Eduardo Paes (REP), um acontecimento de excepção no contexto das músicas improvisadas em Portugal.

Já há dois anos, quando tive a oportunidade de escrever sobre a 26ª edição do festival, enfatizei justamente o seguinte: «Muito se teria a ganhar se alguns dos principais ciclos e festivais nacionais começassem a incluir nos seus cartazes […] colaborações [inéditas] entre músicos portugueses e estrangeiros que, apesar da distância geográfica, se poderiam revelar próximos ou, acima de tudo, compatíveis […] do ponto de vista musical; novos laços, de assinalável potencial, e oportunidades poderiam, assim, florescer.» Ora, a presente edição assistiu àquele que foi, cremos, um dos mais felizes encontros que o Jazz no Parque tem vindo até à data a proporcionar: o projecto “In Igma”, de Pedro Melo Alves.

O jovem compositor e baterista recebera carta branca de REP e da Fundação de Serralves para reunir a formação que bem entendesse, daí resultando um invulgar septeto, de entre o qual sobressaíam nomes como os do contrabaixista norte-americano Mark Dresser ou da pianista francesa Eve Risser, ambos importantes reformuladores das possibilidades dos seus respectivos instrumentos. A estes se juntavam ainda Abdul Moimême, também ele um explorador sonoro de referência, e três vozes versáteis, Aubrey Johnson, Beatriz Nunes e Mariana Dionísio. Alguns dos músicos tinham-se conhecido apenas na véspera, aquando da estreia mundial do projecto, no Sudtirol Jazz Festival, em Bolzano (Itália), e notou-se que o grupo estava ainda a dar os primeiros passos enquanto tal, facto do qual se seguiram consequências assaz diversificadas.

Melo Alves corre aqui um risco imenso ao reunir todo um conjunto de personalidades por si só fortíssimas e, apesar das várias coordenadas comuns que justificavam à partida a sua escolha para dar vida ao projecto, muito distintas entre si. É como se habitantes de vários pontos do globo se vissem subitamente juntos num lugar remoto e, ainda que capazes de se entender perfeitamente numa “língua” comum, dominassem, cada qual, idiolectos bem diferentes; só com tempo (e boa vontade – aquilo a que alguns filósofos chamam “caridade”) é que se pode esperar o desejado equilíbrio. O septeto move-se, pois, no fio da navalha, entre a excelência e a catástrofe, mas o que é certo é que o risco corrido se viu recompensado, por várias razões.

O trabalho de Melo Alves tem-se inscrito na tradição de músicos que apostam forte na escrita e, ao mesmo tempo, a entendem como catalisadora da improvisação. Esta última deve, por sua vez, ser aqui entendida também como genuína composição, como um trabalho de escolhas precisas em tempo real – uma continuação da partitura e não uma mera oportunidade para exibições individuais de capacidades. Neste ponto muito geral, o grupo estava de facto em sintonia e foi a partir daí que os seus membros se lançaram à descoberta de terrenos partilháveis. Tal como a entendo, a longa suite “In Igma” serviu, sobretudo, como elemento mediador desta combinação potencialmente explosiva, i.e. para, por assim dizer, moderar este primeiro encontro.

Diria que a actuação em Serralves foi apenas parcialmente conseguida, facto que deve ver-se até certo ponto relativizado à luz do enorme arrojo da proposta em questão. A própria composição (promissora, é certo) denotou ainda, aqui e ali, alguma falta de polimento e nem sempre foi fácil discernir uma arquitectura consistente ou um fio condutor capaz de colar devidamente os vários elementos em jogo. O trabalho dos músicos foi, não obstante, louvável na sua procura de levar a bom porto aquilo que, a qualquer instante, poderia ruir, com todos a revelar, como esperado, excelentes argumentos. O eixo Risser-Dresser-Melo Alves (com o líder sempre atento e nada impositivo, o contrabaixo de Dresser mais veemente e assertórico, e a pianista, sensível, a procurar deixar a música seguir o seu curso natural) dotou o ensemble de uma coloração fora do vulgar, completada pelo muito subtil, quase cirúrgico, mas não por isso menos orgânico, trabalho de Moimême, ao passo que as vozes contribuíram para a dimensão mais erudita do som do conjunto.

De entre estas últimas, de salientar duas agradáveis surpresas: a grande aptidão de Beatriz Nunes para práticas de improvisação de cariz mais exploratório, faceta que ainda não lhe conhecíamos, ou o que julgo tratar-se do início da afirmação de Mariana Dionísio, também ela dotada de recursos técnicos assinaláveis e, acima de tudo, de uma inteligência musical rara, como uma das vozes mais interessantes da actualidade.

Podemos não ter saído de Serralves plenamente rendidos ao concerto como um todo (ainda que tivessem sido muitos os momentos particulares dignos de registo), mas por certo com a nossa curiosidade ainda mais aguçada do que quando soubemos pela primeira vez da existência do projecto, dado o potencial verificado: um verdadeiro caldeirão de ideias e possibilidades. Foi, aliás, isso mesmo que as actuações seguintes (em Coimbra, no Salão Brazil, e Lisboa, no Hot Clube) viriam a enfatizar: se, por um lado, a interpretação da peça amadureceu consideravelmente, tornando-se bastante mais focada, foi também, por outro, apontada toda uma nova série de caminhos para possíveis colaborações futuras entre os músicos envolvidos (e não apenas no contexto deste ensemble, para o qual Melo Alves tenciona continuar a escrever) – e só isso, muitas vezes, vale mais do que uma performance em público a roçar a perfeição.

