Festa do Jazz, 28 de Março de 2018

Festa do Jazz

Como que um renascimento

texto Rui Eduardo Paes e João Esteves da Silva fotografia Andreea Bikfalvi

Foi uma Festa do Jazz diferente da dos últimos anos que decorreu no fim-de-semana de 22 a 25 de Março, dada a passagem do S. Luiz para vários espaços do Príncipe Real e do Bairro Alto. Manteve-se a grande adesão de público e a qualidade musical, com destaque para as prestações do JPES Trio, de Rodrigo Amado com Hernâni Faustino e João Lencastre e do The Rite of Trio.

Excluída da programação do Teatro Municipal de S. Luiz, a Festa do Jazz teve este ano lugar em vários espaços situados entre o Bairro Alto e o Príncipe Real, em Lisboa, com os concertos a concentrarem-se no Museu de História Natural e da Ciência e o concurso de escolas a fixar-se no Conservatório de Música. Foi como que um renascimento do festival, ainda que seguindo a linha de sempre. A jazz.pt assistiu a grande parte da autêntica maratona de eventos e aqui está a reportagem…

João Barradas Trio

 

Talvez porque a ideia era que os três concertos da noite de sexta-feira, 23 de Março, todos em trio, acontecessem em corrido, com as transições de um grupo para outro a fazerem-se com algum evento sonoro a acontecer, o acordeonista João Barradas e os seus cúmplices, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria, escolheram uma terceira via em alternativa ao que seria mais óbvio, tocar temas em sucessão ou colar “medleys”. Colocaram a improvisação em primeiro plano e as estruturas e os “chorus” melódicos foram surgindo ao longo do caminho, como figuras num quadro abstracto. Se algum do público ficou desorientado («parecia que estavam a tocar cada um para o seu lado», ouvimos comentar), a maioria dos presentes sentiu-se puxada de imediato para o que é essencial no jazz, a criação espontânea, e isso passou da plateia do Picadeiro do Museu de História Natural para os músicos.

Dois tipos de abordagem foram seguidos neste contexto muito particular: um estabeleceu-se por meio de um profundo sentido colectivo de construção, com cada um a fornecer apenas uma parte do todo que se pretendia alcançar, e o outro soltando os instrumentos das suas funções convencionais e tornando-os iminentemente solistas, com todos os três intervenientes a encontrarem múltiplos espaços para o fazerem efectivamente. Podemos até dizer que pairou por esta actuação algo do harmolodismo de Ornette Coleman e das estratégias da tendência M-Base, que Barradas terá interiorizado por intermédio de Greg Osby.

Ouvimos João Barradas tanto com o seu acordeão usual como com o MIDI, em registo de piano eléctrico Fender Rhodes, e chegou mesmo a tocá-los em simultâneo, com a mão esquerda no que tinha ao colo e a direita descida até ao teclado do que se encontrava a seu lado, no chão. Se o fez para introduzir um padrão rítmico numa ocasião específica, este procedimento acompanhante foi habitual durante o concerto. Em várias alturas o jovem instrumentista colocou-se no plano rítmico, como que instigando os seus pares a tomarem a dianteira na música, e estes não se fizeram rogados, com um Rosinha a soar com um especial lirismo e Pedroso a tecer curiosas teias polirrítmicas. (R.E.P.)

The Rite of Trio

 

Enquanto o palco mudava depois da prestação do João Barradas Trio, as colunas encheram a sala com um “spoken word” de fundo electrónico da responsabilidade do portuense The Rite of Trio, mas nada aí estava ainda do que se ia ouvir. E o que se ouviu foi uma música esquizoide em que o mais swingante jazz conflituosamente se casava com “riffs” de prog rock ou de metal, numa rapidíssima intercalação de métricas ou mesmo seguindo por simultâneas misturas de tempos. Só quem já conhecia o álbum “Getting All the Evil of the Piston Collar!”, porque foi esse o repertório apresentado, sabia ao que ia. André Bastos Silva, Filipe Louro e Pedro Melo Alves conseguiram provocar na assistência uma das mais agitadas reacções que pudemos testemunhar nesta edição da Festa do Jazz.

