Rescaldo, 28 de Fevereiro de 2018

Rescaldo

Quando a diversidade é consistente

texto João Esteves da Silva fotografia Ana Maria Amorim

Festival dedicado às músicas de ponta que se praticam no nosso país, sem privilegiar nenhuma em particular, o Rescaldo apresentou-nos este mês de Fevereiro, em dois fins-de-semana, músicos com percursos na área da improvisação e do jazz que têm projectos de outro teor. A jazz.pt ouviu alguns deles (foto acima de Joana Gama: Cláudia Cruz).

Comissariado por Travassos, músico electroacústico, responsável da editora Shhpuma e “designer” dos discos desta e da Clean Feed, o festival Rescaldo tem vindo a afirmar-se desde há vários anos como um local privilegiado para a escuta de músicas aventurosas e de difícil classificação. Decorridos entre os dias 16 e 24 de Fevereiro, os 11 concertos que marcaram a sua 11ª edição distribuíram-se (não por acaso) por três espaços muito diferentes, entre a Culturgest (Pequeno Auditório e garagem) e o emblemático Panteão Nacional. Apenas pudemos dar cobertura a quatro dessas actuações, mas aquilo que ouvimos foi, sem dúvida, suficiente para atestar o interesse de muitas das propostas em cartaz, bem como a própria vitalidade do festival, ecléctico na forma como tanto se aproxima, numa atitude experimental livre de hermetismos, do jazz, do rock ou da composição contemporânea, sem, contudo, se deixar capturar por nenhum desses rótulos e mantendo, apesar dessa mesma diversidade, uma linha estética consistente.

 

Joana Guerra / Harmonies

A sessão de dia 17 (sábado), no Pequeno Auditório, mais intimista e indicado para receber formações de natureza camerística, abriu com um concerto a solo da violoncelista e cantora Joana Guerra, essencialmente à volta de canções (com letras em Português, Inglês e Francês) do seu último álbum, “Cavalos Vapor” (Revolve, 2016) e do qual resultou aquilo a que poderíamos chamar um belo e singular “cocktail” musical, dada o vasto leque de influências e estilos que aqui confluem com grande organicidade.

Mais longa que as restantes, a primeira peça foi reveladora quanto à multiplicidade de estratégias a que Guerra recorre neste projecto: a sua abordagem ao violoncelo vai de um maior experimentalismo (este, por sua vez, ora mais áspero – visceral, ctónico – ora centrado em apontamentos delicados devedores à música escrita contemporânea) a uma faceta declaradamente “groovy” (algures entre o rock, a pop e a folk), sem esquecer a técnica clássica; além disso, serviu-se com frequência de “loops” e mais alguma electrónica complementar para sobrepor múltiplas camadas sonoras (por várias vezes introduziu, por exemplo, um determinado motivo repetitivo, em pizzicato, que depois gravava e deixava a soar, complementando-o depois com o arco e a voz). As canções que se seguiram, assentes neste tipo de recursos, variaram entre a introspecção (misteriosa, intimista) e a expansividade (quando assim foi, Guerra conseguia encher verdadeiramente o palco com a força da sua presença). Terminando com uma espécie de intenso “mantra”, esta excelente actuação deixou bem patente o potencial de uma artista a não perder de ouvido.

Logo após um curto intervalo, subiu ao palco o trio de Joana Gama (piano), Luís Fernandes (electrónica) e Ricardo Jacinto (violoncelo e electrónica), para apresentar o seu projecto “Harmonies”, um tributo a Erik Satie, recentemente editado pela Shhpuma. Grosso modo, foi seguido o programa do disco, executado com segurança. Mantendo-se relativamente próximos do material gravado, não deixaram, ainda assim, de se verificar várias interacções espontâneas entre os músicos, sobretudo nas passagens de carácter mais exploratório.

