Jacqueline Kerrod + Evan Parker + Peter Evans + E. Parker / P. Evans + J. Kerrod / Pedro Melo Alves, 13 de Fevereiro de 2019

Jacqueline Kerrod + Evan Parker + Peter Evans + E. Parker / P. Evans + J. Kerrod / Pedro Melo Alves

Da improvisação como magia

texto Rui Eduardo Paes fotografia Miguel Silva

O ciclo Solilóquios do Yoga sobre o Porto comemorou o seu segundo aniversário com dois dias de concertos que ficarão certamente na memória de quantos a eles assistiram. A 9 e 10 de Fevereiro passado, a magia da improvisação aconteceu na Invicta…

Foram mais de 50 (30 só em 2018) os concertos realizados em dois anos de existência do ciclo Solilóquios, organizado pelo Yoga Sobre o Porto com o formato solo como particularidade distintiva, ora em vez derivando para o duo. Nos dias 9 e 10 de Fevereiro comemorou-se com um cartaz particularmente aliciante o segundo aniversário da iniciativa programada por Luís Baptista: primeiro tocou a harpista sul-africana, radicada em Nova Iorque, Jacqueline Kerrod, que no ano passado ali havia actuado com Anthony Braxton, e depois assistimos a duas intervenções solísticas de Evan Parker e Peter Evans, fechando com ambos a tocar em conjunto. Pelo meio, mas no auditório do Conservatório do Porto, houve ainda oportunidade para ouvir de novo Kerrod, desta feita em dupla formada com o baterista Pedro Melo Alves. Um fim-de-semana em grande na Cidade Invicta.

No final da performance de Jacqueline Kerrod esta confessou-nos que fora a sua estreia a solo no domínio da música improvisada. Não pareceu de todo – a também intérprete dos compositores eruditos do século XX e deste protagonizou um serão que, do primeiro ao último minuto, foi exemplar em termos de foco, sequencialidade e entrega de ideias. Kerrod invocou todas as suas referências enquanto instrumentista, e se de modo muito natural foram surgindo situações que habitualmente conotamos com a harpa, designadamente aquelas firmadas por Debussy e pelos demais autores impressionistas, houve momentos que nos remeteram para o koto japonês ou para a kora africana e surgiram melodias fragmentadas de inspiração “folky”, sempre entrecortados por uma exploração das possibilidades do instrumento, frequentemente com recurso a técnicas extensivas e a preparações. Uma destas consistiu na utilização de esponjas nas cordas, transformando a harpa no que parecia ser um violino.

A actuação decorreu segundo uma lógica de contrastes, por exemplo uma linha de baixo em “drone” articulando-se com rápidos harpejos ou uma frase melódica sendo interferida por súbitas e despropositadas interjeições dissonantes, fora do tempo escolhido ou “out-of-tune”. A perspectiva era inclusivista, deixando que todo o tipo de materiais tivesse permissão discursiva. E se havia a busca de uma fórmula harmónica que colasse tudo o que ia acontecendo, em muitas ocasiões dispensou-se qualquer noção de harmonia, lidando primordialmente com o factor som. Se de uma improvisação se tratava, esta era estruturante, composição instantânea, clarificando a influência que Braxton está a ter nesta vertente da actividade de Kerrod – na noite anterior ela tocara com o octeto do mestre saxofonista em Estocolmo, numa sessão em que também estiveram envolvidas Ingrid Laubrock e a portuguesa Susana Santos Silva.