Melo Alves, que no ano passado recebeu o Prémio de Composição Bernardo Sassetti, já falou em entrevista da relação de amor-ódio que mantém com a bateria e que o tem levado, inclusive, a aprofundar os seus estudos de piano, mas o que fez com o seu primeiro instrumento só teve a ganhar com essa ambivalência emocional: as suas baquetas e os seus pés estavam por todo o lado, por vezes parecendo que era mais do que um baterista que ali estava. Num país de excelentes bateristas na área do jazz e da improvisação, ele é, com certeza, um dos mais entusiasmantes. Só músicos com igual capacidade poderiam estar com ele e o que Louro e Bastos Silva fizeram – o contrabaixista com uma solidez a toda a prova e o guitarrista serpenteando audazmente por entre o geral caos organizado – foi memorável.

Nas vésperas do lançamento de um novo disco, o concerto serviu para o grupo se despedir daquele que lhe marcou a estreia. E da melhor maneira, fazendo com que os abanares de cabeça na plateia indicassem o que se passava nas ligações sinápticas durante as interiorizações mentais do que ia ocorrendo. Os olhos, esses, fixavam-se nos pedais de efeitos da guitarra, esperando de um toque de sapato o que não era possível prever musicalmente do instante seguinte. (R.E.P.)

PLINT

 

Estava o palco do Picadeiro ainda em mudanças e a actuação do PLINT – ou mais exactamente, do Pablo Lapidusas International Trio – já se tinha iniciado, com o líder pianista a esticar improvisacionalmente a introdução do primeiro tema da actuação que concluiria a série “Três Trios”. Essa foi uma das ocasiões em que, no decorrer do concerto, ouvimos o piano a entrar no universo referencial da ECM, mas evidente ficou que essa é apenas uma das componentes de uma música que assenta, sobretudo, nas típicas pulsações latino-americanas, se bem que com as ambiguidades resultantes de se juntarem elementos hispânicos e brasileiros. Afinal, aquilo que se poderia esperar de alguém que nasceu na Argentina, mas viveu muitos anos no Brasil (Lapidusas), e de uma formação que inclui um músico cubano, o baixista Leo Espinosa.

Este talvez tenha sido o concerto que mais sofreu com as características do espaço em que nos encontrávamos, devido às suas dimensões, ao pé alto, à ressonância moldada pelas paredes de pedra e à humidade que pairava no ar em noite de chuva: sentiu-se que havia uma distância intransponível entre os actuantes e quem diante deles escutava. Uma música quente, jingada, pede uma sala igualmente quente, e se o PLINT é capaz de fazer saltar as pessoas das cadeiras numa sala de concertos pequena ou num bar (a jazz.pt teve já oportunidade de o testemunhar), nesta circunstância isso nunca chegou a acontecer. Mesmo quando Espinosa percutiu, algo espectacularmente, as cordas do seu baixo e Marcelo Araújo mostrou o que sabe fazer sentado diante de uma bateria.

Ficou, de qualquer modo, muito claro que o PLINT não é simplesmente uma banda de latin jazz: as composições do pianista têm uma complexidade inusual nesse âmbito e o virtuosismo das suas improvisações transportam-nas ainda mais longe, já para não referir a verve poética deste músico que agora vive em Portugal e que é inesperadamente europeia. Se o trio não esteve no seu melhor, marcou com esta participação algo que é importante perceber e que a própria Festa do Jazz insiste em mostrar: que o jazz é muitas coisas. (R.E.P.)

Eduardo Cardinho Quarteto

 

Verdadeiro agrupamento de virtuosos, o quarteto de Eduardo Cardinho junta o jovem vibrafonista aos membros do trio de João Barradas, todos eles companheiros de já várias aventuras musicais ao longo dos últimos anos, sendo evidente a cumplicidade que os une. Assente no cruzamento das sonoridades do vibrafone e do acordeão MIDI, ambos tocados com uma destreza deveras impressionante, sustentados por uma secção rítmica não menos poderosa e tecnicamente evoluída, o som deste grupo apresenta algumas semelhanças com o dos Home, sexteto liderado pelo acordeonista e do qual Cardinho também faz parte, não apenas por via da evidente proximidade ao nível da instrumentação mas pelas próprias afinidades estéticas que os dois parecem partilhar.

Composto por seis originais do líder, o repertório apresentado na tarde de sábado dia 24, bastante homogéneo, ainda que alternando entre temas mais rápidos e angulosos e outros de maior lirismo, próximos da balada, funcionou acima de tudo como rampa de lançamento para os solos, alguns deles particularmente inspirados, dos instrumentistas.