A presença do compositor francês faz-se aqui sentir de várias maneiras, a começar pelo seu legado enquanto importante precursor do minimalismo, por via de uma música em grande medida centrada num jogo entre a repetição e pequenas variações (oiçam-se os ostinatos e outras figuras repetitivas que dominam as passagens do piano ou as transformações lentas e graduais das atmosferas introduzidas pela electrónica), entre continuidades e rupturas, mas que, por outro lado, está longe de se fixar apenas aí, sendo estes desenvolvimentos mais lineares não raras vezes perturbados (ou, melhor dizendo, enriquecidos) por elementos esparsos oriundos da manipulação directa das cordas por parte de Gama ou do seu ocasional recurso a preparações e ainda de muito do trabalho mais plástico de Jacinto, com o bom gosto a que nos tem habituado. Também uma boa parte das densas “samples” de Fernandes, decisivas para a moldagem do som do grupo, se baseiam em harmonias que evocam Satie.

Resultante de um notório trabalho de pesquisa, mas não por isso menos impactante do ponto de vista sensitivo, este mesmo som de grupo, algures entre uma certa electrónica atmosférica, a música minimalista para piano (e.g.: Glass), a música de câmara contemporânea ou a música de cinema, a par de uma ou outra aproximação a sonoridades de aparente inspiração oriental, que conquistou já um espaço bastante distinto, tem tanto de intrigante e misterioso, do quase silêncio (por vezes fantasmagórico) a ambientes intensos, como de acessível.

 

Joana Gama: Satie, Cage & Feldman

 

Se é verdade que um recital cujo programa associa obras de Satie, John Cage e Morton Feldman está longe de constituir uma novidade, até pelas várias afinidades entre os três compositores (além de, cada um à sua maneira, todos eles se terem preocupado significativamente com o papel do silêncio na música e com uma certa ideia de despojamento sonoro, Cage sempre se identificou com o espírito bem-humorado e provocador de Satie, tomando-o como referência, ao passo que o primeiro acabaria por ter um impacto decisivo no desenvolvimento da obra do seu amigo Feldman, concedendo-lhe, segundo as palavras deste, «a permissão, a liberdade para fazer aquilo que pretendia», i.e., para abraçar as suas intenções de tomar a partitura como se de uma tela se tratasse e de ir beber tanto à pintura dos seus contemporâneos da chamada escola de Nova Iorque, sobretudo Rothko, como aos padrões de tapetes persas; atentando à espacialidade, à extrema depuração ou às subtilíssimas mas incessantes irregularidades rítmicas que caracterizam a sua música, sobretudo as suas composições tardias, tão inusitadas inspirações tornam-se em grande medida perceptíveis), o facto de este ter sido destinado a um espaço com um acústica tão peculiar quanto a do Panteão Nacional fez com que o caso mudasse inteiramente de figura.

Aquilo a que o numeroso público que acorreu ao monumento nessa tarde de domingo teve a oportunidade de assistir foi um verdadeiro “happening” sonoro: apesar de se tratar de música escrita, as peças funcionaram acima de tudo como ponto de partida, acabando por se ver quase que recriadas pelas condições acústicas em que foram interpretadas; aliás, certas decisões tomadas pela pianista denotaram uma clara preocupação com esse factor. Começando por interpretar as “Ogives” (1889) de Satie, quatro breves peças cujos uníssonos e oitavas ou os contrastes dinâmicos (entre pianos e fortíssimos) teriam a pretensão de evocar a sonoridade de um grande órgão de igreja, Joana Gama, que dispunha aqui das condições ideais – ainda que de certa forma extremas – para produzir esse efeito, optou por enfatizar ao máximo os fortíssimos, deixando uma densa massa sonora reverberar pelo interior do edifício, ao ponto de o pedal direito do piano se ter, por vezes, tornado quase análogo a um pedal de órgão ou mesmo de um instrumento electrónico; massa essa que, além do órgão idealizado por Satie, chegava mesmo a remeter para as “samples” utilizadas por Luís Fernandes na noite anterior.

Seguir-se-iam os “4’33’’” (1952) de Cage, com o silêncio a ser preenchido sobretudo pelas tosses e outros pequenos ruídos vindos da assistência e que toda a imensa reverberação fazia de imediato sobressair e, por fim, o grande momento do recital (e um dos destaques deste Rescaldo): a interpretação da sublime “Palais de Mari” (1986) – alusão às ruínas do milenar palácio situado na actual Síria – peça típica (ainda que, com habitualmente entre 20 a 30 minutos, bem menos extensa do que outras) da fase tardia de Feldman.

