Jazz im Goethe-Garten, 18 de Julho de 2018

Jazz im Goethe-Garten

Debaixo de um frondoso arvoredo

texto Nuno Catarino e Gonçalo Falcão fotografia Vera Marmelo (Goethe Institut)

Na sua 14ª edição, e como vem sendo de regra, o festival do Goethe Institut trouxe a Lisboa um conjunto de formações que indiciam os novos caminhos do jazz europeu, começando por Portugal e terminando na Alemanha. Pois foram o trio de “The Attic” e os Gorilla Mask (foto acima) os pratos mais fortes da iniciativa, com muito de bom a acontecer pelo meio no jardim do Campo dos Mártires da Pátria.

O trio que gravou o disco “The Attic” inaugurou a 14ª edição do Jazz im Goethe-Garten com a sua música livremente improvisada. O grupo reúne o contrabaixo de Gonçalo Almeida, o saxofone de Rodrigo Amado e a bateria de Marco Franco e trabalha uma música desenvolvida em tempo real, assente no diálogo instrumental, sem pré-definições. O trio apresentou ao vivo três peças longas, desenvolvidas ao longo de cerca de 40 minutos, naquilo que foi uma actuação breve, mas concisa, que começou por procurar pontos de contacto, numa estratégia de pesquisa, e foi evoluindo, acabando por rebentar em crescendos de tensão em que os três músicos mostraram toda a sua força. O fecho fez-se com um “encore”, um tema de cerca de cinco minutos. Logo a abrir o festival, e apesar da curta duração, assistimos a um dos melhores concertos de todo o festival.

Para o segundo concerto do festival vieram os Chaosophy, formados Josep Lluis Galiana (saxofones tenor e soprano), El Pricto (saxofone alto, piano eléctrico e sintetizador) e Avelino Saavedra (bateria e percussão). O grupo diz inspirar a sua música no caos, mas este era um caos organizado, com uma ordem própria e uma estrutura. O trio parte de um formato atípico, com dois saxofones e uma bateria. O arranque aconteceu a cuspir ruído com toda a intensidade, em explosão total, lembrando a abertura de “Machine Gun” de Peter Brötzmann. Quando um dos saxofonistas, El Pricto, passava para os teclados, a música mudava para uma toada mais ambiental, amansando. Entre a explosão caótica e a toada mais tranquila, o projecto catalão revelou-se sempre surpreendente.

De Itália chegaram os O.N.G., liderados pelo trompetista Gabriele Mitelli, com Enrico Terragnoli (guitarra eléctrica e teclados), Gabrio Baldacci (guitarra barítono eléctrica) e Cristiano Calcagnile (bateria). O quarteto desenvolve uma dinâmica eléctrica e alimenta a música com energia. Sobre um fundo electrónico, o trompete interveio de forma pontual, concretizando uma música hipnótica. Mitelli, que pontualmente também tocou saxofone soprano curvo, parecia estar alheado, mas apareceu com intervenções precisas, por vezes desenhando a linha melódica e em outras ocasiões impulsionando o fogo coletivo. O mentor do grupo prometera «uma grande massa sonora» e cumpriu.

Da Suíça chegou o Trio Heinz Herbert, fechando a primeira semana de festival. O grupo de Ramon Landolt (guitarra eléctrica), Dominic Landolt (teclados) e Mario Hänni (bateria) apresentou no jardim do Goethe Institut uma electrónica tranquila, numa onda ambient/chill. Ao terceiro tema chegou uma explosão free, com a música a abrir-se. Contudo, a improvisação era controlada. Mais do que jazz ou improvisação pura, o trio desenvolveu uma música eletroacústica com repetição de padrões rítmicos, mas desenvolvida em tempo real (como fazem os excelentes Dawn of Midi). Foi uma proposta diferente e original.

The Attic

The Attic

Chaosophy

Chaosophy

O.N.G.

O.N.G.

Trio Heinz Herbert

Trio Heinz Herbert

ALSO

ALSO

Gorilla Mask

Gorilla Mask

Já na segunda semana, e no penúltimo concerto do JiGG, actuaram os ALSO de Martin Siewert (guitarra eléctrica) e Katharina Ernst (bateria). A dupla percorreu diferentes universos estéticos, ora explorando o choque-confronto-explosão, ora desenvolvendo uma toada atmosférica e ambiental, deixando ainda espaço para criativas intervenções a solo. Entre os “riffs” e o dedilhar da guitarra, entre o ataque rítmico e a percussão sussurrada, não se fugiu ao material apresentado no disco “Live at Wirr” (Trost Records, 2016). No mínimo, foi interessante. (N.C.)

Para o fim ficou o prato mais forte. Os alemães e os portugueses têm uma coisa em comum no jazz: duas das melhores editoras do mundo. Eles têm a ECM, nós a Clean Feed. Ambas disputam anualmente os primeiros lugares das tabelas das revistas americanas e internacionais, ambas atentas ao que de mais interessante se vai passando; a Clean Feed arriscando em novos valores de várias geografias e estilos. Uma das últimas boas surpresas da editora da Parede foi o Gorilla Mask, o grupo escolhido para fechar o JiGG deste ano. Foi através dos discos que primeiro conhecemos este trio, que surpreenderam com um jazz musculado, onde o rock se ouve com nitidez. A música é feita com frases fortes e concisas que entram em esquemas repetitivos, bem tratadas pelo baixo eléctrico e pela bateria. No admirável jardim do Goethe Institut, numa tarde perfeita, a música não perdeu a carga, mas adquiriu uma certa placidez; soou surpreendentemente bem debaixo do frondoso arvoredo e os ciclos repetitivos pareciam um dub para o Usain Bolt.

Peter Van Huffel tocou com intensidade. Foi ele quem instalou as melodias no saxofone alto depois de Roland Fidezius (baixo) e Rudi Fischerlehner (bateria) marcarem a sua loucura. A originalidade do grupo vem em grande parte do trabalho da secção rítmica, que dentro de esquemas repetitivos é capaz de criar uma série de variações e de manter uma actividade microscópica virtuosa. Acontecia muita coisa dentro daqueles ciclos. Os títulos dos temas traduzem ideias pesadas – “Iron Lung”, “Brain Drain”, “Blood Stain”, “Before I Die” –, mas o trio colocou a música a funcionar dentro de um “groove”cativante, com temas fáceis de seguir e memorizar.

No final, o público aplaudiu e o “encore” apareceu com naturalidade. Saímos do Goethe com uma excelente disposição, despedindo-nos deste pequeno festival que vai marcando o Julho lisboeta e que, de algum modo, serve para aquecer os motores para a “tour de force” do Jazz em Agosto da Gulbenkian, também programado por Rui Neves. (G.F.)