Festival Múltiplo, 21 de Agosto de 2018

Festival Múltiplo

Só para os que ficaram

texto Rui Eduardo Paes fotografia Rui Baião

A Zaratan escolheu o meio do mês de Agosto para o festival que dedica a quem não saiu de Lisboa em gozo de férias, misturando géneros musicais e até indo para além da música. A improvisação teve lugar nobre no programa, como aqui vos damos conta.

Já vai sendo normal que se organizem festivais não confinados a um único género musical, mas menos frequente é prolongarem os seus limites para lá da música e escolherem no calendário precisamente a altura em que a maior parte das pessoas está fora das grandes cidades, em gozo de férias. É esse o caso do Festival Múltiplo, uma iniciativa da galeria de arte lisboeta Zaratan que dedicou um dos seus quatro dias, em meados de Agosto (de 16 a 19), à performance-arte e com eles mais uma vez afirmou este ano a sua disposição de mobilizar quem fica por Lisboa – porque os empregos assim obrigam, porque não há dinheiro ou, simplesmente, porque a praia ou o campo não são especialmente atractivos – em dias que quase só trazem turistas para a rua. Entre os 19 concertos propostos (seis em cada um dos dois primeiros dias; sete naquele que fechou o cartaz musical, não contando com os “DJ sets” dos intervalos), a maior parte andou por áreas que não dizem respeito a esta revista, mas a oferta na área da improvisação e do jazz foi substancial e alguns dos outros colocaram interessantes questões quanto aos processos a que a jazz.pt dedica a sua atenção. E sempre com as instalações vizinhas da Assembleia da República à cunha, sentando-se o público onde podia, mantendo-se de pé ou indo para dentro da piscina insuflável montada no pátio, já que também dali se podia ouvir o que acontecia no antigo depósito de carvão convertido em “black box” e na sala de exposições que em tempos foi uma taberna. Senão vejamos…

O que poderiam ter de comum os projectos Fuera de Foco, de Santiago Córdoba, e O de Pedro Melo Alves, dois dos nomes que figuravam no alinhamento de dia 16 de Agosto? À partida, uni-los-ia o mesmo propósito de criarem música electroacústica, se bem que partindo de estéticas muito distintas, mas as águas logo ali se separaram. No seu processo de conversão de sinal acústico para electrónico, Córdoba pareceu apenas interessado no resultado, ou seja, no som já processado e nas construções que com ele podia fazer. Os objectos que tinha espalhados pelo chão eram por ele agarrados com displicência, provocando ruídos que não tinham propósito musical para deles apenas samplar uns segundos dos mais coerentes. Ou seja, houve uma constante ambiguidade entre intencionalidade electrónica e acidente acústico. O dilema aberto estava, aliás, anunciado pelo nome da actuação, “El Ruido de las Coisas”, fazendo crer que até a aleatoriedade da manipulação dos materiais era pretendida. Curiosamente, o folheto distribuído anunciava uma «instalação sonora efémera», não uma performance musical, assim baralhando os termos. Alves fez o contrário: as fontes acústicas eram precisas, focadas no seu trabalho como baterista virtuoso, e o tratamento por computador do que fazia, esse sim, estava aberto a quaisquer consequências e à moldagem constante do músico. O membro do The Rite of Trio tem na gestão de “feedbacks” o “joker” deste seu solo, assumindo por inteiro a ténue fronteira que separa o controlo e o descontrolo das situações. Ainda que a complexidade conceptual de Córdoba fosse intrigante e desafiadora, em termos de usufruto auditivo o que Alves fez criou um maior impacto.

Neste mesmo primeiro dia do Festival Múltiplo, e em altíssimo contraste com a quantidade de prestações que iriam recorrer à tecnologia digital, o espectáculo “Transição” da série Golfo Místico (terceira manifestação da dita, que terá continuidade) preferiu dispensar, inclusive, o uso de microfones. Com direcção, à maneira da “conduction” de Butch Morris, de João Madeira, um grupo constituído por Carlos “Zíngaro” (violino), Miguel Mira (violoncelo), José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e baixo), Paulo Curado (flauta), Constança C. Homem (voz) e Nuno Morão (percussão), adicionado pela marionetista Helen Ainsworth, pegou na “Rhapsody in Blue” de George Gershwin não para interpretar a peça literalmente, mas para utilizar as suas componentes melódicas e harmónicas com a liberdade permitida pela estrutura que Madeira tinha diagramada na folha disposta aos seus pés. Mais especificamente: para “torcer” o formato blues escolhido pelo compositor tanto quanto o fazia Ainsworth com dois rolos de papel de cenário, simultaneamente montando os seus bonecos e colocando-os em movimento. Esas distorções dos blues soaram, por vezes, à música improvisada mais experimental, mas nunca saíram do enquadramento que já estava no original, os dados pela música erudita e pelo jazz. Sem ter sido entusiasmante, a prestação foi assaz curiosa e permitiu-nos assistir a uma faceta menos conhecida de “Zíngaro”, a de violinista especificamente jazzístico, na esteira dos estilos de Stuff Smith, Ray Nance e Joe Venuti.

