Festival de Jazz de Lisboa, 3 de Abril de 2019

Festival de Jazz de Lisboa

Um arranque caseiro

texto Gonçalo Falcão fotografia Estelle Valente

Fomos ao S. Luiz conhecer o festival com que a direcção deste teatro substituiu a anterior Festa do Jazz. O nome escolhido fez-nos crer que seria o equivalente, em termos jazzísticos, ao que o Web Summit é para a cidade de Lisboa, mas encontrámos algo de bem mais modesto. É o que se conta aqui em baixo…

Em Portugal qualquer vão de escadas tem um festival de jazz: dois concertos, um palco e uma aldeia abusam do nome, desvalorizando o jazz e os festivais. Há-os às dezenas. Lisboa não é um vão de escadas: tinha dois festivais e passou agora a ter três (+ um ciclo) e este novo autodesigna-se como o festival da cidade... Dito assim esperava-se uma aposta forte (ainda para mais tendo em conta o historial do espaço em que decorreu, o Teatro Municipal de S. Luiz), mas foi uma coisa pequena e caseira, com altos e baixos.

A relação do jazz com o São Luiz tem mais de 30 anos (obrigado Rui Neves e Luís Hilário pelo esclarecimento de algumas dúvidas): em 1983 ali tocaram Don Cherry com Ed Blackwell e L. Shankar e um duo do então (hoje Abdullah Ibrahim) Dollar Brand com Carlos Ward. Essa não terá, provavelmente, sido a primeira vez que o jazz entrou no teatro, mas é o que a memória para já alcança. Em 1988 teve um novo impulso com a criação do Jazz na Cidade, que envolveu Rui Neves e Rui Diogo (com Luís Hilário na produção): nele estiveram Paul Bley em dueto com Gary Peacock, os Oregon de Ralph Towner e Anthony Braxton em quarteto com Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway. Um luxo. O festival em causa aconteceu de 1988 a 1991 e nalguns casos foi necessário recorrer a outros locais como o Pavilhão dos Belenenses (1988), a Aula Magna e mesmo o Hot Clube (1991, para um solo inesquecível de Miroslav Vitouš).

Os concertos estavam alinhados com o seu tempo e com a ideia de um festival para uma capital europeia, como foram exemplos os de Abdullah Ibrahim Ekaya, John McLaughlin-Trilok Gurtu-Jeff Berlin, Max Roach Quartet, Archie Shepp-Horace Parlan-Niels-Henning Ørsted Pedersen (1988); Dave Holland 4tet com Steve Coleman, David Murray Trio, John Abercrombie Trio, MárioLaginha e Carlos Barretto 5tet (1989);  John Surman Brass Ensemble (1990) e – last but not at all the least – também Geri Allen 4tet e Andy Sheppard Co-Motian Big Band (1991). O entendimento do município sobre o que deve ser um festival de jazz era, como vemos, diferente do actual.

Sucedeu-se o Lisboa em Jazz em 1990. Organizado pelo trio (Carlos) Martins-Neves-Hilário, só teve duas edições (a do ano referido e de 1992), a primeira no São Luiz e a segunda no Maria Matos. Levou ao palco muito jazz português e não só, com Bernardo Sassetti, Mário Laginha, Moreiras Jazztet, Carlos Barretto, Carlos Martins, Cal Viva, Carlos Bica, José Peixoto, Quinteto KAF (de António Ferro), Telectu com Saheb Sarbib, Mário Franco, Zé Eduardo com Tete Montoliu, Orquestra HCP e Maria João com Aki Takase e NHØP, estes últimos a encerrarem a primeira edição com sessão esgotada. Pouco depois, Paulo Martins trouxe até Lisboa os protagonistas da cena “downtown” de Nova Iorque, com John Zorn, Marc Ribot, John Lurie e muitos outros dos que na altura se agrupavam na Knitting Factory. Os discos já se vendiam na Contraverso (Bairro Alto) e essa foi uma ímpar oportunidade de conhecer ao vivo o jazz mais arriscado que se fazia do outro lado do Atlântico.

