Amadora Jazz, 6 de Março de 2018

Amadora Jazz

Lugar aos jovens

texto Rui Eduardo Paes fotografia Marta Caeiro

A oitava edição do ciclo de jazz da Amadora voltou na passagem do mês de Fevereiro para Março a mostrar o quão diversas são as propostas que em Portugal se abrigam sob a designação “jazz”. O consagrado Carlos Martins foi o cabeça-de-cartaz, mas o grosso do programa deste ano recaiu, mais uma vez, sobre as novas gerações e estas brilharam (foto acima: Desiderio Lázaro "Moving").

A oitava edição do Amadora Jazz começou com uma substituição no programa a 28 de Fevereiro: em vez do previsto duo Mano a Mano, dos irmãos guitarristas Bruno e André Santos, apresentou-se no Salão Nobre dos Recreios da Amadora o saxofonista Desidério Lázaro com o grupo com que gravou o novo “Moving”. Um impedimento de última hora foi, assim, a oportunidade para testar ao vivo uma fórmula que ainda há umas semanas convenceu em disco, abrindo o novo ano com uma excelente proposta. E o que se ouviu agradou ao público que o mau tempo nessa noite não demoveu de comparecer, se bem que Lázaro, consciente do universo musical muito particular do projecto, e porque esse era um concerto grátis e, logo, com uma assistência que poderia ficar assustada com a abordagem eléctrica em causa, decidiu intercalar alguns dos temas do disco por outros de fruição mais pacífica. Ao longo da noite, o músico foi perguntando se a actuação estava «demasiado alta» e se era preciso reduzir o impacto do som que saía das colunas e dos amplificadores, mas ninguém se queixou…

E ninguém se queixou porque depressa os ouvidos ficaram conquistados, muito devido às melodias especialmente “cantabile” (mesmo quando o saxofone tenor era transfigurado pelo processamento electrónico), suportadas pela rítmica ora cerrada, ora leve do baixo ou do contrabaixo de Francisco Brito e da bateria de Joel Silva, mas também por obra do notável, e muito particular, trabalho harmónico que ia sendo construído, entre um paisagismo algo cinematográfico e carregado de efeitos e um camp rock que nos pôs a imaginar um grupo de amigos à volta de uma fogueira na praia. Quando o factor harmonia dominava, o relevo ia para a guitarra de João Firmino, um dos mais cativantes manipuladores desse instrumento entre nós. A opção em termos de repertório foi para uma música mais introspectiva, tal como de resto acontece no álbum, e momentos houve em que apetecia fechar os olhos e deixarmo-nos transportar pelas calmas correntes de ar. De cada vez que surgiam “riffs” mais picados e sujos era como se descêssemos à terra, e bem terreno, paradoxal aliás, foi o pasodoble taurino que surgiu no alinhamento.

A partir da segunda sessão, a 1 de Março, o Amadora Jazz passou para o auditório. Foi aí que se apresentou o Alexandre Coelho Quarteto, também este com um novo registo a circular, “Idiosyncrasies”, e também este misturando composições do álbum com outras dos anteriores. O formato era o do bebop, sempre com o saxofone alto de João Mortágua a opor-lhe, nos conteúdos, a linguagem apaziguada do estilo cool / West Coast e sempre com geometrismos composicionais que não eram os dessa tendência do jazz, também jogados segundo uma lógica de contrastes, por exemplo entre tempos rápidos e lentos, em inesperadas mudanças de umas situações para outras, ou entre tipos de ataque, o “punchy” dando lugar ao quase pianíssimo. Ficou plenamente demonstrada a competência instrumental dos quatro membros do grupo, o pianista Gonçalo Moreira e o contrabaixista João Cação para além do líder baterista e de Mortágua, que se mostrou na plenitude das suas capacidades, mas faltou alguma coisa para que a abordagem à estética escolhida fosse, de facto, idiossincrática – isso só viria a acontecer no derradeiro concerto do ciclo, na forma como os Cornettada levaram os conceitos harmolódicos mais além. Faltou, designadamente, um maior sentido de risco e um “bending” mais assumido, porque o resto, o essencial, já o grupo tem: capacidade de afirmação e uma personalidade colectiva.

