Guimarães Jazz, 22 de Novembro de 2018

Guimarães Jazz

A inevitabilidade das coisas boas

texto Gonçalo Falcão fotografia Guimarães Jazz

O festival da cidade-berço cresceu como só podia acontecer, passando a ocupar 10 dias seguidos. A jazz.pt esteve presente em alguns deles – os possíveis – e aqui vos conta como foi o que ouviu, da autêntica máquina de tocar boa música que é a Mingus Big Band (foto acima) aos Uplift de Dave Douglas.

O festival de Guimarães está em crescimento. Faz parte de um ciclo de cinco grandes eventos culturais que fazem com que a cidade seja, neste momento, um dos principais polos culturais do País, a seguir a Lisboa. O Guimarães Jazz cresceu não porque se realizou em mais dias e com mais concertos – é também a própria ideia do que deve ser um festival de jazz que cresce e que assume uma dimensão ímpar em Portugal. Guimarães é o único caso português de um festival de jazz que não se resume a exibições (concertos / filmes / palestras). O evento é cada vez mais um centro dinamizador e integrador que parte do jazz para construir pontes culturais com outras músicas e outras organizações.

Para além das “masterclasses”, dos “workshops” – liderados por músicos que vêm tocar ao festival e que são integrados em actividades lectivas com os alunos das escolas de jazz do Porto –, dos concertos que animam os espaços sociais da cidade, das “jam sessions” pós-concertos, dos espaços comerciais que usam a imagem do festival numa lógica de promoção mútua, da excelente imagem do festival (que este ano voltou ao nível que já tinha tido e que é exemplar, sem a qual esta promoção mútua não funciona), temos ainda a parceria com a Porta-Jazz, que resulta no apoio a este colectivo independente para a realização de uma residência artística que se concretiza num projecto multi-artístico exclusivo para o festival. Ainda de destacar a vontade de propor projectos únicos para a apresentação em Guimarães (para além dos Porta-Jazz). Um deles é a experiência com a Orquestra de Guimarães, um dos exemplos da dimensão cultural da cidade que já referimos. 

Muito-pouco-quase-nada

Quando chegámos já o festival estava a navegar há vários dias (cresceu também em termos de concertos, deixando de se realizar em dois fins-de-semana para ocupar 10 dias seguidos), mas fomos a tempo de ouvir a orquestra numa noite imponente. A ideia nasceu há três anos, um pouco por necessidade, um pouco por vontade, e tem-se repetido com interesse.  A primeira vez foi com o LUME de Marco Barroso a multiplicar o som da sua já “big band”, o ano passado foi o guitarrista Nels Cline que precisava de uma orquestra para poder tocar o seu último disco e este ano a Orquestra de Guimarães contribuiu para a adaptação do disco “Cartas Brasileiras” da flautista Léa Freire.

Ao contrário dos anos precedentes, de jazz ouve muito-pouco-quase-nada, mas isso não é mau. Todos nós reconhecemos que os festivais de jazz não têm de programar exclusivamente jazz e que há outras formas musicais em que o improviso está presente em maior ou menor grau e que são úteis para perceber o jazz (o fado, por exemplo). E são divertidas e agradáveis, como neste ano com a orquestração do trabalho da flautista de São Paulo. Samba e choro (e um frevinho tímido?) tocados por uma orquestra a fazer lembrar o som da música popular brasileira nos anos 1950 (Elizeth Cardoso, Noel Rosa). A orquestra foi valente: não tendo uma grande capacidade de gingar (poucas orquestras sinfónicas terão), tocou com pouquíssimas falhas numa hora e meia de música difícil de interpretar. Foi bem legal, vici.

All star game

 

A quinta-feira veio com Sol, com o bom tempo de São Martinho e com o concerto que ninguém quereria perder este ano. O líder do projecto era o trompetista Dave Douglas, mas eu fui lá para ouvir o baixista Bill Laswell, o saxofonista Jon Irabagon, as guitarras de Mary Halvorson e Rafiq Bhatia e a bateria de Ches Smith. Um “all star game”. É verdade que nenhum concerto se faz com nomes, eles têm de tocar. É ainda verdade que nem sempre a junção é sinérgica. É igualmente verdade que as músicas destes nomes não encaixam facilmente umas nas outras; mas também é verdade que a junção de tantos músicos fabulosos tem tudo para resultar numa noite entusiasmante. E assim foi.

