Amadora Jazz, 13 de Março de 2019

Amadora Jazz

Foi assim que aconteceu

texto Rui Eduardo Paes fotografia Câmara Municipal da Amadora

O ciclo de concertos organizado pelo município da Amadora abriu este ano o seu cartaz a uma intervenção internacional, a de um largamente ovacionado Marc Copland Trio (foto acima). As participações portuguesas dos TGB e do LUME não estiveram longe na aceitação do público e ainda se ouviu uma GeraJazz mais madura. A jazz.pt conta como foi…

Na sua nona edição, o Amadora Jazz subiu entre os passados dias 7 a 9 de Março a um novo patamar: manteve o mesmo número de dias de duração (três) e a quantidade de concertos dos anos anteriores (quatro, somando-se a habitual matiné dedicada à GeraJazz, banda saída da Orquestra Geração dirigida por Eduardo Lála), mas a programação mais uma vez realizada pelo Jazz ao Centro Clube abriu o seu foco na cena portuguesa do jazz para incluir uma formação internacional de renome, o Marc Copland Trio, juntando-se ao pianista duas das mais importantes figuras da actualidade nos seus respectivos instrumentos, o contrabaixista Drew Gress e o baterista Joey Baron.

A selecção nacional incidiu sobre dois projectos que se notabilizaram pelas pontes lançadas para outros géneros musicais, primeiro os TGB de Sérgio Carolino, Mário Delgado e Alexandre Frazão, numa das primeiras apresentações do seu novo álbum, “III”, e depois o LUME do compositor e pianista Marco Barroso, numa versão em que a ausência de alguns nomes fulcrais anunciados no cartaz, como os de Ricardo Toscano, Miguel Amado ou Vicky Marques, serviu para apresentar músicos jovens de notáveis capacidades, a exemplo de Tomás Marques (19 anos de idade apenas) e Jéssica Pina, de quem muito dependeu que o nível a que esta “big band” nos habituou se mantivesse alto.

No que respeita a colocar o jazz em relação, estivemos bem servidos nas sessões dos Recreios da Amadora: o novo repertório dos TGB tem ainda mais introjecções da folk e do country do que antes lhe ouvimos, e as incorporações pelo LUME do funk, do rock e de certos aspectos da música erudita dos nossos dias ganharam nas peças apresentadas uma sofisticação em que a mistura de idiomas musicais ficou relegada para segundo plano. O realce foi para a série de miniaturas apresentada, todas invocando a mais remota tradição do jazz com “embrulhos” contemporâneos.

A prestação dos TGB no arranque do Amadora Jazz a 7 de Março teve algo de vaudevilliano e de burlesco. Se esse lado da escrita do grupo vem de trás, parece ainda mais evidente na sua presente encarnação: ao longo do concerto ficámos com a impressão de que a qualquer momento estaria para surgir um número de “striptease” ou um “playback” vocal travestido com lantejoulas e purpurina. Quando Delgado colocava um “slide” sobre as cordas da guitarra para desembocar nuns blues “redneck”, Carolino trocava as funções de baixo da sua tuba por intervenções melódicas de uma comovente beleza e Frazão atirava taças tibetanas sobre as peles da bateria, intencionalizando o acidente e lembrando-nos que foi ele o mestre de Gabriel Ferrandini, era o equivalente performativo a essas situações que obtínhamos. O virtuosismo técnico dos três músicos era evidente, mas estava colocado ao serviço da musicalidade e submetia as suas respectivas individualidades às construções colectivas.

Marc Copland

Drew Gress

Joey Baron

TGB

Sérgio Carolino

Mário Delgado

Alexandre Frazão

LUME

Marco Barroso

Paulo Gaspar

Rúben Santos

Se, regra geral, era impossível perceber, na música dos TGB, onde terminava a composição e começava o improviso, o LUME (acrónimo de Lisbon Underground Music Ensemble, para quem ainda não saiba) fez-se valer pela magnífica capacidade de leitura dos seus membros. A escrita de Barroso é intrincada, com súbitas mudanças de direcção, de métrica e de materiais, remetendo-nos para a influência, nela, de Frank Zappa, e exigindo que os seus intérpretes tenham experiência orquestral. No dia 8 como sempre antes acontecia, a improvisação surgiu nos excelentes solos de Paulo Gaspar (clarinete), José Menezes (saxofone tenor), Rúben Santos (trombone), Eduardo Lála (trombone) e as acima referidas revelações do dia, Tomás Marques (saxofone alto) e Jéssica Pina (trompete com processamento electrónico). Estes como que floresciam dos maciços uníssonos dos sopros (12 no total), regra geral em ostinato e staccato, na sua geral agitação continuando as esquizoides montagens que o líder da formação disparava a partir do computador. Pena, só, que o técnico do ensemble tenha falhado com o som da secção rítmica: o piano soou metálico e o baixo e o bombo da bateria empastelaram.

Depois de uma sessão de fim de tarde, no Cineteatro D. João V, com uma GeraJazz em franca evolução (os miúdos cresceram e estão agora com 15, 16 e 17 anos), a desenfreada cavalgada do LUME deu lugar à música tendencialmente quieta de Marc Copland. Com o alinhamento do disco que o trio vai lançar este ano, “And I Love Her”, que passou por temas de John Coltrane, Herbie Hancock, John Abercrombie, Cole Porter e Beatles para além do próprio pianista, o que ouvimos podia estar dentro das molduras “mainstream” cunhadas pelo Bill Evans Trio, mas os conteúdos, ou não estivessem no palco dos Recreios o dito Copland mais Drew Gress e Joey Baron, não podiam ter sido mais extravagantes. O que se notou em particular na improvisação integral que pegou numa deixa rítmica algo “funky” do baterista para tomar consequências que, nesse registo de “groove”, eram imprevisíveis.

Nunca sabíamos o que se seguiria: todos os três intervenientes faziam questão em fugir ao óbvio, e inclusive na assunção dos seus papéis num trio de piano jazz. Ora Gress acompanhava solando, como se estivesse num contexto harmolódico sob a égide de Ornette Coleman, ora Copland se limitava a colar, com motivos recorrentes, o que faziam os seus companheiros, ora Baron pianava com os pratos, ora se adoptava brilhantemente o clássico formato em pirâmide, com o piano em cima e os outros instrumentos constituindo a base: de múltiplas formas, mas nunca ostensivamente, trocavam as voltas à própria matriz musical do grupo. Foi um concerto magistral, com a plateia a levantar-se por duas vezes, antes e depois do “encore”, para rendidas ovações.