Seguiu-se, dia 2, o novo quarteto do cabeça-de-cartaz deste Amadora Jazz, Carlos Martins, com o veterano pianista João Paulo Esteves da Silva e o muito promissor André Rosinha no contrabaixo a ocuparem os lugares em que antes encontrávamos Mário Delgado e Carlos Barretto, mantendo-se Alexandre Frazão na bateria. As peças interpretadas (do saxofonista sobretudo, mas também de Esteves da Silva e uma de Bernardo Sassetti) eram antigas, mas com este elenco ganharam outra e muitíssimo interessante vida. Se o CD “Absence” (2014) significou, na música de Martins, uma subtracção de elementos e uma suavização expressiva, neste agora anunciado rumo a aposta parece estar na utilização desses resultados como o grau zero para outro tipo de acrescentos – sobretudo, para um aumento controlado da expressão. Por parte de Martins voltou a surgir o som doce, derivado do saxofonismo ECM, que o vem caracterizando nos últimos anos, mas quando a música subia de intensidade transparecia igualmente no seu estilo pessoal tudo o que tinha e tem de coltraneano.

Alexandre Coelho Quarteto

André Rosinha e Carlos Martins

João Paulo Esteves da Silva

Cornettada

Aquele que é, sem sombra de dúvida, o nosso melhor pianista esteve particularmente bem nesta noite de muita chuva que, ainda assim, proporcionou uma sala composta, com Rosinha a arrancar vários bons solos, o que já se vai esperando deste jovem músico, e Frazão a confirmar a fama que o precede. Se Martins procurou soar europeu e se as modas que utilizou inocularam o jazz ouvido de uma certa portugalidade, João Paulo Esteves da Silva foi mais “americano” do que lhe é vulgar. A composição mais sincopada da noite era de sua lavra, mas como que nos convidando a desconfiar das evidências a temática sugeria referências sefarditas e não propriamente afro-americanas. Aliás, e ao contrário, o muito português “encore” do quarteto surgiu com cores nova-iorquinas: uma agitada interpretação, ao jeito do hard bop, de uma canção de 1932 saída de um espectáculo de teatro de revista, “O Mexilhão”: “Teodoro Não Vás ao Sonoro”.

A conclusão do Amadora Jazz deste ano, a 3 de Março, fez-se com os Cornettada de Hugo Antunes (contrabaixo), Giovanni Di Domenico (piano) e João Lobo (bateria), no termo de uma residência artística dedicada à gravação daquele que será o seu primeiro disco e que marcou a retoma do trio depois de dois anos de interregno, os equivalentes ao regresso de Antunes a Portugal. Nascido em Bruxelas, onde todos então residiam e ainda permanecem Lobo e o pianista italiano, o projecto partiu há seis anos da intenção de reinterpretar os temas (sem piano) de Ornette Coleman, pelo meio acrescentando composições próprias (na Amadora ouvimos três de Di Domenico) inspiradas no criador do método harmolódico, no caso consistindo este na combinação de três solos, sem hierarquias de funcionamento, ou melhor dizendo, de três improvisações autónomas sobre uma mesma linha melódica. Desvios ao centro tonal proporcionado por este foram uma constante, levando tanto a dissertações de carácter impressionista, com destaque para Giovanni Di Domenico, como a construções rítmicas que sugeriam a música Gnawa, o que não estranhou sabendo-se que Lobo integra a banda Trance Mission, de Gregoire Tirtiaux e Maalem Hassan El Gadiri.

Como que numa desmontagem do processo, três solos literais com base na mesma melodia ocorreram no concerto, e os três totalmente distintos – e brilhantes, como é de sublinhar. Se as premissas de Coleman foram esticadas de modo a caberem num trio de piano jazz, conduzindo a desenlaces que não estavam na música original da histórica figura que os Cornettada assim homenageiam, o certo é que a linguagem do grupo foi especificamente a do jazz – de resto, nunca nos foi possível encontrar Di Domenico num registo tão jazzístico quanto este. Tal como José Miguel Pereira, do JACC, prometera na apresentação, foi um fecho a ouro. Na tarde do mesmo dia, mas no Cineteatro D. João V, subiu ainda ao palco o GeraJazz, ensemble saído da Orquestra Geração que o ciclo integra tradicionalmente, num investimento apontado para o futuro deste género musical de contornos tão amplos quanto os que nesta prosa se comentam.