O projecto Uplift de Dave Douglas é uma ideia de reacção positiva à situação política actual norte-americana e às suas consequências ecológicas e humanas. São 12 peças “for positive action in 2018”, um lembrete para nos mantermos positivos, activos e empenhados. Funciona “online” de um modo particular e inovador. Em vez de um disco, é uma subscrição que dá direito, todos os meses, a receber uma música tocada por um grupo parecido com o que veio ao festival (Dave Douglas, Joe Lovano, Mary Halvorson, Julian Lage, Bill Laswell, Ian Chang), escrita e tocada a pensar nas questões políticas mais prementes da actualidade (+ info no “site” da editora do trompetista:  https://greenleafmusic.com/uplift-program-notes/).

Sem duvidar das boas intenções de Douglas, a nota negativa – ignorando por agora a questão musical – é o uso comercial do discurso do “não votei nele”. Já não há paciência para a pedinchice americana das palmas com a desculpa do Trump. Douglas diz que nenhum dos músicos votou nele. Espero que não tenha tido a indelicadeza democrática de lhes perguntar. É mais ou menos evidente que os músicos – e em particular os de jazz – são gente que gosta de encontros, aberta ao desconhecido, tolerante e positiva. É muito natural que não tenham votado nele. Mas têm de parar com o truque das palminhas anti-Trump. Façam campanha na América, nós – infelizmente – não podemos votar no presidente dos EUA. Devíamos poder, mas essa é outra conversa. Assim, tirando o já típico momento ianque “fuck Trump”, o concerto correu bem.

A guitarra de Halvorson não encaixa bem com o baixo de Laswell. Este precisava de uma bateria mais regular, a bateria pedia guitarras mais abstractas e o trompete toca música limpa demais para as guitarras e bateria. E, contudo, move-se. A música funciona. É essa a principal mensagem que eles nos podem deixar, o modo como músicos com estilos e visões tão diferentes podem entender-se e actuar num território comum que confina com os seus territórios individuais. Começámos com “The Power of the Vote” e com o baixo mágico de Laswell. Tudo o que este toca é excelente e cria um sub-som deslumbrante sobre o qual o resto do sexteto toca. Halvorson não teve muito espaço e a sua guitarra não conseguiu uma relação fácil com a de Bhatia. Smith é um grande baterista da nova geração, não só na bateria tradicional como na adição de sons electrónicos. O ideal para esta música feita de melodias simples que muito rapidamente se esgotam, deixando espaço para a improvisação. Raramente entra em esquemas rítmicos regulares, o que não facilitou a vida ao homem do drum ’n’ bass. Mas o concerto foi muito bom, a música aconteceu como uma geringonça feita de peças soltas que se articulam num assombro. Acabámos o concerto com o tema “Truth is Truth”. Quando os músicos são bons, a coisa é simples. Não vale a pena complicar: «Music is the best» (Frank Zappa). 

Jazz Ikea e em primeira mão 

 

A proximidade do fim-de-semana trouxe mais gente até ao Centro Cultural Vila-Flor, que estava praticamente esgotado. Tocou o israelita Avishai Cohen (o trompetista, porque há um contrabaixista com o mesmo nome e que, curiosamente, veio a Portugal pela mesma altura): um jazz Ikea, que segue modelos inovadores feitos no passado, adaptando-os para ficarem bem em qualquer lar. Jazz com livro de instruções bem desenhado e que é fácil de montar. Jazz confortável.

