SeixalJazz, 31 de Outubro de 2018

SeixalJazz

Da criatividade na música

texto Gonçalo Falcão fotografia SeixalJazz

Num festival que perdeu os anéis, mas guarda alguns dedos, o melhor da edição deste ano foi trazido neste mês de Outubro por grupos da Polónia e de Itália (Roots Magic, na foto acima). Faltou Carla Bley, que adoeceu antes de a digressão do seu trio chegar a Portugal. Aqui fica o relato do que ouvimos no Fórum do Seixal…

Não é demais afirmar que o SeixalJazz já foi uma das grandes referências do jazz nacional. Hoje, sem os anéis de outros tempos, ainda guarda alguns dedos. A edição de 2018 trouxe muito jazz português, alguns músicos desconhecidos e boas surpresas. Fomos dar-lhe uma escutadela. 

Roupão e pantufas

Mark Guiliana Quartet 

A estreia fez-se com casa cheia, com a presença – sempre de louvar e de estimar – dos responsáveis da autarquia, para ouvir o quarteto americano liderado pelo baterista Mark Guiliana. Óptimo ambiente na sala e o batera entrou em acção. O primeiro tema soou bem e o segundo foi excelente, com muito boa técnica e solos. Mas a partir daí instalou-se o tédio. Faltou sangue, garra, alegria. Parecia que os rapazes – o quarteto não é novo, mas os músicos ainda não chegaram aos 40 – já nasceram de roupão e pantufas. As composições são boas, eles conseguiram introduzir algumas ideias na composição que afastaram a música da mediania, mas tocaram-na sem alma.

Conformados com um formato que se convencionou, ouvimos jazz com botox que pega na tradição e a estica para a desenrugar. Não que o jazz tenha de ser excitado e catártico; pode ser como o de Paul Bley, Miles Davis, Chet Baker ou Lee Konitz. O de Guiliana é bonito (por vezes quase a bater no vermelho de meloso), bem-comportado e asseado, com pouco que o eleve para além das dezenas do mesmo tipo. Não posso deixar de destacar um solo excepcional do pianista Fabian Almazan, usando “clusters” melódicos repetitivos, quase como nas peças de piano de Terry Riley, que desenvolveu com um enorme brilhantismo. 

Sem surpresas

 José Salgueiro Transporte Colectivo

A sexta-feira fez subir ao palco o novo projecto de José Salgueiro, chamado Transporte Colectivo. Prémio desde já para o melhor nome de grupo de jazz português. Mais um concerto liderado pela bateria, a partir da primeira gravação do músico enquanto líder e compositor. Salgueiro mostrou o prazer que tem a tocar e foi capaz de meter carga no quinteto que lidera. O Transporte Colectivo não é propriamente um coelho saído da cartola: inclui João Paulo Esteves da Silva e Mário Delgado, mas também instrumentistas menos habituais como Guto Lucena no saxofone e Cícero Lee no contrabaixo.

A música mais uma vez soou convencional e por isso tivemos de ir à procura da novidade nos solos e na solidez com que o grupo tocava. Quando tentou improvisar sem guião foi custoso, com os intervenientes quase sem saberem o que fazer, acriançando a abordagem aos instrumentos. Foi um bom concerto, mas sem surpresas. 

Fim de festa

Aaron Parks Trio 

No dia seguinte, Aaron Parks veio ao Seixal num contexto estranho. Em vez de apresentar o seu último disco, “Little Big” (Ropeadope), veio tocar (parcialmente) o penúltimo, editado o ano passado pela ECM. Passaram-se 10 anos desde a estreia de Parks na Blue Note com “Invisible Cinema” e o premiado pianista está hoje num período da carreira em que a sua novidade parece esgotada. Com o trio que viajou até à margem Sul trouxe uma música que já foi sobejamente rodada ao vivo. Talvez por estar em fim de ciclo, o concerto soou desarticulado e com vontade de assumir riscos, o que foi excelente. Parks estará certamente com o foco na promoção do seu novo quarteto eléctrico e em outra música que integra hip-hop e rock “indie”. Assim, a prestação, realizada no final de uma pequena tournée de despedida do grupo (acabou três dias depois na Alemanha) foi um fim de festa, muito livre e sem rede. Ainda bem.

