Festa do Jazz, 10 de Junho de 2019

Festa do Jazz

Sob o signo da diversidade

texto João Esteves da Silva fotografia Sons da Lusofonia

Na segunda edição depois da saída do S. Luiz, a festa do jazz português centrou-se no Capitólio e, como sempre, combinou concertos (cobrindo o largo espectro dos “jazzes” que por cá se praticam) e concursos de escolas. Aqui se fala do que ali aconteceu no segundo dia, que foi também o segundo do mês de Junho…

Acontecimento único no panorama das músicas improvisadas em Portugal, a Festa do Jazz há muito se estabeleceu como ponto de encontro privilegiado entre músicos, estudantes, produtores, críticos ou aficionados.  Desde que deixou de figurar na programação daquela que fora desde o início a sua morada, o Teatro Municipal S. Luiz, a Festa tem vindo a reinventar-se, algo que ficamos a dever ao trabalho da equipa da Associação Sons da Lusofonia, que promete em breve recolocá-la nos patamares (no que toca à dimensão do evento) de outrora ou mesmo excedê-los. Em todo o caso, tais vicissitudes em nada comprometeram aquilo que, no final de contas, mais importa: a qualidade musical.

Uma vez mais, foi-nos apresentado um cartaz que fez justiça à cada vez maior diversidade de estéticas e tendências que vamos podendo encontrar entre nós: desde o maior vanguardismo (se é que ainda faz sentido usar tal termo nos dias que correm) dos Old Mountain de Pedro Branco e João Sousa ou do trio de Luís Vicente ao jazz português de Isabel Rato ou ao jazz vocal bem presente de Manuel Linhares, passando pelo quarteto do jovem Diogo Alexandre (já um dos maiores bateristas nacionais) e o Ensemble Festa do Jazz, este último por si só ilustrativo desta multiplicidade de direcções possíveis. A par dos habituais concursos das escolas, vindas de vários pontos do País, houve ainda lugar para a terceira edição dos Prémios RTP / Festa do Jazz, elegendo desta feita (com inteira justiça, diga-se) Rodrigo Amado (Artista do Ano), Tomás Marques (Artista Revelação), os Lokomotiv de Carlos Barretto, Mário Delgado e José Salgueiro (Grupo do Ano) e a Orquestra Jazz de Matosinhos (Prémio de Mérito). Pudemos constatar que a Festa do Jazz está viva, que se recomenda e que, acima de tudo, merece que a apoiemos todos, sem excepção. 

Fora e dentro

 Diogo Alexandre Quarteto

Rodrigo Amado

Old Mountain

Luís Vicente

Hugo Antunes e Pedro Melo Alves

Apenas nos foi possível assistir ao segundo dos dois dias (1 e 2 de Junho) de concertos no Capitólio, ficando aqui a reportagem… As prestações do segundo dia abriram, ainda ao ar livre, com o novo trio de Luís Vicente, ao lado de Hugo Antunes e Pedro Melo Alves. Foi desde logo notório o belíssimo entendimento entre os dois últimos, parceiros já noutras aventuras (como o trio Symph) e intérpretes ideais das composições muito abertas do trompetista. Consistindo sobretudo em simples motivos ou linhas melódicas, quer líricas quer, por vezes, mais dissonantes, quais aforismos sonoros, a escrita de Vicente tinha como principal propósito o de fornecer um terreno para o desenvolvimento de improvisações mais livres, mas sempre com o material de que partiam e a que volta e meia regressavam no horizonte, mesmo quando longínquo.

Foi um “gig” assaz feliz, com a música a resultar orgânica e desenvolta. Explorando o som dos seus instrumentos de diversas maneiras, os três, que tanto funcionaram em trio como se foram desdobrando por diferentes solos e duos,  notabilizaram-se particularmente ao nível da gestão das dinâmicas: contrariando quase sempre os caminhos mais óbvios, não raras vezes se ouviam “fortes” mais ou menos serenos ou “pianíssimos” fervilhantes. Com o passar do tempo, o aglomerar das várias ambiências percorridas (algures entre o free jazz e a livre-improvisação europeia e até um certo minimalismo e uma música de cariz tribal) e respectivos contrastes deixou no ar a impressão de uma homogeneidade compacta, crua, mas repleta de subtilezas.