Todos estes processos e noções colocou-os Kerrod em relação no dia seguinte, domingo 10, num concerto ao meio-dia com Pedro Melo Alves. Foi também a primeira vez que tocou com o músico do Porto, abrindo uma colaboração que continuou no dia 12 de Fevereiro com uma gravação do duo em Coimbra, para o projecto “Conundrum” de Melo Alves (disco de parcerias que será futuramente lançado pela Clean Feed), e que terá apresentação pública em quarteto, no Salão Brazil, com o pianista João Grilo e a cantora Mariana Dionísio na próxima quinta-feira, 14. Os minutos iniciais foram tentativos e de procura, mas quando o espaço de comunicabilidade entre os dois músicos ficou definido algo de especial se proporcionou, com o ambiente da sala a moldar os desenvolvimentos. Antes Kerrod tinha conduzido um “workshop” com as muito jovens estudantes de harpa do Conservatório do Porto e eram estas e as suas famílias a maior parte da assistência. A música foi envolvida por choros e risos de crianças e isso contribuiu para o carácter do evento – poucas vezes uma música feita de texturas abstractas ganha dimensões tão humanas como nesta circunstância. Foi como se vivêssemos um momento John Cage, com inclusão na matéria musical de tudo o que a rodeava. Neste contexto, Jacqueline Kerrod foi especialmente rítmica, libertando Melo Alves dessa função.

A noite começou com o britânico Evan Parker e o seu soprano, numa intervenção no Yoga Sobre o Porto em que se concentrou no uso das técnicas de respiração circular que ouvimos, por exemplo, em discos de transe e «ilusão da polifonia» (palavras do próprio) como “Conic Sections” e “Process and Reality”. Minimalista e complexo em simultâneo, o seu solo reflectiu toda a história deste saxofone, de Sidney Bechet a Steve Lacy, passando por John Coltrane, e projectou-a para diante, aludindo a sonoridades outras como a do launeddas da Sardenha e a do shenai indiano. Nenhuns espaços, notas em catadupa, serpenteando em todas as direcções (minimalismo tornado maximalismo), com uma intensidade que provocou a sensação de deslumbre e sufoco que o numeroso público premiou entusiasticamente no final. No solo seguinte do norte-americano, tornado lisboeta, Peter Evans este manteve o nível de energia, mas optou por outro caminho: se Parker fora concentracionário, o trompetista abriu as perspectivas, intercalando tipos de abordagem muito diferentes – do gutural, em primários exercícios da língua, da saliva, da garganta, como nas ocasiões em que se aproximou da linguagem da “new school” da improvisação, ao mais delirante fraseio do free jazz ou do hard bop. Umas vezes julgávamos ouvir um trombone ou mesmo uma tuba, tão densos e graves eram os harmónicos produzidos, enquanto em outras os altíssimos quase pediam ouvidos de cão.

Mas se os dois solos foram fantásticos, o melhor estava para vir. Juntos, Parker e Evans fizeram o equivalente a uma largada de fogo-de-artifício. É verdade que no passado tiveram outros encontros (oiça-se “Scenes in the House of Music”, com Peter Evans a surgir como convidado especial do Evan Parker Trio, curiosamente gravado no mesmo Porto desta reunião), e é verdade também que já tinham tocado noutras paragens do mundo enquanto dupla sem acompanhamento, mas nem isso explica o grau de entrosamento, a empatia, que imediatamente estabeleceram. Ora um completava as ideias do outro, ora seguiam em paralelo sem intencionar qualquer mínimo denominador comum, mas ainda assim grudando-se incrivelmente nesse percurso, ora de duas mentes faziam uma só, como se ocupassem as metades do mesmo teclado de piano. No ar, o choque das frequências do saxofone e do trompete provocava sons fantasma, “overtones”, como se estivesse presente um terceiro interveniente, alguém que, diante de um computador, os processasse em tempo real.

Quando a festa terminou, depois de dois “encores” e intermináveis ovações, estávamos todos emocionalmente exaustos e ainda sem acreditar no que tinha ocorrido. A música que adjectivamos como improvisada tem a propriedade de criar estes milagres. A série Solilóquios vai continuar e talvez aconteça algo assim novamente – Luís Baptista anunciou que este ano vêm ao Porto, entre outros, Hamid Drake, William Parker, Mark Dresser e Eve Risser.