Possuidor de um ouvido apuradíssimo (note-se a sua precisão a acompanhar os colegas ou o aproveitamento quase instantâneo que faz de certas frases destes), Barradas alinhou por uma abordagem serena e extremamente focada. Meticuloso na construção dos seus solos, começando com frequência com pequenos motivos e respectivas variações a partir dos quais ia elaborando estruturas mais complexas, aqui e ali marcadas por interessantes dissonâncias, soube sempre guardar as suas frases mais rápidas e longas para os momentos em que mais sentido faziam. Já Cardinho, aparentemente mais espontâneo, atirava-se sem hesitações pelos caminhos mais vertiginosos, isto sem, no entanto, perder em momento algum o controlo do fluxo de ideias, revelador de uma especial musicalidade. Na bateria, Pedroso, excelente ao nível do controlo do som e das dinâmicas, foi o motor topo de gama a que há muito nos vem habituando neste tipo de contextos, ao passo que Rosinha mostrou uma vez mais tratar-se de um dos nossos melhores e mais completos contrabaixistas, tão seguro quanto criativo e com a particularidade de conseguir conciliar uma grande elasticidade rítmica com uma clareza muito acima da média.

Concerto de alto nível, imaculado quanto à execução, ter-lhe-á apenas faltado uma maior diversidade de ambiências ou afastamento da clássica estrutura tema-solos-tema, algo que, por exemplo, em muito favorecera a anterior actuação do trio de Barradas. (J.E.S.) 

Rodrigo Amado / Hernâni Faustino / João Lencastre

 

Um dos pratos fortes desta edição da Festa do Jazz, este trio inédito de Rodrigo Amado contava à partida com a participação do baterista e compositor canadiano Harris Eisenstadt, factor que por certo aguçou as expectativas de muitos. Um contratempo na viagem deste último até Lisboa precipitou, no entanto, uma mudança de última hora, com João Lencastre a ser chamado para o seu lugar. Também compositor e não menos aberto a explorações sem rede, tratava-se, em teoria, do substituto ideal, algo que se veio a confirmar ao longo de um concerto a vários níveis surpreendente e que proporcionou um dos melhores momentos do festival.

Se há exactamente dois anos, ainda na Sala Mário Viegas do São Luiz, numa apresentação do Motion Trio com Rodrigo Pinheiro como convidado, o grupo liderado por Amado acabaria por optar, como então fizera notar Rui Eduardo Paes, pela fórmula “take no prisoners”, desenvolvendo uma música febril e explosiva quase do princípio ao fim, aquilo que desta feita se ouviu por parte do saxofonista, numa tarde de elevada inspiração, acompanhado por Lencastre e pelo visceral mas cada vez mais preciso contrabaixo de Hernâni Faustino, incansáveis e sempre oportunos, correspondeu a um percurso assaz diversificado, dividido em três improvisações totais, todas elas marcadas por uma excepcional gestão da intensidade e das dinâmicas.

Houve lugar para vários momentos mais líricos ou introspectivos – alguns declaradamente jazzísticos, com Amado a construir autênticas baladas, ainda que abstractizadas, e outras a roçar uma certa música de câmara contemporânea mais orgânica, sobretudo quando Faustino recorria ao arco, estabelecendo um interessante jogo com o saxofone, e Lencastre explorava os pratos com delicadeza – e para outros em que a energia subiu a pique, ainda que os clímaxes fossem com frequência adiados, contrariando a circularidade em que facilmente se poderia cair num contexto como este. Fruto da paciência e do respeito pelo espaço de cada um por parte dos três músicos, sempre imaginativos e esperando pelos instantes certos para contribuíram para a trama sonora, geraram-se ainda, pelo caminho, várias sequências em duo ou a solo, oferecendo belos contrastes.

Fraseador notável e dotado de um dos sopros mais calorosos que por estes dias se vão podendo ouvir, Rodrigo Amado parece estar a atravessar um dos seus melhores momentos: a verdadeira reinvenção que opera das mais variadas tradições da história do jazz vai-se afigurando cada vez mais distintiva (as próprias alusões ao hard bop ou ao free que tão rapidamente lhe associamos não são de todo as mais óbvias) e o mesmo se poderia dizer do seu próprio som de tenor. Este concerto confirmou tudo isso e trouxe-nos ainda algumas das suas facetas menos conhecidas, sendo que para tal os seus colegas foram decisivos. (J.E.S.)