Sem se afastar dos cânones associados à execução destas composições lentas, espaçosas e de longa duração (muito embora a acústica lhe conferisse naturalmente uma certa imponência adicional), Gama revelou-se uma sólida intérprete deste repertório: sensível quanto às dinâmicas, segura e flexível quanto às métricas de grande exigência e, acima de tudo, com o temperamento ideal para conseguir manter de pé o fio condutor desta música que tem tanto de encantatório como de intrigante e que tende a requerer do ouvinte uma disposição particular. Aqueles que, tal como a pianista, impassível, se deixaram imergir nela, tiveram aqui uma experiência recompensadora: parafraseando uma muito certeira descrição que o compositor Tiago Cutileiro fez da peça, foi como se, durante pouco menos de meia hora, o tempo, sob o efeito das leves “pinceladas” abstractas de Feldman, se tivesse tornado espaço.

 

Eitr + Gabriel Ferrandini

Depois do Pequeno Auditório e do Panteão, chegou a altura de a garagem da Culturgest acolher os restantes concertos. Foi a vez, portanto, de um ambiente tipicamente “underground”, outra das facetas do festival, plenamente adequada aos projectos que aí se apresentaram. Entre estes, destaque para o duo Eitr (Pedro Sousa e Pedro Lopes), aqui transformado em trio com o reforço (e que reforço!) de um cúmplice de longa data de ambos, Gabriel Ferrandini. Mesmo para quem vem já acompanhando o trabalho destes músicos, tratou-se de um concerto a vários níveis surpreendente e no qual, desde os seus primeiros instantes, se instalou uma atmosfera singularíssima.

Se Sousa se tem afirmado como um dos nossos mais enérgicos cultores da dita estética do grito, trouxe-nos desta feita um lado mais introspectivo, apostando maioritariamente num fraseado conciso, à base da repetição ou de notas prolongadas, com pequenas variações, ou numa exploração contida (no bom sentido) de diversos efeitos acústicos, electrónicos ou mistos; por instantes, chegou mesmo a emitir um som tão curioso quanto o dos soluções de um berbequim e o seu habitual “tongue slapping” teve tanto de visceral como de subtil. O seu saxofone ora planou sobre a trama que os colegas iam intensamente tecendo ora se lançou dentro dela, colaborando na sua elaboração. Por sua vez, a interacção, irrequieta mas muito atenta, entre Lopes, com a sua aproximação percussiva aos gira-discos expandidos, mas que também se aventura pelos modos de um maior paisagismo, bastante rico do ponto de vista textural, ou do “drone”, e Ferrandini, também ele exímio ao nível da exploração de timbres e da construção de texturas, teve incidentes notáveis, além dos momentos em que iam alternando entre si papéis de maior estaticismo ou imprevisibilidade.

Aqui e ali, o saxofonista e o baterista, que também mantêm um duo, chegaram a roçar muito ao de leve (não mais do que isso, ao contrário do que alguns talvez pudessem esperar) os domínios de um certo free, ainda que desfigurado pela presença de Lopes, mas fora isso, a música do trio, que conseguiu chegar a um som de grupo muito próprio, foi sempre esquiva em relação a possíveis tentativas de catalogar aquilo que se ia ouvindo, tal a frescura de muita da experimentação sónica levada a cabo.

Se de algum modo pareceu faltar uma “narrativa” com princípio, meio e fim a este concerto (relativamente curto, diga-se) – as maiores agitações, sem nunca conduzirem a uma explosão (o ansiado momento de catarse), muito embora esta tivesse sido por várias vezes insinuada, rapidamente davam lugar a momentos de acalmia, se bem que uma acalmia apenas parcial, já que a tensão jamais deixou de pairar, inclusive em ocasiões de quase silêncio, este, por sua vez, a qualquer instante à mercê de se ver cortado por algum tipo mais incisivo de ataque –, o que é facto é que um dos principais motivos de interesse residiu justamente aí: qual “nouveau roman”, fomos assistindo como que a sucessivas repetições da mesma cena, ainda que não raras vezes irreconhecíveis entre si dado o grau de variação, ou, recorrendo a outra analogia, como se da contemplação de um objecto estático (ou, quando muito, girando sobre si próprio) se tratasse, mas um objecto repleto de mutações internas, de um suspense latejante – denso, escuro, quente e sujo, mas invulgarmente atraente.