Angrajazz, 12 de Outubro de 2018

Angrajazz

A festa, 20 anos depois

texto Nuno Catarino fotografia Luís Godinho e Rui Caria / Angrajazz

Chegado à sua 20ª edição, o festival de Angra do Heroísmo aproveitou a ocasião para celebrar: apresentou um total de sete concertos, incluindo três orquestras, lançou o segundo disco da Orquestra Angrajazz e, apesar do cancelamento de última hora de Jazzmeia Horn, conseguiu encontrar em Camila Meza uma substituição de bom nível (foto acima: Darcy James Argue’s Secret Society).

O Angrajazz chegou à sua 20ª edição e fez questão de celebrar. O programa apresentou um total de sete concertos, distribuídos por quatro noites. No programa destacou-se a presença de três orquestras – o que em si mesmo já é um facto assinalável, tendo em conta todos os constrangimentos logísticos que implica deslocar uma simples “big band”. Quebrando a tradição – o festival costuma arrancar com a Orquestra Angrajazz –, este ano a abertura fez-se com a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, na noite de quarta-feira, 3 de Outubro. A banda lisboeta editou recentemente o disco “A Dança dos Pássaros”, no qual faz uma releitura das composições de António Pinho Vargas, e foi esse o material que trouxe na bagagem.

Sob a direcção de Luís Cunha, o concerto abriu com a interpretação de “General Complex”, tema que incluiu os solos de Daniel Salomé e César Cardoso nos saxofones e de Óscar Graça no piano. Logo aí percebemos que, tal como as folhas novas mudam de cor, também a música de Vargas passou a ganhar novas cores com o tempo. O pianista e compositor que foi um dos pioneiros do jazz português tem estado afastado desta música, focando-se na composição de música contemporânea – com um interregno na edição dos discos “Solo I” e “Solo II” e suas apresentações ao vivo (2008 / 2009). Apesar da passagem dos anos, percebemos que a sua música, que cruza uma base jazz com uma estética europeia e até marcas de portugalidade, não envelhece e aquelas melodias clássicas continuam a soar deliciosas.

O trabalho ao nível dos arranjos – sobretudo de Luís Cunha e César Cardoso – é fundamental neste processo de transformação. Em termos globais, a orquestra tem uma abordagem tradicional, com os arranjos a tentarem manter as marcas da composição original e a aproveitarem a diversidade das vozes instrumentais existentes. No tema “A Dança dos Pássaros” ouviu-se um solo de João Mortágua, o seu primeiro grande momento da noite. Contudo, mais do que momentos de inspiração individual, o êxito desta empreitada cabe ao eixo melódico de Pinho Vargas que sustenta os temas.

A orquestra atravessou todas as composições que preenchem o disco (ainda que não tenha respeitado o alinhamento original), abrindo momentos para solos de músicos como Mateja Dolsak (saxofone) e Gonçalo Marques (memorável solo de trompete em “La Corazon”). Quando chegou “Tom Waits” assistimos à reinvenção de um dos mais belos temas da história do jazz português, num arranjo de Tomás Pimentel, que também se mostrou no solo de fliscórnio. O fim veio com “Vilas Morenas”, a despedida festiva de um concerto que foi uma verdadeira homenagem à memória do jazz que por cá se tem feito.

Com a viola da terra

 Orquestra Angrajazz

Gonzalo Rubalcaba

A segunda noite de festival, dia 4, abriu com a “big band” da casa, a Orquestra Angrajazz. Celebrando o seu 16º aniversário, esta iniciativa do festival açoriano, que tem também o objectivo de funcionar como projecto pedagógico, apresentou ao vivo a música do seu segundo álbum (foi em 2006 que saiu o primeiro, em parceria com a cantora Paula Oliveira). Neste novo, intitulado simplesmente “Angrajazz”, a formação terceirense interpreta um conjunto de temas originais, resultado de encomendas a alguns compositores notáveis: além dos maestros Pedro Moreira e Claus Nymark, contribuíram com peças inéditas os músicos Mário Laginha, Zé Eduardo e Carlos Azevedo (da Orquestra Jazz de Matosinhos), além do espanhol Jesus Santandreu. Este concerto arrancou com a interpretação do tema “Volta à Terceira” (de Nymark), com o grupo a exibir boa dinâmica colectiva e bom som (relativamente melhor do que na noite anterior).

Um dos temas mais belos foi o de Laginha, “Ribeiro da Barca”, que inclui a viola da terra (ou viola de arame terceirense), embalado pela bonita melodia original assinada pelo pianista. Além dessas composições originais, a orquestra reinventa dois temas tradicionais açorianos, “O Sol Perguntou à Lua” e “Morte que Mataste a Lira”. O primeiro contou com a participação vocal de Sara Miguel, deixando a orquestra remetida para um papel discreto, ficando os destaques para a voz de Sara e o contrabaixo de Paulo Cunha. A segunda canção tradicional, com arranjo de Moreira, voltou a contar com a viola da terra, com os sopros como tapete de fundo, respeitando e sublinhando a melodia.

