Jazz no Parque / Barreiro, 2 de Julho de 2019

Jazz no Parque / Barreiro

Cultura para todos

texto Gonçalo Falcão

A jazz.pt assistiu ao parto de mais um festival. Com o mesmo nome do ciclo de jazz de Serralves e uma programação não muito distante da do Hot Clube, momentos especialmente gratificantes foram proporcionados pelos TGB e pelo Sexteto de Jazz de Lisboa. Gratuitos e com assento na relva do jardim.

É sempre com agrado que vemos aparecer um novo ciclo / festival em Portugal. São tantos quantos os airbnbs, mas isso não constitui um problema. O Barreiro já tinha uma excelente festa musical, o Out-Fest - Festival de Músicas Exploratórias, um dos mais interessantes e originais festivais do País. Aparece agora o Jazz no Parque, um acontecimento que não parece querer mais do que oferecer umas noites agradáveis aos barreirenses, com um nome igual ao de Serralves e programação parecida com a do Hot Clube. Dada a fasquia criada pelo “Out”, o programa do “Parque” desiludia, mas como quem toca são os músicos e não os cartazes, fomos lá ver.

Os ditos músicos tocaram num palco com excelentes condições e som, instalado no parque da cidade. Agradável revelação: um jardim excelente que parece ter já conseguido aliciar vários passeantes de noites quentes. A palavra jazz por vezes funciona como sinónimo de cultura e o presidente da Câmara do Barreiro dizia-nos, no texto de apresentação do festival, que este é uma aposta «na cultura para todos». Pelo menos não é feito para turistas, que são a razão de existir de Portugal e a quem tudo devemos dedicar.

Confirmamos que a gratuitidade dos concertos atraiu muitos “todos”, mas o reverso dessa medalha foi o facto de esses “todos” serem um público que não assumiu um compromisso com a música e que foi para ali para encontrar amigos, passear as crianças, apanhar ar, conversar e aproveitar as barraquinhas de “street food” que acolitaram os bebes com comes. É pena nunca se ter estudado com profundidade esta relação: quem vai ao teatro porque é de borla não volta necessariamente quando é a pagar, pois o teatro, a música, a dança, o cinema e várias outras manifestações culturais não se instalam por contacto epidérmico. Mesmo quando o teatro, a música, a dança e as outras manifestações culturais são propostas num formato de fácil aceitação. A gratuitidade é, também, prejudicial porque alimenta a ideia de que este tipo de criações não deve ser pago.

Os concertos do Jazz no Parque barreirense aconteceram em desconforto, o que também proporcionou a pouca atenção e dedicação à música: 10 pufs para os 10 primeiros a chegar e o resto assistiu de pé ou experimentou a sumaúma do chão. Apesar de o programador, o pedagogo e baterista Jorge Moniz, não ter propostas inovadoras e originais que pudessem dispor ouvintes mais interessados a carros e viagens, é justo dizer que todas as escolhas foram de qualidade e que o jazz português não foi esquecido. Fomos à primeira e à última das três noites do evento.

 

Memória em recuperação 

Para inaugurar a primeira edição foram programados dois concertos consecutivos. Nesta noite inicial o destaque vai inteirinho para o Sexteto de Jazz de Lisboa, que ressurgiu recentemente para voltar a tocar alguns temas que mereciam regressar à vida pública. Mas vamos ao início: o festival começou ligeiro com o trio de Bobo Stenson, que depois dos discos promessa dos anos 1970 (a acompanhar Jan Garbarek e Terje Rypdal) se tornou desinteressante. Nem tudo o que se publica na ECM brilha e Stenson é um daqueles casos que nunca me fizeram guardar um disco. No Barreiro, o sueco deixou-se ouvir. Ele toca bem, o trio toca bem, mas o repertório que misturava “latin jazz” com Bartok em composições previsíveis obrigou-nos a pedir um café para tapar o bocejo. Uma boa versão de Don Cherry animou a noite. Caiu-nos bem, mas não se consegue dizer muito mais. Um cipreste também é bonito.

