Honest John + Hamas Trio + Lobo / Tembe / Jacinto / Franco, 11 de Maio de 2018

Honest John + Hamas Trio + Lobo / Tembe / Jacinto / Franco

Em busca de alternativas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

A procura de outras vias que escapem à estagnação da música improvisada parece por vezes tomar a forma de um regresso à composição. Foi o caso do grupo que com Norberto Lobo gravou “Estrela” (foto acima) e dos Honest John, em mais sessões ocorridas pelos lados da Parede.

Curioso. Em três noites de concertos (três em dias seguidos, 3 e 4 de Maio, um outro a 9) assistiu-se na SMUP a diferentes tipos de abordagem à improvisação que procuram, com maior ou menor sucesso (no que ao processo respeita), uma alternativa à vulgata desta tendência da música. No caso da apresentação do projecto The Temple of Doom – a que não pudemos assistir –, proposto por Luís Lopes, Albert Cirera, Hernâni Faustino e Vasco Furtado, o nome-tipo de um certo metal prometia algo não muito distante daquilo a que se chama jazzcore, mas os vídeos entretanto colocados na Internet da actuação documentam uma música livremente improvisada coincidente com as demais praticadas pelos músicos envolvidos. E se os Honest John de Klaus Ellerhusen Holm têm uma identidade muito própria nestes domínios, aos níveis escandinavo e europeu, a associação do clarinetista e saxofonista a Faustino e a Nuno Morão no âmbito do Hamar Trio foi em pleno caldeirão do género pretensamente “não-idiomático” que mergulhou. Com garra e ganas, sem dúvida, mas nada acrescentando ao que já sabemos…

Fugir a enquadramentos tem, no entanto, os seus custos, ganhem estes uma relevância negativa ou positiva. No que respeita ao quarteto de Norberto Lobo com Yaw Tembe, Ricardo Jacinto e Marco Franco os resultados são francamente positivos, mas se o guitarrista que começou por ser identificado com a “weird folk” foi buscar à música improvisada e às franjas do jazz os músicos que o acompanham no recentemente editado “Estrela”, óbvio é que se trata de um projecto essencialmente escrito. A ideia de Lobo terá sido abrir os temas à improvisação, mas os seus companheiros aproveitaram a oportunidade para se focarem na função de intérpretes de peças com estruturas definidas e linhas melódicas claras. Ou melhor, para assumirem por inteiro algo que é muito diferente (que não no caso específico de Marco Franco, como verificamos em “Mudra” e nos dois discos dos Mikado Lab) daquilo que habitualmente fazem.

Colocados em círculo no centro do salão da SMUP, com o numeroso público a rodeá-los, os parceiros de Norberto Lobo não esconderam as suas origens, reforçando a introdução pelo líder e compositor, aqui ou ali, de abstracções texturais e dissonâncias harmónicas, mas por uma vez fizeram-no por contraste e não por regra. Estavam lá elementos da livre-improvisação e da música experimental, bem como alguma da sonoridade do jazz, sobretudo por via do trompete de Tembe e da bateria de Franco, mas a linguagem obtida era a da lounge music e do easy listening. As extravagâncias performativas e os desenvolvimentos exploratórios funcionavam como se John Cage se tivesse associado a Les Baxter, resultando em algo que era simultaneamente familiar e bizarro. Assim uma espécie de música havaiana “avant-garde”, como se estivéssemos diante de um Don Cherry banhado em “kitsch” por Marc Ribot. Foi bom de ouvir, mas claro que não resolveu os dilemas da música improvisada e não era esse, sequer, o propósito de Lobo. Nem com certeza o dos seus companheiros, que terão querido apenas afastar-se dos ditos.

A estratégia “escapista” dos Honest John é bastante distinta, mas também com a privilegiação do factor composicional – passando a ideia de que a cristalização da improv só se resolve com um regresso à pauta, o que não é propriamente uma boa notícia. No “marketing” do grupo refere-se que as fontes de inspiração deste são o free jazz holandês, o samba brasileiro e compositores eruditos como Webern e Sciarrino, mas se não foi isso que ouvimos na Parede, a menção caracteriza bem a vontade dissidente de Holm, Kim Johannessen, Ola Hoyer, Erik Nylander e do novo membro da formação, o acordeonista Kalle Moberg (em substituição de Ole-Henrik Moe, que ainda surge no CD acabado de lançar, “Treem”). As mesclas procedidas são também incomuns, entre música de câmara e folk, beneficiando da articulação de instrumentos populares e de uso tradicional como o clarinete, o banjo, o acordeão e uma simples pandeireta. O estilo composicional aplicado por Klaus Holm pouca relação tem com esta última vertente: remeteu-nos muito frequentemente para Anthony Braxton. O que encantou nesta prestação foi o folclorismo braxtoniano que a dominou, mais uma vez conciliando o reconhecível com o estranho, mas se havia mais improvisação do que com a trupe Estrela, era o papel que tudo determinava.

Esta é, de qualquer modo, uma questão antiga. Se grande parte da discografia de Braxton é constituída por música integralmente notada, o certo é que o multi-instrumentista norte-americano foi colocado no domínio do free jazz, tendência que, precisamente, procurou libertar-se da partitura. Trata-se de uma ambiguidade fundacional, para todos os efeitos, e há até quem sustente que a improvisação não existe nem pode existir, que o instrumento, a história da música, a formação obtida por um “improvisador”, o seu corpo e a situação por si mesma em que toca agem já como escrituras. No final, o que importa mesmo é outra coisa: o quinteto Honest John fez um belíssimo concerto.