Ficámos com a sensação de só ter ouvido Billy Hart. O baterista já tocou em Portugal várias vezes, mas esta terá sido a melhor que ouvi: ritmou de forma desconsertante e desconcertante. Desconsertante porque parecia que não tinha conserto, que estava sempre errada, a destruir a fleuma do piano – contudo, estes erros acertaram magicamente a música, criando-lhe a irregularidade que a subtraía do vulgar. Desconcertante porque atrapalhou o concerto, obrigando-o a mudar. O par rítmico (Ben Street e Billy Hart) construiu o clássico trio de piano, com muito espaço e uma musicalidade subtil.

Lançando ideias

Kuba Wiecek Trio

Roots Magic

A segunda semana chegou com novidades muito positivas. Os dois primeiros dias valeram o festival, com dois concertos surpreendentes. Para alguns músicos o jazz é um formato definido e as novidades criam-se dentro desse formato. Para outros a inovação faz-se dentro da música, mas também com a própria música, lançando ideias. Foi assim com a Polónia e no dia seguinte com a Itália. No terceiro dia descansámos, pois uma greve na função pública obrigou à suspensão do festival.

Começou com o trio do jovem Kuba Więcek. O saxofonista está cheio de ideias novas e por isso, muito mais do que excelentes solos, ouvimos música com vontade de abrir novos caminhos. As melodias eram muito acessíveis, quase no limite do “easy listening”, com uma forma de tocar curiosa, muito contida e definida. O oposto do saxofonismo liderante e gritante do jazz. Muito bons também eram o contrabaixista e o baterista. A performance, bem ensaiada, surpreendeu-nos muito positivamente.

No dia seguinte, a música italiana dos Roots Magic falou do início de tudo, dos blues do Delta do Mississippi, em arranjos muito originais de temas de Charlie Patton, Blind Willie Johnson e outros “bluesmen”. Também se ouviram peças de Ornette Coleman, Julius Hemphill, Marion Brown e Sun Ra. John Carter misturou-se com Pee Wee Russel num tema solar que Coleman Hawkins teria gostado de ouvir! Foi parte concerto, parte aula de história da grande música negra, com o baterista a explicar o mundo de referências e de ligações que se ia sucedendo. Os arranjos para saxofone e clarinete eram brilhantes e reinventaram os blues. Extraordinário o contrabaixista, com problemas de som no início que foram prontamente resolvidos pela equipa técnica.

Por vezes é assim: é preciso vir alguém de outra cultura para nos mostrar que algo tão familiar como os azulejos pode ser usado enquanto pixéis, como no caso do trabalho de Chermayeff & Geismar no painel de entrada do Oceanário de Lisboa. E os italianos mostraram-nos, com um conhecimento enciclopédico dos blues e do jazz, uma reinvenção profunda destas músicas, distante e ao mesmo tempo tão familiar. Foi o melhor momento do SeixalJazz deste ano e merecia casa cheia, que não teve.

Depois de escrupulosamente cumprida a greve, já não conseguimos voltar para o fecho. Carla Bley, que estava na programação, adoeceu na Alemanha e não pôde viajar para Portugal. Foi substituída pelo quarteto de Andy Sheppard, um dos muitos músicos que investiram no imobiliário português e que para cá se mudaram. Infelizmente, perdemos também a música do contrabaixista João Hasselberg e do guitarrista Pedro Branco que, apanhados pela greve, foram adiados para a noite de Domingo, livre de protestos laborais. Nas "after-hours", o SeixalJazz Clube recebeu ainda Mano a Mano, Desidério Lázaro e os quintetos de Ricardo Pinto e André Rosinha.