The Necks, 23 de Maio de 2019

The Necks

Na primeira linha

texto João Esteves da Silva fotografia Vera Marmelo

O trio The Necks voltou a Portugal neste mês de Maio para dois concertos, em Braga e Lisboa. A jazz.pt foi ouvi-los à Culturgest para perceber que, 30 anos passados desde que Chris Abrahams, Lloyd Swanton e Tony Buck se juntaram, o projecto continua na linha da frente.

Numa altura em que celebram 30 anos de actividade, The Necks apresentaram-se na Culturgest no passado dia 16 de Maio, após uma passagem por Braga (gnration) no dia anterior. Já desde 2010, quando Pedro Santos os trouxera ao Maria Matos, que o trio australiano não actuava em Portugal. Há muito se esperava, portanto, pelo regresso daquela que foi já muito justamente considerada «uma das melhores bandas do mundo» (New York Times) em qualquer género musical e que, além da riquíssima discografia, é conhecida por proporcionar algumas das melhores experiências musicais ao vivo a que vamos tendo acesso por estes dias.

Um concerto dos Necks – como, aliás, a escuta atenta de um dos seus discos (o mais recente, “Body”, figurou na lista dos melhores de 2018 da jazz.pt) – é uma experiência deveras imersiva, como se o ouvinte se visse absorvido pelo fluxo sonoro por eles gerado, vendo-se assim interrogado o próprio sentido da habitual dicotomia sujeito-objecto.

«Na sua forma de trabalhar há zero ensaios, preparações ou discussões, nenhum plano antes de subirem ao palco e começarem a tocar», lia-se no programa do concerto, e, no entanto, não é fácil apontar formação reveladora de tamanha unidade estética e consistência criativa. Se, por um lado, os materiais utilizados, sempre meticulosamente conjugados, são identificáveis com fontes tão variadas quanto, entre outras, a música “ambient”, o minimalismo nas suas mais diversas vertentes (de Steve Reich a Terry Riley), um certo jazz ECM dos anos 1970 e 80 com ligações à folk norte-americana, o krautrock ou o space rock, a música clássica indiana, a livre improvisação europeia, bandas sonoras de cariz mais experimental ou até algumas formas de “sound art”, a sua abordagem composicional é bastante específica. Abordagem esta que assenta na construção do referido fluxo, tão subtil quanto visceral, em lenta mas (quase) permanente mutação, algo que podemos igualmente verificar na forma como o trio se tem vindo a reinventar desde os seus primórdios até hoje, preservando ainda a mesma vitalidade de sempre.

O entendimento entre os músicos é assombroso: tudo flui, nada sai forçado e todos se envolvem na sugestão de ideias, sendo em grande parte desse equilíbrio que advém o impacto do resultado final. Instrumentistas virtuosos, sem dúvida, Chris Abrahams (piano), Lloyd Swanton (contrabaixo) e Tony Buck (bateria e percussão) de modo algum procuram exibir o seu virtuosismo, muito pelo contrário. Este faz-se, contudo, notar na serenidade e no critério com que se lançam no processo de composição em tempo real, explorando os mais simples motivos até às últimas consequências numa aplicação perfeita da lógica “less is more”: algo tão frágil quanto um par de frases esparsas do piano, uma linha de baixo com três ou quatro notas – ou um “drone” com o arco – e uma pulsação levíssima vão-se gradualmente adensando a ponto de se metamorfosearem num imponente edifício.

Não se tratando de música “drone” no sentido mais comum do termo, o equilíbrio entre a repetição e a variação de padrões ou fragmentos melódicos (ou até meros blocos de som) acaba por simular esse efeito ao fim de um certo tempo. Tempo que se vê aqui, por assim dizer, estendido bem para lá do habitual, originando quase que uma ilusão de espacialidade, no seio da qual o mais ínfimo detalhe ganha toda uma nova força.

Dividido em duas partes compostas por uma peça cada, cada qual destinada à exploração de diferentes facetas do trio, o concerto presenteou-nos com mais uma aplicação exemplar deste método (ou, melhor dizendo, não-método ou quase-método), sempre notável ao nível da gestão das dinâmicas e dos “tempi”. Ao passo que a primeira se desenvolveu fundamentalmente em torno dos materiais introduzidos pelo piano numa longa abertura a solo, a segunda viu a bateria e o contrabaixo tecerem as estruturas que viriam a servir de base para o que se seguiria. Quanto a passagens particulares, destaque para um “accelerando” vertiginoso a meio da primeira peça, que por certo se fez sentir entre a assistência de modo assaz literal ou, já na segunda, um momento de suspense cortado de súbito por um ataque violentíssimo do pianista, que se retirara por instantes, e que poderá até ter surpreendido os mais fiéis seguidores da banda.

De notar que, em termos individuais, nenhum dos músicos se afastou muito dos papéis mais convencionalmente atribuídos aos seus respectivos instrumentos: Abrahams, principal responsável pela cor, pelas harmonias, vai beber sem complexos a, diríamos, Scriabin, os impressionistas, Feldman ou Keith Jarrett, por exemplo; Swanton é uma âncora irrepreensível e Buck, que não raras vezes se desdobra em múltiplas tarefas em simultâneo (e.g.: a um “beat” minimal vai acrescentando várias camadas de som complementares, quer regulares quer irregulares, e com diferentes texturas), um verdadeiro motor – ao vivo, o baterista foi talvez aquele que mais impressionou, tal a destreza com que levava a cabo todo este “multitasking”.

E, no entanto, ao subverterem muitas das suas principais lógicas de articulação interna, a conjugação dos três afasta-se largamente daquilo que se esperaria de um clássico trio de piano jazz, testando assim os limites de um formato que, década após década, vai continuando a oferecer ínfimas possibilidades. Trinta anos volvidos, The Necks continuam na primeira linha.