Aplausos de cortesia para o trio nórdico e avançámos para o sexteto alfacinha. Formado no início da década de 1980, gravou em 88 um LP solitário que fixou a qualidade do grupo (na altura com Tomás Pimentel e Mário Laginha a partilharem a composição). O grupo integrava ainda Edgar Caramelo, Jorge Reis e os irmãos Mário e Pedro Barreiros. António Curvelo e Manuel Jorge Veloso têm feito um trabalho importante na recuperação da memória do jazz e do Hot Clube e foram eles quem promoveu (provocou) a reunião do grupo, com Ricardo Toscano no lugar de Reis e Francisco Brito no de Barreiros. “Muda”, de Pimentel, soou maravilhosamente novo e os outros temas mantêm uma actualidade que justifica esta revisitação, que não é só um “saudável exercício de nostalgia”. O sexteto tem tocado em inúmeros festivais (Culturgest, Guimarães, São Miguel, Angra do Heroísmo, Festa do Avante) e a aparição no Barreiro foi mais uma hipótese de ouvir o grupo histórico.

Faltámos ao sábado em que tocou o trio de Jakob Bro. A motivação para voltar a ouvi-los poderia ser a presença de Joey Baron na bateria (no trio anterior estava entregue a Jon Christensen) e o prazer de ouvir Thomas Morgan ao vivo, sempre gigantesco. O serão fechou com o quarteto de Ricardo Toscano, que não pára de be-bopar por todo o lado e ainda bem: os grupos precisam de tocar e este quarteto extraordinário deve ser ouvido.

Máquina bem oleada

 

Domingo, dia de encerramento, anunciava também dois concertos. O primeiro, à tarde, do quarteto de Eduardo Cardinho. O jovem vibrafonista é um nome a reter, com dois discos já editados. João Barradas no acordeão, André Rosinha no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria acrescentam argumentos ao quarteto. Fomos só à noite, ao concerto dos TGB, que têm um disco novo (“III” ou “Volume III”, como lhe chamou Mário Delgado). É, para mim, o melhor dos três TGBs e o concerto foi, quase até ao final, o alinhamento do disco. A combinação de tuba, guitarra e bateria e a eloquência de Mário Delgado, Sérgio Carolino e Alexandre Frazão fazem deste trio um sério caso internacional. A máquina está bem oleada e em funcionamento há 15 anos.

Sendo verdade que o Jimmy Giuffre Trio, com Jim Hall, deu o primeiro passo, foi John Zorn, em 1988, com “News For Lulu”, que revelou as potencialidades deste formato curto e da perfeição das ligações de uma guitarra eléctrica (Bill Frisell) com um metal pesado (o trombone de George Lewis). Carolino não trombona, tuba, mas toca com a facilidade de um trompete sem retirar a personalidade grave ao seu instrumento. Tem uma imensidão de recursos e neste último disco usa-os da melhor maneira. Apesar do som grave, a tuba não faz apenas de baixo, neste contexto é também um instrumento melódico e o trabalho de uníssono com a guitarra e depois de separação das duas linhas musicais tem um encanto especial. A bateria de Frazão (os trios de Zorn e de Giuffre não tinham bateria) faz o grupo afastar-se de qualquer referenciação exagerada e dá uma pulsação roqueira suave muito importante. Mário Delgado começou no dobro e passou para a guitarra eléctrica. Foi um prazer ouvi-lo neste contexto quase rockeiro, que por vezes evoca a música dos Morphine.

 

Até doerem as mãos 

Barradas e Toscano vêm da margem Sul, Cardinho de Leiria: o jazz está cada vez mais por todo o País e escolas como as do Barreiro provam, através destes músicos, o bom trabalho que fazem. Assim creio que se justificou em pleno a ideia de dar o palco da tarde de sábado à Big Band da Escola de Jazz do Barreiro, que já tem 10 anos de história. O concerto centrou-se na produção “made in Barreiro” e nele participaram membros da família jazzística local como Luís Cunha, Francisco Andrade, Iuri Gaspar, Beatriz Nunes e Rita Maria. Este é o tipo de iniciativas que muitos festivais têm sabido promover, de envolvimento com as escolas e orquestras locais e que são muito importantes e de aplaudir até doerem as mãos.

Foi uma primeira edição a que esperemos se sigam outras melhores, com propostas que movimentem barreirenses e vizinhos. Ficam os nossos votos de que a iniciativa consiga encontrar um caminho que acrescente novidade e interesse ao panorama dos festivais portugueses.