Ciclo Jovens Improvisadores, 19 de Março de 2018

Ciclo Jovens Improvisadores

Caras novas e boas ideias

texto Rui Eduardo Paes fotografia Maria Bicker

O propósito era centrar as atenções sobre uma novíssima geração de improvisadores de que pouco ainda se conhece e isso atraiu uma larga assistência ao O’culto da Ajuda. Numa só noite foram três os concertos e em todos eles se revelaram boas propostas, embora os dois primeiros também ficassem marcados por alguma, previsível, pouca experiência. Excelente foi a prestação do trio Symph (foto acima), no final.

Em boa hora teve lugar, no passado dia 16 de Março, esta primeira edição do Ciclo Jovens Improvisadores, para mais num espaço, o O’culto da Ajuda, em Lisboa, que tem todas as condições para apresentar da melhor maneira os argumentos da novíssima geração de músicos que escolheram os processos da improvisação. A selecção (e, num par de casos, a própria combinação de instrumentistas) de João Esteves da Silva, o comissário da iniciativa, colocou em palco um conjunto de nomes na sua maioria pouco ou nada conhecidos do público, por coincidência ou não parecendo vir, também na sua maioria, de uma formação clássica. Distantes estão os tempos em que as proveniências dos praticantes da improvisação eram o rock, o jazz e, no caso dos utilizadores de dispositivos electrónicos, as artes visuais.

A noite começou com um duo de instrumentos harmónicos, a guitarra eléctrica de João Carneiro e o piano de Guilherme Aguiar. A improvisação muito estruturada começou com o que sugeria o rebentar das pequenas bolhas de um plástico de embrulho ou variações do código Morse, para dar lugar mais adiante a um “drone” rarefacto, quase no limiar do silêncio, com alusões tanto à música de Morton Feldman como ao ambientalismo de Brian Eno. Foi esse o melhor quarto de hora de um concerto que pecou pela extensa duração. Mais se seguiu, e se evidente ficou que os dois intervenientes procuravam cobrir diferentes tipos de situação, num algo insensato desejo de tudo mostrar na circunstância, várias vezes acabaram por repetir o que já fora feito. A música foi subindo e descendo no que julgámos ser uma intencional gestão de anticlímaxes, mas para nossa surpresa o fim chegou depois de um ataque violentíssimo às teclas por parte do pianista – o tal clímax sempre contrariado acabou mesmo por acontecer, e com uma desmesura, um despropósito, que contrastou com as ambiências oníricas antes mantidas. Patente ficou, de qualquer modo, que importará dar toda a atenção a esta dupla.

Guilherme Aguiar e João Carneiro

Mariana Dionísio e Miguel Sobral Curado

Pedro Melo Alves

José Diogo Martins

A participação seguinte, construída à volta da vocalista Mariana Dionísio e do baterista Miguel Sobral Curado, processados em tempo real por Phillipe Trovão e Lucas Xerxes, decidiu-se pelo livre improviso. Ao que apurámos, o estreante quarteto levou para o O’culto algo já preparado, mas durante o “soundcheck” surgiram alguns problemas com a espacialização sonora do material que tinha sido escolhido. Os primeiros tratamentos de sinal fizeram-se sobre a bateria do filho do consagrado saxofonista e flautista Paulo Curado, com cada toque nos pratos e nas peles a provocar complexas reacções electrónicas. Estas vieram depois da voz de Dionísio e fixaram-se finalmente na interacção entre ambos, com pequenos apontamentos que vinham das colunas distribuídas em vários pontos da sala. Do que ia fazendo a cantora desejava-se que houvesse maiores desenvolvimentos exploratórios, mas foi evidente que houve da sua parte, bem como de todos, o receio de que a gestão electroacústica da performance se descontrolasse. As ideias estavam lá e eram boas, mas o desempenho ficou contido pela pouca experiência evidenciada nestas lides. Com o tempo e a insistência é de esperar que lá cheguem, e Esteves da Silva comunicou o propósito de levar estes mesmos projectos a outros espaços.

A terceira proposta da sessão teve outro cariz, até pelo facto de envolver dois músicos com provas dadas, o contrabaixista (na ocasião também com um baixo eléctrico e larga pedaleira) Hugo Antunes e o responsável do igualmente debutante trio Symph, Pedro Melo Alves, que o ano passado recebeu o Prémio de Composição Bernardo Sassetti e esteve no topo das listas de melhores músicos de 2017. Foi a actuação com mais conotações jazzísticas e foi aquela também em que a dimensão tecnológica teve maior lastro, não sem que, pelo meio, o computador do líder baterista crashasse – o que, acrescente-se, não afectou grandemente a performance. Se Alves e Antunes cumpriram o que deles já nos habituámos a ouvir, uma magnífica surpresa foi o trabalho de José Diogo Martins ao piano. Com uma abordagem poética que por vezes nos fez lembrar João Paulo Esteves da Silva, embora em versão dissonante e menos tonalmente centrada, o que Martins nos deu a ouvir foi particularmente impressionante. Venha mais Symph e venham mais edições do Ciclo Jovens Improvisadores…