A partir de 2000 seguiram-se 15 anos de Festa do Jazz, este muito virado para as escolas, uma ideia que começou por ser muito popular (Festa da Música do CCB, etc.), mas que rapidamente perdeu a curiosidade, mesmo tendo em conta os concertos da noite. Reduziram-se os músicos internacionais, com Carlos Martins a dirigir a programação. Depois de um conflito entre a associação Sons da Lusofonia (promotora do dito) e o São Luiz por causa da palavra “Festa” (de quem é, quem é que manda, roupa suja nos jornais, etc.), decidiu a direcção daquele espaço autárquico rever o modelo e usar a designação “festival” para uma programação camarária de jazz: nasceu assim este primeiro “Festival de Jazz de Lisboa”.

Com tal designação, a expectativa era a de que fosse algo que estivesse à escala da cidade que paga o Web Summit. O São Luiz associou-se ao Hot Clube (Luís Hilário e Inês Cunha) e pensou numa programação que – naturalmente - optou pelo jazz mais académico e conservatorial. A Festa do Jazz, essa, está anunciada para Junho noutro local.

Lá para as tantas

 Bernardo Moreira Sexteto

João Barradas com Mark Turner

A abertura fez-se a 27 de Março com a Orquestra do Hot Clube de Portugal a interpretar temas compostos e arranjados pelo baterista John Hollenbeck, que veio da América para tocar com o grupo. Infelizmente, por vezes a vida impõe-se aos planos que se fazem e acabámos por não conseguir ouvir o primeiro dia do festival. Vencidos os imprevistos, chegámos ao São Luiz no dia seguinte, quinta-feira, para dois concertos. O festival optou por este modelo que, se for bem gerido, até poderá funcionar bem, mas não foi esse o caso da desta noite: os atrasos no início e o excesso de tempo do primeiro concerto prolongaram a coisa lá para as tantas.  

Depois de um grupo emblemático do Hot no primeiro dia, a segunda noite começou com... um grupo emblemático do Hot: o sexteto de Bernardo Moreira. Tocaram Carlos Paredes naquilo que é a tentativa de uma justa afirmação de um “songbook” nacional, com compositores como o virtuoso guitarrista, Zeca Afonso e outros que devem figurar num património sempre em revisitação. A relação do contrabaixista com estes temas é antiga: foi apresentada pela primeira vez em Coimbra em 2000 e este concerto prolonga o esforço de retirar o guitarrista do fado e de o apresentar como um compositor de música portuguesa que deve ser tocado e lembrado (o projecto da cravista Joana Bagulho e outros vai precisamente no mesmo sentido). Além de Paredes, ouvimos um excelente arranjo de “A Morte Saiu à Rua”, de José Afonso.

Bernardo Moreira, professor do Hot Clube e peça fundamental de vários grupos à volta dos irmãos Moreira (quinteto, septeto), prolonga a herança contrabaixística do pai com o mesmo primeiro nome e integra com justiça o património musical que o Hot representa. Contudo, apenas nos solos encontrámos uns pedaços de vida. O resto da música desfilou conveniente, respeitosa e organizadamente, estando por vezes demasiado próxima de um inconveniente “jazz’n’fado”. Portugal mudou e, nos dias que correm, tocar bem já é pouco.

Seguiu-se o acordeonista João Barradas. Com 27 anos, o músico já ganhou todos os prémios do instrumento possíveis e imagináveis. Tem tentado apresentar regularmente ideias novas, muito para além da qualidade da execução, num esforço de descobrir um caminho diferente. Ainda não chegou lá, mas são de aplaudir a sua procura e a sua coragem. Impressionante foi o vibrafone de Simon Moullier, que toca com dois pedais, o do vibrafone normal e um pedal de processamento que foi usado com muita inteligência e bom gosto. Acrescenta-se, assim, mais uma qualidade ao currículo de Barradas, que é a de ter ouvido para descobrir excepcionais músicos novos. O que nos leva até à baterista Naíma Acuña, sempre presente na música, com sentido, delicadeza e nunca falhando uma acentuação. Neste concerto ficaram mais evidentes alguns elementos que despontam na música de Barradas: dominaram os padrões repetitivos e as frases rápidas à George Duke no acordeão digital. Mark Turner, o saxofonista americano convidado, ouviu-se pouco. Alguns problemas nos graves das colunas do lado esquerdo afectaram a audição. 