JPES Trio

 

Depois do sucesso internacional obtido pelo álbum “Brightbird”, um dos que constaram no topo das listas de melhores discos de 2017, inclusive na da jazz.pt, este era talvez o mais esperado concerto da Festa do Jazz, motivando uma curiosidade que mais se justificou pelo facto de, duas noites antes (estávamos já na tarde de domingo, 25), João Paulo Esteves da Silva ter recebido o Prémio de Carreira dos Prémios RTP / Festa do Jazz. Tal como o próprio pianista referiu, já a meio da performance, toda a música estava a ser criada no próprio momento, e importante foi o aviso, pois mais parecia que as situações desfiadas decorriam de motivos colocados em partitura. Esteves da Silva improvisa como um compositor, estruturando sempre, explorando fórmulas, e assim fizeram igualmente Mário Franco no contrabaixo e o baterista suíço Samuel Rohrer neste especialmente feliz “gig”.

Muito longe das coordenadas da chamada “música livremente improvisada”, tanto quanto da tendência do jazz que mais vive da improvisação, o free, a proposta do JPES Trio é acentuadamente melódica e incide, sobretudo, numa mutante elaboração harmónica. Nos fluxos criados evidente ficou a influência de várias frentes da música erudita contemporânea europeia e da new music norte-americana, em particular do minimalismo, evidenciado nas elipses repetidas que definiram o rumo do primeiro longo improviso. Ainda assim, ganhavam as síncopes jazzísticas, e estas até confluíram, no final (e por sugestão rítmica de Rohrer), num “groove” que não deixou ninguém ao engano.

Se as dinâmicas de grupo, no palco, confirmaram os motivos da excelência do projecto Brightbird, e se João Paulo Esteves da Silva esteve tão bem quanto o melhor que nos habituámos a esperar dele, uma palavra deve ficar para o trabalho desempenhado por Franco, tanto ao serviço do conjunto como a solar: não se tem elogiado o suficiente o quão completo é este músico que faz de uma linha de baixo um verso. (R.E.P.) 

André Fernandes Centauri

 

Ainda mal refeitos da passagem do JPES Trio pela Festa do Jazz, assistimos à apresentação pelo guitarrista André Fernandes do seu novo grupo, Centauri, e do disco debutante deste, “Draco”, e de novo ficámos com as medidas cheias. Mais do que um projecto montado à volta da guitarra, ficou patente que se trata de um investimento composicional. Fernandes dirigiu particularmente a sua atenção para a escrita destinada a uma dupla de saxofones, os de João Mortágua e de José Pedro Coelho, procurando cobrir todas as possibilidades associativas dessa frente melódica, dos uníssonos de alcance orquestral aos duplos solos, com muito a acontecer de permeio. Se o “reverb” natural do Picadeiro não foi simpático para os sopros, percebeu-se bem o que estava em causa, com dois dos melhores saxofonistas da nova geração do jazz português a justificarem a sua fama.

Como não podia deixar de ser, também a guitarra de Fernandes brilhou, e tanto em situações de carácter mais ambiental (como na passagem em que múltiplas camadas de “loops” sugeriram uma paisagem alienígena) ou mais idiomaticamente alinhadas pelo rock, com um generoso uso da distorção. O suporte dado pela secção rítmica de Francisco Brito e João Pereira – um João Pereira substancialmente diferente daquele que conhecemos com o Ricardo Toscano Quarteto – foi exemplar, até pelo facto de conjugar impacto com economia de meios. (R.E.P.)

A Festa do Jazz teve muito mais em cartaz do que seria possível para a jazz.pt cobrir. Teve logo a 22 de Março um concerto de Pré-Festa com o novo quarteto de Carlos Martins, o seu director artístico, com João Paulo Esteves da Silva, André Rosinha e Alexandre Frazão. Teve, na noite de dia 24, a apresentação pela cantora Beatriz Nunes do recém-lançado álbum “Canto Primeiro”, acompanhada por Luís Barrigas, Mário Franco e Jorge Moniz. Na mesma sessão, seguiu-se Maria João com os Ogre em trio. No fecho do festival, actuaram ainda o Ricardo Pinto Quinteto com a banda de “Sul”, designadamente Ricardo Toscano, Óscar Graça, André Rosinha e Luís Candeias, e o Alexandre Coelho Quarteto, tendo João Mortágua, Gonçalo Moreira e João Cação ao lado do baterista.

Tiveram ainda lugar o habitual concurso de escolas de jazz, duas “masterclasses” dirigidas por Andy Sheppard e Pablo Lapidusas, a aqui já referida atribuição dos Prémios RTP / Festa do Jazz (Rita Maria, Home e Pedro Branco foram os demais contemplados) e uma conversa sobre Jazz e Género, culminando no feito histórico da formalização daquela que é a Rede do Jazz Português, pela primeira vez juntando diversas entidades da comunidade jazzística nacional num mesmo propósito.