Portalegre JazzFest, 9 de Maio de 2019

Portalegre JazzFest

Uma festa cada vez mais especial

texto Gonçalo Falcão fotografia Luís Filipe Catarino / 4SEE

A cidade do Alto Alentejo recebeu neste início de Maio mais uma edição do seu festival, no ano que corre com um programa em que o protagonismo pertenceu às mulheres e a qualidade musical foi de regra (foto acima: Marc Ribot). Aqui se dá conta do que aconteceu…

A festa do jazz de Portalegre mantém-se um segredo bem guardado, mas a porta do castelo está entreaberta. Mesmo sendo uma festa secreta, quase sem divulgação, é cada vez mais um ponto de encontro para um fim-de-semana especial: amigos de Lisboa, do Porto, alguns noruegueses, alunos Erasmus a desenharem os concertos, espanhóis e devotos do jazz nórdico já são em número suficiente para se distinguirem no “lobby” do Centro de Artes e Espectáculos.

Toda a gente vem ao mesmo: uma programação muito interessante e sempre com novidades, banhos de cascata no rio Sever, uma esplanada ribeirinha acolitada por gente muito dotada para a restauração, conversas fáceis com os músicos, bom vinho e enchidos (gentil oferta dos produtores locais), passeios a Marvão e o prazer de andar numa cidade capital de distrito lindíssima, pedonal, com um dos mais bonitos cafés do País, amizades que se estreitam nestes momentos fora do tempo. A festa é isto tudo e é mais.

Os festivais de música há muito que deixaram de ser apenas uma oferta cultural, são uma forma de afirmação dos territórios, um modo de construir uma personalidade e de se apresentarem ao exterior (descontado o exagero da comparação, apenas para clarificação desta ideia, o Festival de Montreux foi o primeiro a mostrar esta realidade: ninguém sabe onde é que fica ao certo, mas toda a gente conhece o nome da cidade e a reconhece como um local sofisticado, alegre e cheio de música). Nesta ordem de ideias, a única coisa que falta ao Portalegre JazzFest é promover a “Fest”, não só para ganhar mais público, mas principalmente para afirmar a cidade e toda a oferta da região por comparação com outros locais no Alentejo. Tendo em conta a música que lá toca, esta festa, se bem divulgada, facilmente esgotará e a cidade talvez se venha a orgulhar da música singular que lá acontece.

Beibes

Há uma característica desta 16ª edição que se destaca: em 2019 tivemos uma festa de mulheres. O programador Pedro Costa explicou que não foi uma decisão premeditada e que não tem nada que ver com necessidades de “gender equality”: é que neste momento há imensas mulheres com projectos musicais interessantes. Aceitamos que assim é, mas um festival de jazz de mulheres, num território machista como o jazz, não é uma má ideia nem um causa fortuita. Sem ser uma decisão premeditada, não deixa de ser um sinal dos tempos: cinco grupos, três dos quais liderados por mulheres, o que tem significado quando no jazz há uma clara predominância masculina. 

Um tipo sozinho com uma guitarra escalavrada

 

O primeiro a subir ao palco foi Marc Ribot, um músico solitário com uma guitarra que não parecia estar bem de saúde. Visto da plateia, o instrumento era um pedaço de madeira organizado em forma de guitarra, que já teria pertencido a Robert Johnson e que sobreviveu com mazelas aos “freight trains”. Ao tocá-la, porém, a guitarra soou incrivelmente bem. Ribot começou introspectivo, dobrado sobre a dita, como se a quisesse proteger. Foi descobrindo músicas, tocando uma, depois outra, numa sequência das canções que gosta de tocar, sem coerência ou lógica que não as suas: rags, blues, “standards”, milongas, canções da sua vida de “sideman” em contextos tão díspares quanto os que teve com Tom Waits, Lounge Lizards, Robert Plant, Caetano Veloso, Laurie Anderson, John Zorn, McCoy Tyner, James Carter, Brother Jack McDuff, Wilson Pickett, Rufus Thomas e Chuck Berry.

Um modo de tocar sujo, sem preocupações de perfeição, centrado nas canções, na sua beleza e no modo de lhes extrair todas as emoções. Depois de um início tímido, a guitarra aqueceu e as canções começaram a fluir. A versão de “Salt Peanuts” levou o concerto à mestria, pois é difícil imaginar uma releitura tão contemporânea mantendo o clássico respeitosamente tratado. Ribot toca muito e não é difícil encontrá-lo em tournée. Desde 1992 que já o ouvi várias vezes em diferentes contextos: este foi o melhor concerto de todos.

Finalizado o concerto principal, o “foyer” do CAE encheu-se com provas de vinhos, pão, queijos e enchidos da região e com uma feira do disco da editora Clean Feed.

Contrabaixista ao volante

 

Mimado o palato com os petiscos locais, a festa transferiu-se para o primeiro andar do CAE, onde há mesas para outras bebidas agradáveis. O palco estava montado para Caterina Palazzi e os Sudoku Killers apresentarem o seu novo CD, “Asperger”. O grupo veio de furgão até ao festival, onde terminou um mês de digressão pela Europa. O disco (já foi revisto pela jazz.pt: https://jazz.pt/ponto-escuta/2018/05/04/caterina-palazzi-sudoku-killer-asperger-clean-feed/) é uma obra longa que passa por vários ambientes musicais. A contrabaixista italiana é também uma compositora muito interessante que usa formas musicais feitas de motivos obstinados e repetições, numa história que passa por diferentes ambientes e intensidades.