Um dos momentos mais altos da noite foi a interpretação de “Angrajazz”, composição original de Moreira que, segundo o compositor, quis transmitir as emoções que a Orquestra Angrajazz lhe traz: a música, o convívio, a alegria, a Terceira, os Açores. A pianista Antonella Barletta esteve em primeiro plano (a italiana é, pela sua delicada eficácia, sem espalhafatos, uma das mais-valias naturais do grupo). A prestação fechou com “Gorgeous City”, de Zé Eduardo, que com o seu ritmo acelerado reflecte mais a vertigem de uma cidade como Nova Iorque do que a bela e plácida Angra do Heroísmo.

A noite de quinta-feira fechou com o Gonzalo Rubalcaba Trio. Após um problema técnico no baixo eléctrico, que o fez demorar a entrar na música, o trio atacou um primeiro tema, lento e longo, em que exibiu a sua flexibilidade e o seu virtuosismo. Rubalcaba passou depois para um segundo, acelerado, com o qual já foi ritmicamente exuberante. Armando Gola, no baixo, e Ludwig Afonso, na bateria, mostraram-se parceiros atentos ao pianismo vistoso de Rubalcaba, que tanto passava pela tradição swingada moderna como se atirava, com fluidez, ao jazz afro-cubano. O pianista apresentou ao vivo composições de diferentes etapas da sua carreira, incluindo uma escrita pelo seu avô, mostrando nos Açores uma música vibrante e com os holofotes apontados para si mesmo. A noite terminou com a interpretação de “La Nueva Cubana”, uma despedida enérgica que mereceu o aplauso do público. 

Quase Zen, quase explosivo

 Andy Sheppard

Billy Childs Quartet

A sessão de sexta-feira abriu com o Andy Sheppard Quartet, quarteto liderado pelo saxofonista inglês que desde o ano passado reside em Portugal (entre Mafra e a Ericeira). O repertório foi o do disco editado neste ano de 2018, pela sempre excelente ECM, “Romaria”, mas o guitarrista para este concerto foi diferente do habitual: o norueguês Eivind Aarset foi substituído pelo italiano Marco Tindiglia, mantendo-se os habituais Michel Benita (contrabaixo) e Sebastian Rochford (bateria). Sheppard começou por se mostrar no saxofone tenor e logo depois passou para o soprano. Regressou ao tenor e foi esse instrumento que ocupou a maior parte da actuação.

O quarteto respeitou a toada ambiental do disco, apresentando uma música ancorada na subtileza e na elegância, com economia de notas (em contraste completo com a exuberância dos músicos americanos que completaram o festival). Mesmo nos momentos – pontuais – em que o ritmo acelerava, manteve-se esse espírito sóbrio. Os músicos exibiram o valor da contenção, mostrando que não é preciso dizer muitas coisas, tudo dependendo da capacidade de conseguir transmitir sentimento mesmo com recursos simples. Além do material do CD, o saxofonista aproveitou para apresentar uma peça nova, inspirada pelos pássaros no jardim da sua casa portuguesa, um momento particularmente bonito.

Já mais perto do final, Sheppard regressou ao sax soprano, num tema em que se mostrou mais expansivo. O quarteto exibiu competência, mas ficámos com pena de não ver o guitarrista original, Aarset, que seguramente traria uma dimensão mais atmosférica à música do grupo. Para o final ficou guardada a revisitação do clássico brasileiro “Romaria”, canção popularizada por Elis Regina e interpretada por Sheppard na sua essência melódica, que o público reconheceu e aplaudiu com entusiasmo.

Após esta sessão de música quase-zen, seguiu-se um espectáculo absolutamente contrastante. Um outro quarteto, agora americano, mostrou uma forma diferente de fazer música, assente em virtuosismo, energia e dinâmica. O pianista e compositor Billy Childs entrou com toda a força, mostrando um jazz mais convencional e mais terreno, em plena oposição ao som planante de Sheppard. De imediato se notou a exuberância do piano de Childs, embora sem entrar em histrionimos. A acompanhar o pianista estava um dos grandes saxofonistas americanos da actualidade, Steve Wilson, que primeiro se mostrou no soprano, passando depois para o alto, sempre incisivo.