Tudo se resume às composições e aos solos, as primeiras boas, os segundos suficientes. Sem chama e sem novidade, o israelita trouxe o espectáculo bem montado e rotinado, com todas as peças a encaixarem no sítio certo e no tempo certo. Fornece uma música que fica bem em qualquer família e ocasião social, confortável e simpática, com uns toques de modernidade e a segurança da permanência da história. Lentos, com excepção de “Shoot Me in the Leg”, os temas revisitam o cool que suavizou o bop, na visão de Miles Davis, Gerry Mulligan / Chet Baker e Modern Jazz Quartet. O piano esteve microscópico, chegando, num ou dois momentos, a bater no vermelho da escala de zero a Burt Bacharach. A bateria tocou moderna com a tarola dupla, para ter um som mais “lounge”. O contrabaixo contrabaixou e o trompete de Avishai Cohen, que tem muito boa técnica, surgiu pequenino, como o de Chet Baker, melífluo e contido. Por momentos, achei que num concerto destes o público deveria aplaudir ensaiado, num compasso binário simples, com a semínima a 30, para deixar a casa arrumada.

E chegou, com a inevitabilidade dos finais das coisas boas, o sábado e com ele os dois concertos finais da edição de 2018. À tarde, no pequeno auditório, o Matt Ulery Delicate Charms, quinteto de malta nova que veio de Chicago e que durante todos os dias do festival trabalhou com os jovens músicos e à noite assegurou a coluna vertebral das “jam sessions”. Matt Ulery, que lidera o grupo, é contrabaixista, compositor e um músico emergente na cena de Chicago. O grupo tem a particularidade de incorporar um violino (Zach Brock) e um altista (Greg Ward) com um som muito particular, que consegue soar também como um violino, com um fraseado delicado como o de Paul Desmond. Ulery tem uma música vulgar, mas com melodias pouco previsíveis. É de frisar que a banda foi formada propositadamente para o festival e aproveitou a residência para rotinar as novas composições de Ulery para este contexto específico. Neste sentido, foi um concerto especial, pois ouvimos em primeira mão aquilo que virá a ser o primeiro disco deste “ensemble” 

Uma máquina de boa música

 

A noite trouxe, como habitualmente nos finais vimaranenses, uma “big band”. Este ano, uma notável: A Mingus Big Band. A orquestra nova-iorquina especializou-se na música de Charles Mingus (é gerido pela sua viúva, Sue Mingus) e toca semanalmente no clube Jazz Standard. Há muito tempo que não ouvíamos em Guimarães uma “big band” com esta qualidade. Não só a música é magnífica como o nível dos solos de quase todos os músicos foi altíssimo. Temos de cometer a injustiça de destacar alguns deles, como o de Conrad Herwig no trombone, Alex Terrier no saxofone alto, Jason Marshall no saxofone barítono e Alex Sipiagin no trompete. O piano esteve excelente, Boris Kozlov foi admirável no contrabaixo e o veterano Dave Taylor, que tocou com Mingus (e com a Thad Jones / Mel Lewis Orchestra, George Russell e Gil Evans), surpreendeu no final do concerto no trombone baixo.

Ouviram-se temas como “So Long Eric” e “Invisible Lady”, transposto para orquestra, bem como interpretações dos temas orquestrais como “The Shoes of the Fisherman's Wife Are Some Jive Ass Slippers” e o “hit” “Goodbye Pork Pie Hat”. A orquestra fechou o concerto com “O.P.” (Oscar Pettiford) num tempo rápido e solos de levantar a plateia. A Mingus Big Band é uma máquina de boa música e veio a Guimarães em força, a força de um grupo de músicos notáveis a tocarem juntos, capazes de contribuir colectivamente não só para os momentos conjuntos, mas também com excelentes solos. Os dois regressos ao palco com a casa – esgotada – a aplaudir de pé justificaram-se plenamente.

A edição de 2018 fechou-se no Café-Concerto com os Delicate Charms e outros músicos a “jamarem”, incluindo alguns bigbandistas da Mingus. Conversou-se, ouviu-se, uma criança feliz rebolou pela relva abaixo enchendo-se das pétalas secas outonais e ficou a vontade de voltar para o ano. Reservem as datas, não percam este privilégio nacional.