Fundada sobre estruturas de rock, a peça tocada em quarteto (Caterina Palazzi: contrabaixo; Sergio Pomante: sax tenor; Giacomo Ancillotto: guitarra; Maurizio Chiavaro: bateria) é muito visual, como se fosse a banda sonora de um filme saturado, com cenários abertos em paisagens inabitáveis. Enquanto banda sonora rockeira, tem um enorme sentido de beleza melódica, na melhor tradição da escrita italiana de música para filmes.

O passado num caminho novo

 

Na noite seguinte, 6ª feira, tivemos a segunda banda liderada por uma mulher: mantendo a tradição da presença do jazz nórdico, tocou o Hedvig Mollestad Trio, chefiado pela guitarrista que lhe dá nome. O grupo funciona em dois blocos. Por um lado, o baixo eléctrico e bateria constroem uma teia rítmica progressiva que evoca as experiências do início da Mahavishnu Orchestra ou dos Eleventh House de Larry Coryell. Por cima desta base, a guitarrista toca uns “licks” clássicos a fazer lembrar as melodias colantes de T-Rex: refrões atraentes como mel e solos ácidos, num stoner-glam-jazz muito original. É mais um músico que foi ao passado buscar referências e à procura do que ficou por dizer e que está num caminho novo, numa fronteira entre territórios estafados.

Grande rockalhada de sexta-feira à noite, com solos longos a saírem de uma guitarra com um som descomunal, tocada por uma loira magra vestida de lantejoulas vermelhas. O concerto foi uma longa improvisação, suportada pelos ritmos complexos do baixo de Trond Frønes e da bateria de Ivar Loe Bjornstad. O segundo concerto voltou a pertencer aos Sudoku, tocando a mesma música e possibilitando aos repetentes aperceberem-se das diferentes nuances da peça. 

Razões para gravar um disco

 

Veio a noite de sábado, o último dia da festa portalegrense, e com ela dois concertos no palco principal. O primeiro foi mais uma vez feminino, desta feita com um quarteto que juntou Kaja Draksler no piano, Ada Rave no saxofone Tenor, Mette Rasmussen no saxofone alto e Susana Santos Silva no trompete. O grupo não poderia ser um melhor exemplo dos valores europeus, com uma pianista eslovena a viver na Dinamarca, uma trompetista portuguesa a viver na Suécia, uma saxofonista dinamarquesa a viver na Noruega e uma saxofonista argentina a viver na Holanda. O jazz nunca teve problemas com migrantes, muito pelo contrário, abre-lhes as portas.

O quarteto Hearth aproveitou o Alto Alentejo para fazer uma residência criativa e produzir o seu primeiro CD. Trouxe música nova, tocou todos os dias até ao concerto e apresentou uma peça totalmente “made in Portalegre”. Para além da gravação do concerto o grupo ficou ainda no domingo em estúdio para, em breve, podermos ter o primeiro disco das Hearth pronto a colocar na gaveta do CD. O concerto soou muito organizado - apesar de estarmos em território de improvisação total – e sentiu-se o trabalho feito nos dias anteriores. Cada uma das quatro trazia muitas propostas e ideias para tocar e as restantes confluíram para elas, normalmente formando duos ou trios na sua exploração. Foi por isso, um momento cheio de consonâncias, no qual nem sempre os instrumentos em que se notabilizaram foram utilizados (trouxeram vários objectos sonoros consigo e mesmo os sopros e o piano foram tocados de forma atípica) ao longo da bem organizada sequência. 

Um trio do acaso

 

Depois das senhoras entrou no mesmo palco o novo trio de Carlos Bica. Se há qualidade que temos de reconhecer ao contrabaixista é a competência de montar grupos interessantes e com instrumentações invulgares: no caso, tivemos um contrabaixo, um saxofone e um par de gira-discos. O grupo formou-se quase por acaso: Daniel Erdmann, que vive em França, visitava regularmente o estúdio de Bica em Berlim para umas conversas musicais, enquanto Bica e o DJ Illvibe se conheceram num “workshop”. Mas os acasos só são parcialmente ocasionais: a outra parte deve-se a vontade, a disponibilidade e a trabalho. Assim, o fim de festa fez-se com este novo trio e com as coincidências que o mesmo acabou de lançar num primeiro disco.

O saxofonista toca de modo atraente, com um discurso sintético, focado, simples, sem ornamentação. Sola com excelentes ideias e é capaz de tocar com intensidade, mas só com o sumo da música, fazendo sobressair as melodias e deixando-nos a impressão de que conseguimos sempre seguir o modo como as suas ideias se formam. O DJ Illvibe pega nos gira-discos no ponto em que Christian Marclay os deixou. Usa os discos marcados, sabe o que é que faz soar em cada estria e “toca” com os sons que estão dentro dos LPs, acelerando, retardando, repetindo e usando todas as hipóteses de manipulação. Impressionou pelo rigor e pelo controlo dos sons, juntando-se ao grupo com todo o sentido e não como se fosse um elemento decorativo. A música, melódica e com um lirismo racional, está – tal como com os Azul do mesmo Carlos Bica – a meio caminho entre o jazz e a música popular, com um fluir elegante. 

EN 119 

A festa do jazz de Portalegre faz-se com o esforço (financeiro / pessoal) de uma equipa pequena e voluntariosa que, num golpe de asa, programa e produz um pequeno-grande festival que é um pretexto irrecusável para um fim-de-semana especial. É uma Fest a caminho de ser festa, faltando-lhe ainda o “a” da divulgação para afirmar a cidade e encher seis concertos que anualmente surpreendem e entusiasmam. Esperemos pela 17ª…