Logo ao início foi exposto “Rebirth”, tema homónimo do disco que deu um Grammy ao pianista. Seguiu-se “Backwards Bop” e o quarteto de Childs fez jorrar o seu jazz “mainstream”, numa música enérgica em que não faltaram vigorosos solos, de resto muito aplaudidos. Num momento de acalmia chegou “Peace”, original de Horace Silver, com o grupo a abrandar o ritmo, navegando em águas mais tranquilas. Contudo, o quarteto rapidamente voltou a mostrar a sua pujança instrumental com “Dance of Shiva” e “Aaron’s Song”. Um dos momentos mais marcantes foi o duo de piano e saxofone em “Stay” – balada terna em que a secção rítmica abandonou o palco para assistir ao diálogo. Regressariam todos para o final, fazendo esquecer a ternura das baladas e exibindo a sua típica natureza explosiva. 

Salvação pela música

Darcy James Argue

Camila Meza 

Na sua última noite o festival apresentou a terceira orquestra do programa, a Secret Society de Darcy James Argue. Das várias “big bands”, esta foi a mais arrojada e a mais afastada das convenções do bigbandismo jazz, com uma música contemporânea que se serve da instrumentação típica do jazz e de composições e arranjos ousados. A orquestra começou por apresentar “Flux in a Box”, composição inspirada no livro “Infinite Jest” de David Foster Wallace, com James Argue a exibir a sua dinâmica original, trabalhando com precisão milimétrica. Seguiram-se três movimentos de “Brooklyn Babylon”, uma colaboração com o artista gráfico Daniel Zezelj.

A banda continuou com “Ferromagnetic” (inspirada na figura sinistra de Erik Prince, empresário americano ligado a exércitos de mercenários) e com o seu mais recente trabalho, “Real Enemies”, inspirado nas teorias da conspiração. Houve espaço para uma homenagem a Bob Brookmeyer (“Winged Beasts”), fechando a actuação com “Transit”. No “encore”, o ensemble tocou “Last Waltz for Levon”, uma balada quase convencional. Assistimos à amálgama criativa dos sons saídos da cabeça de Argue, uma manta de retalhos trabalhada ao pormenor em que não faltou “groove” nem lugar para improvisar. Ouvimos uma constante sobreposição de elementos, uma multiplicidade de vozes, camadas que se iam acumulando, mil ideias coladas num sólido fundo rítmico. Enquadradas nessa vertiginosa dinâmica colectiva, as vozes individuais puderam expressar-se.

Em desafio a formatos e padrões, a escrita de Argue cria drama, tensão e emoção. Altamente complexa, esta música consegue ser simultaneamente cerebral e apelativa. No Angrajazz, a Secret Society apresentou aquela que foi, provavelmente, a performance mais interessante de todo o festival. Pelo meio, enquanto apresentava as músicas, o maestro disse: «Em 1974 vocês venceram os fascistas com cravos… Talvez devêssemos tentar isso nos Estados Unidos.» Neste tempo ensombrado pelos novos fascismos, resta-nos a salvação pela música.

A cantora Jazzmeia Horn cancelou a sua participação à última hora (três dias antes do seu concerto), por motivos familiares, e a organização tratou de encontrar rapidamente uma substituição. Em poucas horas o festival convidou uma outra cantora para preencher o lugar, a chilena Camila Meza, que viajou directamente de Nova Iorque para Angra do Heroísmo. Para acompanhar a cantora, guitarrista e compositora, um jovem talento em ascensão (“rising star” da revista Downbeat), foi improvisado um quarteto: juntou-se o pianista da Secret Society, Adam Birnbaum, e dois dos quatro músicos que iriam acompanhar Jazzmeia: Barry Stephenson no contrabaixo e Henry Conerway III na bateria. Estes instrumentistas nunca tinham tocado juntos e só tiveram tempo para fazer um ensaio antes do concerto.

A cantora levou ao palco temas do seu disco “Traces”, numa mescla de composições originais, tradicionais latinos e “standards” do jazz. O concerto abriu com “Para Volar”, um original de Meza, e o grupo mostrou um improvável entendimento, revelando o profissionalismo dos seus membros. O alinhamento foi seguindo o álbum de Meza e incluiu versões de clássicos latino-americanos: do México veio “CucurrucucúPaloma” (popularizado pelo filme “Habla con Ella”); do Brasil veio “Caminhos Cruzados” de Tom Jobim (foi a primeira vez que Meza cantou em Português para um público que falava Português) e finalmente um tema do seu país natal: “Luchin” de Victor Jara (boa recuperação, agora que as canções antifascistas fazem todo o sentido).

Houve ainda espaço para um “standard”, “No Moon at All”, e o concerto fechou com a canção “Traces“, do disco homónimo. Camila Meza mostrou bons dotes vocais, versatilidade e ainda agilidade técnica na guitarra. Surpreendentemente, o trio demonstrou um bom entendimento e cumpriu o papel de acompanhamento. Não sendo o final previsto para o festival, acabou por se revelar bom.