Seguiu-se, já na sala principal, a actuação do quinteto de Isabel Rato (+ convidados), que aqui apresentava o seu álbum mais recente, “Histórias do Céu e da Terra”, lançado já este ano pela Nischo, selo discográfico que em boa hora veio proporcionar novas oportunidades de edição a artistas do nosso meio. O trabalho da pianista e compositora inscreve-se declaradamente (a própria fez questão de o salientar durante o concerto) na corrente – ou conjunto de correntes – contemporânea que tem procurado cruzar as tradições folclóricas locais com processos de improvisação jazzísticos, muitas vezes apostando também em arranjos sofisticados e de pendor mais clássico. O sucesso (muito variável) de tais empreendimentos depende em larga medida da sensibilidade estética do líder, bem como das suas qualidades composicionais. Estas felizmente não faltam no caso de Rato, sendo o resultado uma música bela, bem escrita, em parte identificável com o “jazz português” surgido nos anos 1980 e, sobretudo, 90, com um gosto que diríamos mediterrânico ou até arabizante.

Entre os seis temas apresentados, foram talvez os instrumentais que mais captaram a atenção deste ouvinte, com destaque para as passagens mais contrapontísticas protagonizados por João Capinha e João David Almeida ou a pequena pérola “Solstício”, peça para trio de saxofone, piano e contrabaixo (ao qual no disco se junta um quarteto de cordas), próxima do trabalho mais camerístico de Avishai Cohen, “Almah”. À frente de um grupo muito competente, com um som limpo e cuidado, a pianista mostrou-se sempre segura, evidenciando-se principalmente num belo par de introduções a solo ou no modo generoso como contribuía para colar os vários elementos em jogo. 

Escolhidos a dedo

 

João Barradas

Manuel Linhares

Francisco Andrade

Ensemble Festa do Jazz

Pedro Melo Alves

Chegou, por fim, a vez de um novíssimo Ensemble Festa do Jazz (septeto com saxofones alto e tenor, trompete, guitarra, piano, contrabaixo e bateria), composto na sua grande maioria por músicos da nova geração, reunido para interpretar composições que, ao longo de uma dúzia de anos, tinham vindo a ser encomendas pela direcção da Festa a alguns dos principais compositores nacionais ligados ao jazz (e não só). Foram no total 10 as peças interpretadas, cinco em cada uma das duas partes do concerto (no qual se assinalava ainda a recente criação da Rede Portuguesa de Jazz), cada qual com uma formação diferente, mantendo-se apenas fixo o trio de base composto por João Grilo, Demian Cabaud e o incansável Pedro Melo Alves. Note-se que o desafio proposto por Carlos Martins aos músicos ia no sentido de uma leitura irreverente das partituras escolhidas, uma verdadeira recriação destas, bem no espírito das tradições que têm no seu cerne a improvisação.

Depois de uma primeira parte algo morna, em parte pelo facto de o referido trabalho de recriação (ou desconstrução) se ter revelado ainda um pouco tímido, mas sobretudo pelo próprio repertório que tinham em mãos, a segunda trouxe-nos um septeto renovado, bem mais audaz, que proporcionou alguns dos melhores momentos desta edição da Festa. Destacaram-se a peça do trombonista Paulo Perfeito, com as suas linhas angulosas a fazer quase lembrar as escritas de Tim Berne e Michael Formanek, ou os arranjos dos temas de Afonso Pais (“Subsequências”), Carlos Bica (o enérgico “Deixa Para Lá” popularizado pelo trio Azul) e André Fernandes, tendo este último terminado com uma improvisação colectiva que deixou água na boca.

É de aplaudir todo o trabalho do grupo (com muito pouco tempo de preparação, note-se), rigoroso na leitura e, sobretudo na segunda parte, sem receio de abraçar o risco criativo. Valores já mais que seguros como Pedro Branco, um dos principais responsáveis pela salutar revolução verificada depois das substituições ao intervalo, ou João Mortágua estiveram em especial evidência, mas sobressaíram também, entre outros, caras novas como o trompetista João Almeida (excelente solo no tema de Bica, construído em torno de variações da melodia principal) ou o próprio Grilo. O pianista, escolhido a dedo por Melo Alves (que, uma vez mais, acertou na mouche neste capítulo) foi, aliás, talvez a grande revelação desta Festa do Jazz: tecnicamente evoluído e revelador de uma erudição musical assinalável, brindou-nos com solos que diríamos dignos de um Matt Mitchell e forneceu ao som do conjunto algumas das suas cores mais interessantes.