Beat the Odds + Ikizukuri, 24 de Dezembro de 2018

Beat the Odds + Ikizukuri

Orgia de sons

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O ano terminou a 15 Km de Lisboa, na incontornável SMUP, com dois concertos que parecia nada terem de comum a não ser os processos da improvisação. Os Beat the Odds e os Ikizukuri (foto acima) acabaram por se encontrar a meio na sua tentativa (mais do que conseguida!) de realizar uma festa dos sons: um chegando ao factor ritmo e o outro partindo deste.

E lá aconteceram os dois últimos concertos do ano no “spot” do distrito de Lisboa de que ninguém estava à espera que se tornasse num dos mais importantes do circuito das músicas improvisadas e alternativas no nosso país, porque distando 15 Km do centro da capital – a SMUP, na Parede. As escolhas poderiam, à partida, parecer antinómicas, pois os Beat the Odds trabalham uma música textural e os Ikizukuri têm um vínculo primordial com o “riff”, mas o certo é que as duas prestações, nos passados dias 19 e 21 de Dezembro, tiveram alguns pontos em comum: o grupo transnacional formado por Pascal Niggenkemper, Ricardo Jacinto, Elisabeth Coudoux e Nuno Morão (no lugar da habitual segunda contrabaixista, Félicie Bazelaire, com a particularidade de o percussionista português ter contrariado a exclusiva configuração de cordas do quarteto) levou as suas improvisações vibratórias até um plano poli/micro-rítmico, enquanto o projecto de Julius Gabriel, Gonçalo Almeida e Gustavo Costa derivou do “beat” repetitivo e roqueiro para um tipo de abstracção que indefiniu as fronteiras entre harmonia e ruído.

Vamos por partes. O “setup” que nos esperava no sótão da SMUP para a actuação dos Beat the Odds era bem diferente da habitual: os quatro músicos estavam posicionados ao centro do espaço, em círculo fechado, com as cadeiras do público distribuídas em volta. Os cordofones, um contrabaixo e dois violoncelos, tinham pequenos motores acoplados e cabos de diversas cores a saírem deles. Ao longo da sessão, foram simultaneamente accionados por arcos, pelos dedos dos músicos e por espigões duros ou moles que rodavam como ventoinhas, produzindo uma miríade de sons percussivos nas cordas e na própria madeira, uns subtis e outros com maior evidência. Era como se se tivesse transformado um ensemble de câmara numa formação robótica. Mesmo as peles da percussão, entre componentes de uma normal bateria, tambores norte-africanos e um enorme adufe, foram frequentemente atacadas por dispositivos mecânicos.  O uso sistemático de preparações é o que distingue este projecto, ganhando uma importância tal que poucas vezes ouvimos na ocasião os instrumentos a serem utilizados de modo convencional.

Não se tratava, no entanto, das preparações fixas de John Cage. Durante a actuação, o posicionamento dos motores e de outros objectos (por exemplo, os abajours metálicos que desviavam perigosamente as cordas do contrabaixo de Niggenkemper) era constantemente mudado, na procura de novas situações, e até as falhas comportamentais dos mesmos eram incorporadas / aproveitadas nos fluxos criados. Muito depressa se verificou que o acidente era um dos motivos da própria construção musical, só não se entrando em plena aleatoriedade porque o controlo era constante. Estávamos submergidos num mundo dominado por “gadgets”, com a música a acontecer em jeito de “bricolage” operacional. Em mais do que um momento sentimo-nos como crianças à espreita de uma descoberta. Uma surpresa levava a outra, com a imaginação a ampliar-se de minuto a minuto e o fascínio a instalar-se. Não havia síncopes, propriamente, mas por mais alinear que fosse, o ritmo (em nuvens de muitos liliputianos ritmos) estava lá.

Já o jazzcore (termo aplicado à hibridização do jazz com o metal e o punk) dos Ikizukuri partia do ritmo em vez de aí chegar, sempre com a implacável sustentação baterística de Costa. O fito era, de qualquer modo, que funcionasse apenas como o batimento de coração de um organismo electroacústico que funcionava pela sobre-amplificação das suas partes: os três intervenientes agiram sempre colectivamente, preferindo a massa sonora que resultava da combinação das suas contribuições individuais. Todos os sons electrónicos produzidos por Gabriel tinham origem no que fazia com o saxofone tenor, mas nunca o timbre acústico do mesmo. A ideia era cumprir com o sopro o papel de uma guitarra no rock, com a diferença de que resultava mais humano, mais derivado do próprio exercício da respiração, inclusive quando o saxofonista alemão residente no Porto aplicava técnicas circulares de inspiração e expiração. Por meio do sopro, na relação deste com a pedaleira de efeitos e com o que saía das colunas, era como se se fosse esculpindo no ar uma forma em permanente metamorfose.

Em certas ocasiões foi difícil perceber o que era acrescentado pelo saxofone e o que vinha do baixo de Almeida, pois este parecia nascer dos corpos que se iam formando e desformando. Noutras, era o baixo precisamente que baixava o centro de gravidade do todo, obrigando esses densos, mas precários, corpos sonoros a uma descida à terra com os seus subgraves. Tal como na noite anterior, nunca se parou durante a viagem empreendida, mas percebeu-se que havia estruturas em “open form” e até centros temáticos ou organizativos – na interligação destes o que predominou foi a pertinência das transições, não algum factor de “chorus”. De resto, e nesta circunstância pelo menos, os Ikizukuri mostraram-se como uma banda de música transicional, uma música de trânsito, de percurso, de um ir mais além que nos trocou as voltas e retirou a percepção de que há um começo e um fim para todas as coisas. Foi, pois, com surpresa que o concerto terminou após 45 intensos e barulhentos minutos, com a sensação de que pouco tempo havia decorrido. Ainda que tenha terminado com um corte e não com uma conclusão, mais reforçando a ideia de que se tratava de um instante apenas entre o antes e o depois.

O depois, esse, virá em 2019, que não sabemos o que trará e por isso é que queremos entrar nele, ansiando por outros Beat the Odds e Ikizukuris…