Um copo de água

Filipe Raposo

Coreto

O terceiro dia abriu com Øcre, o novo projecto de Filipe Raposo sobre as cores (tema muito em voga desde que romancistas ligeiros como Kassia St. Clair descobriram a investigação de Michel Pasteureau). Agora que o biorritmo caiu em desuso, o simbolismo das cores é um dos temas quentes e Raposo entra por essa porta sem medos. Ouviram-se melodias doces intervaladas por explicações histórico-conceptuais “light” (incluindo uma sinopse de “A Guerra do Fogo”) numa música fácil e evidente na qual o jazz era só uma desculpa (ou um disfarce). Numa escala de zero a Enya o concerto esteve quase sempre entre o oito e o nove. Tive de sair um pouco a meio para apanhar ar.

Depois da música adoçada de Raposo o palco encheu-se com Coreto, a “big band” da Associação Porta-Jazz. Foi como atravessar o deserto, com a boca gretada e cheia de areia, e encontrar uma pessoa bonita sorridente com um grande copo de água gelada. Finalmente, música estimulante, viva, interessante, muito bem escrita e muito bem tocada, com a sensação de se viver em 2019. Os temas são lógicos e estão cheios de ideias novas, sucedendo-se como um rolo sempre a mudar de direcção. Liderado por João Pedro Brandão, notável saxofonista que escreve e arranja os temas, o Coreto é formado por 12 elementos da nova geração, que vieram mostrar que o jazz não está morto nem tem um cheiro esquisito: é da mais elementar justiça que toquem mais e gravem mais. Ironicamente, o que melhor fez jus ao que se espera de um “festival de jazz de Lisboa” veio do Porto. Puro prazer.

Honesto e transparente

Lifelike

João Lencastre's Communion

O sábado começou com a Big Band Júnior, um projecto didáctico, e seguiu para a noite com o baterista Jeff Williams e o seu projecto Lifelike (Gonçalo Marques no trompete, John O’Gallagher e John Arcoleo nos saxofones e Sam Lassers no contrabaixo). Foi uma boa actuação, mas não deixou marcas particulares. O grupo parecia em serviços mínimos, mas a composição é boa e as execuções foram inatacáveis. Deixou-se ouvir com gosto.

A noite pertencia aos bateristas e, assim, o segundo concerto foi do João Lencastre’s Communion, grupo que já teve várias formações e parece agora encontrar o seu modelo mais interessante, um octeto com duas guitarras eléctricas, dois baixos (contrabaixo e baixo eléctrico), dois saxofones, piano e bateria, com Ricardo Toscano, Albert Cirera, André Fernandes, Pedro Branco, João Paulo Esteves da Silva, João Hasselberg e Nelson Cascais. Há hoje uma deriva pop muito procurada, liderada pelos Snarky Puppy, que passa a ferro o jazz eléctrico dos anos 1970 e o veste com roupas queques, usando o tipo de som e a enorme capacidade técnica dos músicos. Os Communion também usam um som eléctrico que, de algum modo, evoca as experiências desse período de invenção, mas estão num caminho muito mais honesto e transparente, à procura de coisas que ficaram por dizer. Muito som, bem gerido.

Nas guitarras e nos baixos estavam quatro personalidades de relevo na cena nacional: de um lado Branco e Hasselberg e do outro Fernandes e Cascais. Os saxofones intermediavam e a bateria coordenava as mudanças rítmicas. Esteves da Silva nunca quis sair do seu universo discreto e pensativo e pareceu o elemento mais exterior. Para além da bateria de Lencastre, é importante destacar a guitarra de Branco e o saxofone de Toscano como os que mais entusiasmaram. Foi a primeira aparição pública deste grupo que merece ser gravado e tocado neste formato.

O festival esteve quase sempre com a plateia do São Luiz muito bem composta (não vimos Marcelo), com um público generoso e que aplaudiu entusiasmado. Encerrou com a Workshop Jazz Band, num concerto de entrada livre e de encerramento dos “workshops” que se realizaram com jovens das escolas de música locais (???) sob a coordenação do contrabaixista Greg Cohen. É de elogiar a persistência em manter o jazz como parte das preocupações culturais da Câmara Municipal, bem como a aposta no jazz português, inclusive porque temos hoje um enorme número de músicos e projectos. A edição inaugural do Festival de Jazz de Lisboa funcionou como o retrato de um tempo. Foi a primeira tiragem, ficando agora a esperança de que ganhe impulso. Afinal, é melhor começar pequeno e crescer do que rebentar em grande numa manifestação órfã.