Pedro Melo Alves

Carlos "Zíngaro"

Joana Guerra

Joana Guerra e André Calvário

Paulo Curado e José Bruno Parrinha

André Santos

João Almeida

Entre idiomas musicais também estiveram Joana Guerra (violoncelo, voz) e André Calvário (baixo eléctrico, voz), na segunda apresentação pública do duo estabelecido há apenas uns meses. Em equação estiveram mundos musicais díspares, do lado de Guerra os da clássica e da folk e de Calvário aqueles que vão do prog rock ao stoner. Sem procurarem um mínimo denominador comum, antes alicerçando os factores de diálogo nas suas diferenças, os dois músicos souberam aproveitar as vantagens comunicativas – porque espontâneas – da improvisação, em repetidas ocasiões conseguindo uma coesão que, neste contexto, é bem menos de regra do que gostaríamos. Quando tal não acontecia, pois preferiam colocar as suas linguagens a par em vez de as cruzarem, fizeram-nos perceber que nem toda a confrontação de uma tese e de uma antítese tem de convergir numa síntese. A música não precisa de tirar conclusões, e sim de fazer perguntas. Houve alguns fins em falso que prolongaram o concerto para além da medida justa, mas esse é um mal em que até os mais experimentados improvisadores podem cair.

O segundo dia do festival começou com um projecto “on the side” de um recorrente parceiro de Calvário nas lides da improvisação, João Sousa. Enquanto Verme, o baterista e guitarrista utiliza um “laptop” e outras interfaces numa música que está entre o ambientalismo e o “beat” downtempo, IDM e trip-hop. Se em outras ocasiões ouvimo-lo a ser mais disruptivo e desconstrucionista, neste caso protagonizou uma sessão planante e, curiosamente, coincidente com a da novíssima geração da electrónica portuguesa, bem representada na Zaratan por A Lake by the Moon, HIFA e Francisco Oliveira, que não são propriamente motivados pela EAI (acrónimo de “electro-acoustic improvisation”). Como não podia deixar de ser, o que ouvimos veio de decisões tomadas no momento – não era música improvisada enquanto tendência estética, mas aplicava as suas técnicas. Não o era também o que fizeram Makika (o italiano Carlo Spiga) e Cosmic Analog Ensemble (o libanês Charif Megarbane), mas causaram o elemento de surpresa que habitualmente é instalado por essa prática. Spiga porque mesclou o canto bifónico de Tuva com a tradição popular da Sardenha naquilo a que chama de “brutal folk”, pelo meio tocando o launeddas (instrumento de sopro com que Evan Parker contracena em “Synergetics – Phonomanie III”) em duas versões, a milenar e a electrónica, de sua própria construção, e Megarbane porque combinou uma computação “easy listening” e “kitsch”, referenciada nas bandas-sonoras do cinema italiano e francês da década de 1960, com uma abordagem da guitarra totalmente distinta da ocidental, em termos de técnicas e de vocabulário.

No dia 17, bastante apreciada foi uma banda que vai beber ao jazz de fusão da década de 1970, Afta 3000, e que tem a particularidade de juntar dois bateristas (João Almeida e Pedro Nobre) aos “samplers” de Mike Stamp e ao baixo com seis cordas do líder, André Santos. A fusão que nos foi dada a ouvir era extensiva, aproveitando elementos provenientes do acid jazz, do funk, do rhythm ‘n’ blues e do hip-hop em temas saltitantes e entregues com uma grande intensidade. Passada, no entanto, a novidade, os desenvolvimentos acabaram por se tornar algo previsíveis. Do mesmo caldo de cultura afro-americana emergiu o grupo que tocou no final da tarde seguinte, Dead Vortex, formado por Luís Guerreiro (trompete, electrónica), Jorge Nuno (guitarra), de novo André Calvário e Pedro Santo (bateria). A influência do Miles Davis eléctrico era óbvia, mas os demais ingredientes ganharam predominância, num psicadelismo que tinha tanto do rock progressivo de uns King Crimson ou uns Magma como do desert rock mais black sabbathiano. O quarteto tocou pouco mais de meia-hora, mas com uma energia que abanou todos quantos estavam presentes.

Os Dead Vortex como que fizeram a mediação para a derrocada sonora que chegou a seguir com a parceria de Luís Lopes e Bruno Gonçalves, segundo “gig” de um outro ciclo inserido no Múltiplo, o Perfussom. Dentro dos parâmetros noise que Lopes vem laborando a solo, este duo de guitarras foi particularmente impressivo. E se o mesmo Lopes, uma figura de topo na cena nacional do jazz criativo e da música improvisada, é clínico e seco quando está a sós neste registo, no contexto em causa funcionou como se estivesse a disputar um agitado jogo de ping-pong, enviando bolas para Gonçalves e dele recebendo outras, enquanto ambos brincavam perversamente com as altas e as baixas frequências. Depressa se esqueceu a bem menos interessante proposta que fora colocada entre os Dead Vortex e este “tête-à-tête” e que poderia ter impedido tal clímax festivaleiro: seja em termos vocais como na forma dos manuseamentos electrónicos, o projecto LALIA de Helga Rodrigues, também radicado no improviso, é ainda uma promessa.

Como acima ficou escrito, alguns dos participantes no Múltiplo não cabem no âmbito desta prosa, mas seria criminoso não apontar o caso de BBB hairdryer, um muito jovem vocalista e guitarrista de pop-rock “indie” que levantou ondas e provocou arritmias em alguns corações. Se o futuro da música portuguesa não vier a passar por ele será por distracção. O evento da Zaratan tem esta particularidade: dá espaço a quem tem algo de válido a mostrar, mesmo que o seu nome não se traduza em mais bilhetes vendidos. Haja quem, e agora isso aconteceu com um puto que bastante o merece.