Foi o despontar de uma série de cumplicidades artísticas que esperamos ver em breve retomadas e mesmo expandidas. Algumas delas são, pelo que nos foi possível depreender, casos muito, muito sérios. (J.E.S.) 

Fail Better! & Théo Ceccaldi

Pedro Melo Alves 

Mark Dresser e Eve Risser

In Igma

Marcelo dos Reis

Théo Ceccaldi

Luís Vicente

O segundo concerto do ciclo Jazz no Parque apresentou uma nova colaboração inédita, reunindo o quinteto português Fail Better! com o violinista francês Théo Ceccaldi. O grupo nasceu do encontro entre os elementos da primeira versão do Frame Trio (Marcelo dos Reis na guitarra, Luís Vicente no trompete e José Miguel Pereira no contrabaixo), com duas figuras da cena musical portuense: o saxofonista João Guimarães, músico ligado ao jazz, e o percussionista João Pais Filipe, figura da música improvisada. O grupo estreou-se em 2014 com o disco “Zero Sum” (JACC Records) e em 2016 chegou ao segundo volume, “Owt”. Entretanto, as suas coordenadas geográficas foram alteradas: saíram os portuenses Guimarães e Pais Filipe, substituídos por dois músicos da cena lisboeta, Albert Cirera (saxofones tenor e soprano) e Marco Franco (bateria). Tem sido esta formação a apresentar-se ao vivo, mantendo as mesmas linhas que definiam o som do quinteto: improvisação livre com elementos jazzísticos e de outras proveniências.

Esta colaboração com o violinista francês – que em breve se vai apresentar no festival Jazz em Agosto com o seu grupo Freaks – não era uma completa surpresa, uma vez que alguns dos músicos já têm um passado histórico de colaboração. Marcelo dos Reis e Luís Vicente têm desenvolvido fortes ligações com diversos músicos da cena europeia, parcerias que se têm traduzido em concertos e gravações de diferentes projectos. Com Théo Ceccaldi, Reis e Vicente integram o Chamber 4, quarteto que se completa com o irmão Valentin Ceccaldi e que já editou dois discos - “Chamber 4” (FMR, 2015) e “City of Light” (Clean Feed, 2017). Todas estas configurações são marcadas por uma mesma marca comum: trata-se sempre de música criada no momento, pura e sem rede.

No campo de ténis de Serralves o grupo apresentou a sua improvisação sem regras ou indicações pré-definidas, assente apenas na criação e na comunicação musical no momento, em tempo real. O concerto arrancou de forma tranquila, com espaços amplos e intervenções contidas. O sexteto foi desenvolvendo um fluxo sonoro comum, até a intensidade aumentar. A música atravessou diferentes ambientes, seguindo as típicas estratégias da improvisação livre, de diálogo, acção-reacção, frase e resposta, trabalhando num espaço democrático onde cada músico podia seguir a sugestão anterior ou propor novas ideias, por vezes em contraste.

Apesar de globalmente discreto, o violino de Ceccaldi exibiu pontualmente a sua qualidade técnica, particularmente em momentos de maior exuberância nos quais se destacou dos outros instrumentos, mas o francês teve a elegância de assumir o seu lugar como “one of the guys”, apenas mais um músico a contribuir para a dinâmica do colectivo. Individualmente, destacaram-se ainda o trompete de Vicente, que mostrou a expressividade melódica do seu sopro, os saxofones de Cirera (versatilidade e criatividade por meio do uso de técnicas extensivas, incluindo a utilização de um tubo no tenor) e Reis (também aplicando preparações nas cordas da guitarra, incluindo um pequeno martelo). O primeiro tema, que teve a duração de cerca de 45 minutos, mostrou o grupo coeso, com a música a evoluir de forma orgânica, em desenvolvimento lento e seguro, sem choques abruptos.

Após a apresentação da banda, por Marcelo dos Reis, surgiu uma segunda peça, com a duração de cerca de 30 minutos. Nesta observámos mais oscilações, mais altos e baixos, contrastando com a fluidez do primeiro tema. O sexteto desenvolveu diferentes situações e interligou texturas e formas melódicas mais assumidas, naquilo que foi uma música mutante, em permanente evolução e transformação. No final, o público aplaudiu com evidente entusiasmo. Entre as diversas reaccões ouviram-se elogios à criatividade dos músicos e à capacidade de irem para além da natureza típica de cada instrumento. (N.C.)

No próximo dia 20 de Julho o Jazz no Parque continua com o também inédito encontro de dois duos, o dos portugueses Ácidos (André Calvário e João Sousa) e dos alemães About Angels and Animals (Julius Gabriel e Jan Klare), em combinações de jazz e rock que estarão sob o signo, ainda e sempre, da improvisação e da imprevisibilidade.